A Altave transforma balões em torres flexíveis para monitoramento e comunicação

- 2 de agosto de 2017
Leonardo Nogueira: o sonho de ser piloto deu lugar à aventura de empreender como engenheiro aeronáutico
Leonardo Nogueira: o sonho de ser piloto deu lugar à aventura de empreender como engenheiro aeronáutico

 

Durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), o então Marquês de Caxias “comprou” uma ideia colocada em prática pouco antes, na Guerra de Secessão Americana (1861-1865). O comandante militar e futuro Duque mandou trazer dos Estados Unidos dois balões que, atados ao solo, a até 140 metros de altura, funcionariam como postos de observação. A novidade era um trunfo para as forças brasileiras, que ganhavam assim um ponto de vista privilegiado para mapear a paisagem, fazer correções cartográficas, redesenhar rotas estratégicas e identificar a posição e as intenções das tropas inimigas. Eventualmente, os paraguaios passaram a adotar a tática de levantar fumaça quando viam o balão, para cegar os vigias brasileiros.

O conceito de balão cativo (ou seja, preso ao chão) vem sendo resgatado por dois empreendedores cariocas no interior paulista: Leonardo Nogueira, 31 anos, e Bruno Avena, 30. Eles são os sócios da Altave, empresa fundada em 2011 que produz, vende e aluga balões cativos para uso em ações de monitoramento e comunicação. Convertido em suporte móvel de infraestrutura, o balão oferece aplicações variadas, desde prover sinal de celular em locais remotos a vigiar fronteiras e evitar incêndios florestais. “Fornecemos uma ‘torre flexível’ na qual os nossos clientes podem plugar qualquer dispositivo que eles queiram e ‘pendurar’ no ar”, explica Leonardo, um filho de militar que precisou largar o sonho de ser piloto por problemas de joelho e visão.

A Altave é uma das empresas que estão sendo aceleradas pelo Braskem Labs 2017. Leonardo explica que a expertise da Braskem na produção de plástico foi um dos pontos de convergência que motivaram sua startup a buscar o programa. “O nosso balão tem duas camadas: uma externa, de nylon, que dá resistência; e outra interna, de plástico, responsável por armazenar o gás. Quanto melhor for este plástico em termos de peso e estanqueidade, ou seja, em sua capacidade de reter o gás, maior será o número de dias de operação sem manutenção, o que diminui o custo do meu cliente. E, conforme eu reduzo o peso do balão, consigo aumentar sua capacidade de carga. Portanto, o plástico é muito importante para nós.”

Os balões variam de 1,5 a 7 metros de diâmetro, com capacidade entre 1,5 kg e 35 kg. Ficam até dez dias seguidos no ar; o processo de recarga dura apenas 30 minutos. O sistema se compõe de quatro partes: o balão propriamente dito, ou envelope, preenchido com gás hélio ou hidrogênio; a gôndola, onde fica a carga paga (como uma câmera ou um rádio); o cabo com condutores elétricos e fibra ótica para a condução de dados; e o guincho, que pode ser preso ao solo ou acoplado a uma caminhonete, por exemplo. É como uma torre inflável, com a vantagem de que você pode ajustar facilmente a altura, a localização e a funcionalidade. “Para trocar um sistema de monitoramento por outro de telecom, o cliente leva cinco minutos.”

Mudança de rota

Leonardo e Bruno conheceram-se no cursinho pré-vestibular, em 2005, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Não ficaram amigos de imediato. Aprovados no concorridíssimo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), na paulista São José dos Campos, os dois só se aproximaram no terceiro ano do curso de Engenharia Aeronáutica. Logo começaram a acalentar o plano de empreender. Semanalmente, reuniam-se com colegas para um brainstorming boêmio; as ideias brotavam, regadas a cerveja, mas nada conclusivo. No fim da faculdade, Leonardo ganhou uma bolsa de seis meses na Universidade Técnica de Berlim. Bruno já tinha partido para Toulouse, na França, de onde emendou a graduação-sanduíche com um estágio na NASA, na Califórnia.

Um dia, Bruno deu o toque: havia sido incumbido pela NASA de estudar diferentes aplicações para o uso de balões. “No dia seguinte, perguntei ao meu orientador na Alemanha se havia alguma pesquisa em andamento ligada ao assunto. ‘Sim, temos um trabalho para a Airbus, com dirigíveis’, ele respondeu.” Os dois amigos ficaram intrigados. “Parecia uma tecnologia tão velha…” Em agosto de 2010, eles voltaram ao Brasil para concluir a faculdade. “Nessa altura, já estávamos apaixonados pelo tema. Escrevemos um plano de negócios inicial e submetemos na época para um prêmio de empreendedorismo. Fomos semifinalistas com a ideia de usar balões na estratosfera para comunicação remota. Era só uma ideia, não tinha protótipo, nada.”

Em janeiro de 2011, Leonardo concluiu um estágio na GOL e pediu para não ser efetivado. Em março, saiu o CNPJ da Altave. E, em agosto, saíram os resultados das subvenções econômicas para as quais tinham inscrito a empresa. Naquele mês, com o dinheiro do CNPq para contratar bolsistas (“começamos devagarzinho, abordando os alunos do ITA, perguntávamos: ‘quer trabalhar com a gente?’”) e um outro tanto da FAPESP para compra de equipamentos e materiais, a empresa foi incubada na Incubaero, inicialmente numa salinha de 15 metros quadrados. Foi por volta dessa época que os dois iniciantes receberam um feedback fundamental, que seria responsável por uma grande mudança de rota definidora do futuro da Altave.

“Até então, a ideia era fazer balões estratosféricos que serviriam como um satélite descartável”, diz Leonardo. “Soltar o balão, usá-lo como um repetidor de sinal e descartá-lo após algumas horas.” Num papo-relâmpago com Luiz Eduardo Falco, ex-aluno do ITA que ocupava a presidência de uma empresa de telefonia móvel, os sócios ouviram que a ideia era interessante, porém muito complexa… Por que não apostavam em algo mais próximo do chão? No feedback havia uma simetria quase poética entre metáfora e solução: focar no balão cativo significava baixar a ambição a uma altura mais realista e manejável. “Foram três minutos que mudaram o rumo da empresa… Acho que teríamos quebrado a cara com o balão estratosférico.”

Bruno Avena: durante um estágio na NASA veio a sacada para investir em balões

Bruno Avena: durante um estágio na NASA veio a sacada para investir em balões

Grandes eventos

Os sócios readequaram o curso e logo conseguiram um primeiro contrato, com a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf). A empresa tinha um projeto inovador de usar VANTs (Veículo Aéreo Não Tripulado) para a inspeção de linhas de transmissão. Devido às distâncias, um desafio era manter o link do sinal. “O balão entrou como uma opção para criar uma infovia aérea de modo a aumentar o alcance dos VANTs e permitir a inspeção em áreas maiores”, diz Leonardo. Em paralelo, os empreendedores iam tocando em frente, buscando investidores-anjo para sanar perrengues econômicos, batendo de porta em porta oferecendo demonstrações, coletando feedbacks, fazendo ajustes e descobrindo aplicações para seu produto.

Na Mostra BID, em Brasília, voltada à indústria de defesa e segurança, a Altave mostrou seu balão cativo a um agente da Polícia Federal incumbido de pesquisar tecnologias com foco nos grandes eventos que o Brasil estava prestes a receber, como a visita do Papa (na Jornada Mundial da Juventude, em 2013), a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O contato gerou uma demonstração na final da Copa das Confederações, em junho de 2013, no Maracanã – pertinho do curso pré-vestibular onde os dois sócios se conheceram. “Não ganhamos nada, financeiramente, mas foi uma experiência muito legal”, afirma Leonardo. “Todos os tomadores de decisão de segurança do país tiveram contato conosco, viram nosso produto funcionando…”

Enquanto o Brasil batia a Espanha com dois gols de Fred e um de Neymar, o balão da Altave pairava a 150 metros do gramado. Bruno e Leonardo pilotavam a câmera de uma tenda no estacionamento. “A função do balão, nesse caso, é oferecer a tal ‘consciência situacional’ a quem comanda o esquema de segurança de um grande evento.” O feedback animou os sócios a tentar vender para a Copa do Mundo, o que acabou não se concretizando. Mas em outubro de 2014, a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos manifestou interesse em contar com balões na vigilância das Olimpíadas. E, em dezembro, a Altave bateu fornecedores dos EUA, da França e de Israel para ganhar, no pregão eletrônico, o contrato da Rio 2016.

Era o início de uma corrida maluca. “Ao ganhar um contrato público, e os ‘ingênuos’ aqui não sabiam disso, na assinatura você se compromete a depositar 5% do valor como garantia”, diz Leonardo. “Eram quase um milhão e duzentos mil reais, dinheiro que a gente nunca tinha visto na história da empresa.” A dois dias do fim do prazo, os rapazes foram socorridos por um investidor. Seguiram-se seis meses frenéticos para entregar o produto, resolvendo em paralelo burocracias e questões financeiras. A crise econômica, que já havia ceifado o valor do contrato pela metade, fez subir o dólar, elevando os custos com importação de câmeras. Outro desafio foi treinar os 80 policiais no uso dos balões. “Foi um ano que testou os brios da nossa equipe.”

Suporte emergencial

Testes de segurança eram pré-requisito para validar o produto para os Jogos. “A pedido da Polícia Federal, a Aeronáutica fez 39 disparos de fuzil. Mostramos que o balão não iria explodir, nem iria desabar.” Durante a Rio 2016, quatro balões foram operados full-time nos locais de prova (Maracanã, Barra, Copacabana e Deodoro). O legado olímpico foi bem positivo para a startup, que ganhou impulso com a mídia gerada pelo evento. Hoje, a Altave tem 33 colaboradores e está prestes a se mudar para um espaço de 300 m². Leonardo despista, mas diz que a média de faturamento nos dois últimos anos foi de R$ 13 milhões. Recentemente, a empresa fechou uma parceria comercial com a francesa Airstar, que dará acesso ao mercado europeu.

As frentes de negócios mais significativas são segurança e óleo & gás. Embarcado, o balão pode ajudar a identificar vazamentos de óleo no mar. Telecom é outra frente relevante: na Argentina, uma operadora de telefonia móvel usa o equipamento para garantir cobertura em situações de emergência (como deslizamentos de terra, por exemplo). Leonardo não revela a cidade, mas diz que a Altave tem um projeto-piloto em andamento de uso do balão para leitura de dados produzidos por sensores, no escopo da Internet das Coisas. E aposta que a empresa desbravará também o campo. “Acho que o agronegócio vai sofrer uma revolução digital nos próximos dez anos. E nós não estamos vendo a infraestrutura de conexão acompanhar essa demanda.”

Olhando para trás, Leonardo recorda com orgulho de uma demonstração realizada para a secretaria de segurança do Recife, durante o bloco Galo da Madrugada, no Carnaval de 2014. “Colocaram nossa base de operação junto com a dos bombeiros. E, de repente, eles receberam um chamado de um bombeiro a pé, informando que uma senhora passava mal e precisava de socorro… Movemos a câmera e achamos o ponto onde ela estava caída. Aí, tiramos o zoom, procuramos a ambulância mais próxima e fomos ajudando a orientar o motorista: ‘fala pra ele dar ré, seguir pela contramão…’.” Com suporte aéreo, a ambulância chegou em três minutos e levou a mulher para o hospital. “Depois, soubemos que ela ficou bem”, diz, com um sorriso.

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