“A glória é feita de medo, angústia, fracasso e depressão”

- 4 de novembro de 2016
Fábio Brandão conta como é angustiante, deprimente e irresistivelmente atraente mudar de carreira depois de 20 anos. "Ninguém joga contra, mas é difícil acreditar num comandante que nunca velejou."
Fábio Brandão, da Conspiração Filmes, conta como é mudar de carreira depois de 20 anos. "Ninguém joga contra, mas é difícil acreditar num comandante que nunca velejou."

 

por Fabio Brandão

Ter coragem de mudar, começar algo novo, partir para outra, é sempre visto como algo lindo, dos bravos, valentes e vitoriosos.

Fulano fez aquilo por xis anos, cansou, mudou para outra coisa e agora está realizado.

Brilhando.

Sempre, sempre inspirador.

Normalmente o cara fazia algo que não gostava mais e foi em busca de outro sonho.

Mas então, por que a gente não faz isso antes?

Por que não faz sempre?

Porque a realidade é que existe algo sombrio atrás da foto feliz e cheia de dentes.

Existem várias noites mal dormidas, medo, insegurança, dúvida e fracasso.

Como diz um amigo gênio: “Não veja só a foto, assista o filme”.

Neste meu caso, leia o roteiro.

Diretor de Criação em agência bacana.

A última foi a lendária DM9.

20 anos de experiência.

Premiado.

Já viajei o mundo sentado na cadeira de criativo do board global de anunciante multinacional.

Mandei prender, mandei soltar.

Duplando (criativo trabalha em dupla) com Keka Morelle, uma das melhores diretoras de arte do mundo.

Keka e eu montamos uma equipe incrível na DM9.

Leal, legal, criativa.

Ganhamos prêmios, propostas. Estava sendo lindo.

Em time que está ganhando não se mexe.

Mas um belo dia, um dia qualquer, trim-trim, o telefone toca.

Alô, Fábio? É a Cris. (Cris Lopes, Diretora Executiva da Conspiração Filmes.)

Vamos almoçar?

Vamos, claro.

Achava eu que era um almoço de prospecção.

Acertei.

Só errei o alvo.

Achava que ela estaria prospectando um roteiro nosso, para produzir o filme.

Só que não.

Você toparia trabalhar numa produtora?

Eu? Fazer o quê? Sou criativo? Diretor de cena? Talvez, acho que não.

Só que as conversas vão, as conversas vêm, e o papo virou substituir a Cris, virar o Diretor Executivo.

Eita. Isso eu não sei fazer, não.

Um trabalho que eu não faço a mínima ideia do que a pessoa faz, oferecem pra mim?

No alto da minha razão, dei a resposta que aqueles malucos mereciam:

Sim, topo.

A motivação e o frio na barriga mascaram a real altura do precipício

Mas na hora de saltar, a vertigem aparece.

Brandão, o que é que você faz na Conspiração?

Passei meses tendo de explicar.

E nunca explicava direito porque realmente não sabia direito qual era a explicação.

Fui por meses o estagiário mais bem pago do Brasil.

Me joguei.

Me entreguei.

Se está dando certo?

Difícil dizer.

É uma batalha diária comigo mesmo.

Mudar de profissão aos 40 anos não é a coisa mais fácil do mundo

É mais ou menos assim.

Você tem 10 segundos para decidir algo.

Uso 7 segundos para aprender o que é aquilo que estou decidindo e 3 segundos para decidir.

É turno dobrado todo dia.

Uma semana comum tem 7 dias.

A minha tem 14.

Cada dia vale por dois.

Estou aprendendo a dirigir com o carro em movimento.

E o detalhe, é um Fórmula 1.

É a freaking Ferrari, meu irmão.

Conspiração Filmes!

Vivi uns 10 meses cansado, exausto, devendo

Aliás, essa é a melhor descrição.

Vivo devendo.

Estou no cheque especial.

E não tem aquele lance dos 10 dias sem juros.

Minha maior qualidade profissional é formar equipe.

Unir a galera.

Transformar colaboradores em camaradas e, na maioria das vezes, em amigos.

Mas uma coisa é fazer isso quando se tem uma estrada de dez, vinte anos.

Outra coisa é fazer isso quando sua experiência tem dois quarteirões.

Ninguém confia.

Ninguém acredita.

Jogador novo no time e pega braçadeira de capitão?

Ninguém joga contra, mas é difícil acreditar num comandante que nunca velejou

O máximo que o cara fez foi andar de caiaque.

Os dias passam.

A depressão vai sumindo.

A cobrança vai aumentando.

A coisa vai melhorando.

O peito vai estufando.

Você vai ficando mais forte.

E aí, um dia, do nada, sei lá como, vem uma sensação incrível.

A crise econômica aperta lá fora.

A crise em casa se transformou em duas casas.

Mas do alto do mastro principal um dos marujos grita: “terra à vista”.

Aleluia, estamos no rumo.

Já consigo ver da minha luneta.

Já vejo a luz no farol da praia.

Mesmo com a névoa à frente.

Já sinto o calor e escuto as ondas.

Lenha na fogueira, velocidade total à frente, rapaziada.

Dizem que você aprende com os fracassos.

Porque é depois de muitos, muitos dias de fracasso que vem um dia de glória e você vai para casa com a sensação de que tudo valeu a pena

Depois que você se enfia, a verdade é que perde o medo do fracasso porque sabe que ele virá.

Ele virá fulminante.

Como um direto do Mike Tyson logo depois de sair da prisão.

Mas você é o Rocky Balboa, meu irmão.

Cai. Levanta. Cai. Levanta.

Jason, brother. Sexta-feira 13.

Toma tiro, toma tiro, toma tiro.

Mas vive voltando.

Um dia as pancadas não doem mais.

Aí, você voa. Aí, você decola.

Foto no Instagram!

Yeah! Yeah! Baby.

Quando a glória suprema chegar, e já está chegando, talvez seja o dia de mudar de novo.

E buscar novos fracassos.

 

Fábio Brandão, 40, é formado em Publicidade, foi criativo de agência por 20 anos e hoje é diretor executivo da Conspiração Filmes. da Conspiração.

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