A nova rede de Oswaldo Oliveira, um alquimista de modelos organizacionais livres e autogeridos

- 25 de janeiro de 2017
Depois da experiência radical na Laboriosa89, Oswaldo Oliveira agora está à frente de uma espécie holding de negócios virtuais e físicos que trabalham (é claro), em rede: as Organizações Prósperas.
Depois da experiência radical na Laboriosa89, Oswaldo Oliveira agora está à frente de uma espécie holding de negócios virtuais e físicos que trabalham (é claro), em rede: as Organizações Prósperas.

Você lembra da Laboriosa89? Foi um projeto que fez brilhar os olhos de bastante gente nos já longínquos anos de 2014 e 2015. Era ao mesmo tempo uma rede virtual de pessoas e um espaço físico, que funcionavam como um ambiente livre para a realização de projetos. Era, também uma antítese do modelo corporativo de trabalho e gestão. Serviu, como veremos adiante, para definir as bases de um novo empreendimento, também em rede e livre, mas que guarda algumas diferenças importantes de seu predecessor: as Organizações Prósperas, que não chegam a ser propriamente um negócio, mas sim um modelo de organização. Mas vamos com calma.

Para entender as Organizações Prósperas é preciso, antes, conhecer a Laboriosa89 e seu criador. Em seu auge, a rede chegou a ter 12 mil membros no grupo do Facebook. Funcionava na Vila Madalena, São Paulo, numa casa por onde passavam 300 pessoas por dia. Quem quisesse, entrava. As portas ficavam abertas 24 horas por dia. As chaves podiam ser copiadas por qualquer um. Não havia taxa de matrícula, mensalidade, ficha cadastral, curadoria, processo seletivo. Bastava incluir uma atividade na agenda da casa, aberta na internet, para usar o lugar. As contribuições financeiras eram voluntárias.

“Na Laboriosa89, a questão era testar o modelo organizacional do paradigma da abundância”

Quem diz o acima, é Oswaldo Oliveira, 52, economista de formação com uma bagagem profissional que inclui vivências no mercado financeiro, no mundo corporativo e em startups — além da organização de redes descentralizadas e utópicas, podemos dizer. Ele conta, num tom calmo e didático, a ideia da Laboriosa89: “Para gerar abundância tem que ter inclusão. Porque a inclusão gera diversidade e a diversidade gera abundância. Então removi todos os processos excludentes. E a contribuição obrigatória é uma dessas coisas. Tinha que ser uma contribuição espontânea. Essa contribuição cresceria na medida em que a percepção das pessoas sobre o valor do ambiente crescesse também. É um processo exponencial.”

Oswaldo começou a trabalhar com internet quando no Brasil ela ainda era apenas mato. Após aprofundar estudos sobre teoria de redes e passar por diferentes processos de autoconhecimento, ele conta que decidiu testar na prática como funcionariam alguns conceitos. Assim surgiu a Laboriosa89. Uma iniciativa que muitos poderiam classificar como inconsequente, já que ele pagou à vista, do próprio bolso, o aluguel de um ano da casa: 180 mil reais. Ao mesmo tempo, abriu um processo de arrecadação espontânea para os frequentadores, através de urnas espalhadas pela casa e via Moip. O Draft fez um retrato daquele momento nesta reportagem.

Oswaldo Oliveira fazendo uma das coisas que gosta: falar sobre seus projetos e experiências.

Oswaldo Oliveira fazendo uma das coisas que gosta: falar sobre seus projetos e experiências.

Passados 12 meses, o contrato chegou ao fim. Oswaldo devolveu sua chave e deixou a cargo do proprietário, também frequentador da Lab89, a decisão sobre prosseguir ou não com o projeto da forma que melhor entendesse. Foram mais seis meses de história, que em julho daquele ano culminaram com o encerramento da Laboriosa89 tal e qual a conhecíamos. O crepúsculo do experimento também foi pauta do Draft na época.

E que tal o experimento? Oswaldo conta que foram arrecadados espontaneamente 100 mil reais enquanto ele esteve envolvido no projeto. Frente ao pagamento inicial do aluguel, seria uma conta deficitária. Só que a este valor se somam rendimentos que Oswaldo obteve realizando na casa um programa de aprendizagem sobre organizações em rede e ambientes exponenciais. Essa prestação de serviços rendeu um total de 140 mil reais. Somando tudo que entrou e saiu, o experimento teve lucro de 60 mil reais em um ano. Trouxe, também, o mais importante para Oswaldo: o aprendizado de que era possível gerar riqueza em um ambiente desprovido de hierarquia, controle e demais processos excludentes:

“Eu queria provar para mim mesmo se o modelo organizacional tinha a potência de gerar abundância ou de gerar escassez. Testei, aprendi, provei e fui embora”

Ao mesmo tempo em que se desplugava da Laboriosa89, no começo de 2015 Oswaldo Oliveira vivia uma transformação pessoal bastante intensa. Seu casamento de 25 anos chegava ao fim. Foi quando ele botou uma mochila nas costas e, com passagem só de ida, caiu na estrada sem prazo para a volta. Visitou amigos na Bahia, em Pernambuco, ficou um tempo na Paraíba, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul.

O FIM DE UM CICLO ABRE ESPAÇO PARA OUTRAS POSSIBILIDADES

Enquanto desopilava emoções e absorvia aprendizados em sua jornada, os convites para falar sobre a experiência na Laboriosa chegavam pelo inbox. “As pessoas me chamavam pra contar essa história, fazer palestra, workshop. Eu ia, até porque isso me ajudava a processar, decantar, entender” diz, e prossegue:

“A gente precisa desses momentos na vida também, de pausa para incorporação. Precisamos parar para fazer da experiência um aprendizado na alma, uma síntese”

Em 2016, Oswaldo retornou ao batente com uma proposta que avança algumas casas no desenvolvimento de modelos organizacionais em rede que sejam inclusivos e gerem abundância. Trata-se da Organização Próspera. O nome não está relacionado a uma entidade em específico, mas sim a uma forma de se organizar e produzir. Oswaldo conta como funciona: “A Organização Próspera não tem sede, não tem CNPJ, não tem caixa central. Não tem decisão coletiva, não tem funcionário, não tem processo seletivo. Mas gera receita e as pessoas podem viver dessa receita”.

As portas do espaço próspero estão abertas para quem quiser chegar.

As portas do espaço próspero estão abertas para quem quiser chegar. Mas para ter a chave é preciso firmar compromisso.

Qualquer pessoa pode se conectar a uma organização próspera. Como não existe planejamento, hierarquia ou cargo, as tarefas a serem desempenhadas surgem conforme as necessidades da organização naquele momento.

Quem define o que será feito e quem será o responsável por fazer? A própria pessoa, presente de corpo e envolvida de alma na organização. “Quem enxerga uma necessidade deve fazer isso a partir da sua perspectiva de atendê-la. Um não gerencia o outro. Tudo parte de você se empoderar, assumir a responsabilidade pela sua decisão”, diz ele.

UM NOVO SISTEMA, UMA NOVA MOEDA

Com a ajuda do Blockchain e das criptomoedas, o modelo de distribuição exponencial foi levado ao capital financeiro das organizações prósperas. Quem trabalha por determinado período em uma organização recebe a remuneração em moedas prósperas, que são uma criptomoeda. Para quem não tem muita familiaridade com esse universo, não se trata de dinheiro-de-papel.

Seria algo equivalente a um título de participação na receita da organização, como conta Oswaldo: “Ela é uma fração da receita. Todo mês são emitidas moedas novas e distribuídas para quem trabalhou. Não sou eu que faço, é um sistema. E aí tem um smart control dentro do blockchain que pega a receita e já distribui automaticamente. Não tem o Financeiro. O dinheiro caiu no caixa, já vai para a galera que gerou aquele dinheiro”.

Hoje, o preço de uma moeda próspera está em torno de 1.500 reais. O valor pode flutuar de acordo com a receita das organizações. Por enquanto, existem quatro organizações prósperas funcionando neste modelo, que geram juntas 25 moedas prósperas por mês — ou 37.500 reais. A Pimpadas é voltada à produção e comércio de alimentos artesanais. A Just Virtual é uma plataforma para prestação de assistência virtual em qualquer área de conhecimento. A BlockPub imprime e comercializa livros. E a Criptotransfer tem foco na negociação com criptomoedas.

Acima, os negócios que formam a rede de Organizações Prósperas: uma moeda especial divide os lucros entre quem trabalha nas empresas.

Acima, os negócios que formam a rede de Organizações Prósperas: uma moeda própria serve para distribuir o rendimento a quem trabalha nas empresas.

Oswaldo está envolvido nas quatro organizações, mas o modelo não prevê que o fundador seja dono. A não ser que que continue contribuindo com as necessidades objetivas que se apresentem a cada momento na organização. É como ele diz: “Essas moedas dão participação na receita. Na BlockPub, por exemplo, os reais originados com a venda de livros são distribuídos para quem tem a moeda. Se o cara que iniciou a organização não trabalha, ele vai perdendo participação na receita”.

É como se, de alguma forma, ele tivesse deixado um experimento organizacional para se dedicar a quatro negócios ao mesmo tempo e ao guarda-chuva conceitual que une todas as operações. As quatro organizações ainda estão no primeiro ano de vida. Até bem pouco tempo atrás, funcionavam apenas no ambiente virtual. Conforme foram ganhando complexidade, surgiu a necessidade de um espaço físico para acolher suas atividades. Assim, no final de 2016 uma nova casa em São Paulo abriu as portas “para a diversidade e a abundância”. Dessa vez na Rua Catalão, 72, no Sumaré.

A casa guarda algumas semelhanças com a Laboriosa89, como o fato de estar sempre aberta para quem quiser usar o espaço, sem exigir contrapartidas. A grande diferença está na chave. Se antes ela podia ser copiada livremente, agora existe um compromisso. Porque a casa está a serviço da Organização Próspera. “A chave é uma declaração de compromisso com esse processo. Como é a contrapartida desse compromisso? A geração de moedas prósperas. Qualquer um pode se conectar numa Organização Próspera e começar a gerar moedas prósperas”, diz Oswaldo.

O aluguel do espaço equivale, hoje, a duas moedas prósperas (ou 3.000 reais). Na virada de cada mês, Oswaldo abre um crowdfunding e convoca todos os trabalhadores que receberam moedas prósperas no período a contribuir. Cada um o faz com a fração que pode. Como o aluguel tem valor fixado em reais e o preço da moeda próspera flutua conforme a receita das organizações, o resultado é que em um mês de faturamento maior o aluguel acaba custando menos. Ele fala a respeito:

“A ideia toda é que a produtividade da Organização Próspera vá gerando uma deflação no espaço físico. Vai ficando cada vez mais barato. Este é o raciocínio da abundância”

Se a carreira no mercado corporativo foi a tese e o projeto Laboriosa89 uma antítese, as Organizações Prósperas são a síntese que Oswaldo buscava. Por um lado, o formato dá boas-vindas a qualquer pessoa que queira se envolver. Por outro, ser um trabalhador próspero demanda uma boa dose de autoconhecimento. E essa olhada no espelho talvez seja uma chave ainda mais importante do que a da casa.

“No modelo organizacional que trabalho hoje, tiro totalmente a figura de proteção. Deixo a pessoa no vazio mesmo. Porque é no vazio que ela se encontra. Quando olha para o vazio, você olha para dentro de você”, diz Oswaldo. E finaliza: “Trabalhando em corporação, eu estava sempre inventando o novo. Mudei porque quis experimentar espaços mais amplos, não porque minha vida precisasse de significado. Isso é o mais importante: se a pessoa não olhar para ela, não adianta mudar de lugar. Quem olha para si, vive em qualquer lugar”. De preferência, próspero.

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