SPONSORS:

A New Hope Ecotech quer organizar a bagunça do lixo

- 31 de julho de 2015
Luciana, Mateus e André, sócios da New Hope Ecotech (foto: Kalinca Maki).
Luciana, Mateus e André, sócios da New Hope Ecotech (foto: Kalinca Maki).

Você sabia que após jogar uma latinha de refrigerante no lixo ela estará novamente nas prateleiras de um supermercado em menos de 30 dias? Sabia também que as indústrias têm o dever de fomentar a reciclagem de seus produtos – tudo determinado por uma lei federal?

Se existe tecnologia, recurso e uma diretriz, por que ainda não conseguimos dar um destino correto aos nossos resíduos?

Umas das razões pode ser um desequilíbrio na cadeia do lixo. Os maiores responsáveis pela coleta de material reciclável são catadores informais, que ganham bem pouco e são marginalizados – mesmo realizando um serviço essencial para a cidade.

Mas há uma esperança em meio à “sujeira”. A empresa paulista New Hope Ecotech quer organizar a cadeia do lixo. Como? Usando a tecnologia para rastrear as pessoas e empresas que fazem parte de sistema. De um lado, a fabricante ganhará certificados que comprovam que investe em reciclagem e gera retorno para a sociedade, conforme determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Do outro, a cadeia informal receberá uma porcentagem do lucro da venda dos certificados.

“Queremos que a conexão entre fabricantes, catadores e microempresas de reciclagem formalize toda a cadeia, gerando impacto social positivo”, diz Luciana de Oliveira, uma das fundadoras da New Hope Ecotech.

Uma das soluções que a empresa já oferece no mercado é um serviço de indicadores de resultados para grandes empresas que investem em cooperativas de reciclagem. O sistema online quantifica o material que chega à cooperativa por tipo de resíduo, fornecedor e data de entrada. A quantidade de material processado, que, posteriormente, é vendida para a indústria de reciclagem, também fica armazenada no software. Esses dados são usados para gerar relatórios, que são apresentados para associações empresarias e órgãos do governo.

Thiago Pinto, co-fundador da NHE, e Brooke Elysse Weitz, aluna da Kellogg School, junto a Antonio e Maria, casal de catadores de São Paulo, durante estudo sobre reciclagem no Brasil.

Thiago Pinto, co-fundador da NHE, e Brooke Elysse Weitz, aluna da Kellogg School, junto a Antonio e Maria, casal de catadores de São Paulo, durante estudo sobre reciclagem no Brasil.

O serviço já gera receitas. A expectativa da empresa é fechar o ano de 2015 com 100 000 reais em faturamento. A empresa possui apenas um cliente, que mantém um contrato bienal. Embora não revelem o nome, os sócios afirmam que é uma grande companhia do setor de bebidas e uma das maiores investidoras em reciclagem do Brasil.

“Geralmente, startups como a New Hope, ficam anos apenas recebendo investimento e demoram para gerar receita. Somos uma exceção, pois nos adaptamos para oferecer um serviço relevante para o mercado enquanto desenvolvemos outras soluções”, afirma Luciana.

O segundo produto da empresa é uma plataforma gratuita de gestão para recicladores – batizada de Rede Ciclo. O software na nuvem armazena dados sobre o volume de resíduos que a empresa recebeu e processou, nomes e contatos de fornecedores e clientes e quais foram as despesas e receitas. Os usuários da rede também têm acesso a orientações sobre contabilidade, preço dos materiais, locais que compram resíduos e outras instruções relevantes para o dia a dia do agente da reciclagem.

DO COMEÇO AO FIM, O QUE PODE SER CONSIDERADO LIXO?

Toda essa informação pode ajudar a sociedade a entender a cadeia do lixo – o que não é uma tarefa fácil. Já no descarte, os resíduos podem ser agrupados de três diferentes formas: orgânicos, inservíveis e recicláveis. O primeiro pode ser destinado para compostagem – e virar adubo. O segundo grupo (também chamado de não aproveitável) deve ir para aterros sanitários, mas grande parte acaba indo parar em lixões a céu aberto.

Já os recicláveis têm uma cadeia mais longa. Após serem coletados de casas e prédios pela prefeitura, vão para uma etapa de segregação num centro de reciclagem, onde são divididos conforme cor e material.

“Existem mais de 200 tipos de plásticos, mais de 25 aparas de papel e 15 tipos de liga de alumínio”, diz Mateus Mendonça, co-fundador da New Hope e sócio da Giral, consultoria focada na gestão de projetos de relacionamento entre o mundo corporativo e comunidades. Plástico e papel podem passar um processo de beneficiamento, em que são lavados para retirar tinta e resíduos – posteriormente, são picotados. Depois, todo o material é prensando e enviado para a indústria de reciclagem.

Esse material pode ter três fins: virar o mesmo produto de sua origem (uma latinha de refrigerante), ser transformado num produto de maior valor agregado (uma cadeira com design feita de material proveniente de garrafa pet) ou num produto mais barato e de menor vida útil (um papel especial para livros e revistas pode virar papel cartão).

MORCEGÕES EM BUSCA DO FILÉ MIGNON

Entre uma viagem e outra do caminhão da Prefeitura, a cadeia do lixo passa por interceptações dos agentes informais – o público que a New Hope quer retirar do “submundo”. É comum que um catador – às vezes, equipado com um morcegão, como é chamado os carros irregulares de que levam resíduos para o ferro velho – identifique os bairros onde a população é mais consciente e realiza descarte seletivo. Esse cara também sabe os dias e horários em que o caminhão oficial passa para recolher os sacos. Dessa forma, ele, previamente, recolhe os resíduos mais valiosos e repassa o material para outros intermediários, que mais tarde revendem para à indústria.

O problema é que nesse caminho nem sempre há comprometimento e responsabilidade ambiental. Por exemplo, se o dono do ferro velho identifica que o material não é comercializável, ele o descarta em qualquer lugar, pois levar para um aterro sanitário é oneroso. Outro problema é equilibrar o interesse pelos mais diversos materiais, que têm rentabilidade diferente. O alumínio (3 800 reais a tonelada) tem uma taxa de reciclagem de 98%. O vidro (231 reais a tonelada) não chega nem a 50%. O desafio de Luciana é também uma esperança:

“Ao formalizar e retribuir toda a cadeia, poderemos criar uma consciência coletiva em todos os elos desse meio”

Por mais que a ideia seja promissora, o desafio da New Hope é enorme. Um levantamento que considera dados de 2014, divulgado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, aponta que 41,6% dos resíduos coletados ainda vão para lixões e aterros controlados, que não são sanitários. Nos últimos cinco anos, a taxa melhorou apenas 0,8%. Quadro muito diferente do previsto pela legislação, que determinava que o Brasil deveria extinguir os lixões em agosto de 2014. A análise também aponta que 38,5% da população brasileira não tem acesso a serviços de tratamento e destinação adequada de resíduos – o que engloba 3 334 municípios, entre eles a capital federal.

UMA CAUSA COMUM UNIU OS SÓCIOS

Esse quadro angustiante foi o motivo que uniu os fundadores da New Hope numa causa comum. De um lado, Luciana, jornalista que atuou na área de pesquisa de tendências tecnológicas na Editora Abril e trabalhou com  vendas de soluções de tecnologia no Google. Do outro, Thiago Carvalho Pinto, de 30 anos, engenheiro de produção com experiência em projetos de impacto social – ele foi o idealizar do Pedalusp, sistema de bicicletas compartilhadas da Universidade de São Paulo.

Os dois jovens cursaram juntos um MBA da Kellogg School of Management, uma das escolas mais conceituadas em administração. Em meio a disciplinas como finanças e contabilidade, fizeram um intercâmbio com estudantes de várias partes do mundo para aprender mais sobre design thinking no Brasil. A disciplina foi estruturada em conjunto com a Giral.

Alunos da Kellogg School visitara a Cooperativa Nova Esperança, que inspirou o nome da New Hope Ecotech.

Alunos da Kellogg School visitaram a Cooperativa Nova Esperança, que inspirou o nome da New Hope Ecotech.

Os jovens passaram três semanas analisando problemas sobre a ótica dos membros da cadeia do lixo para desenhar possíveis soluções. Durante a pesquisa, visitaram cooperativas e favelas para conhecerem catadores autônomos. Um dos aprendizados foi que os catadores não possuíam ligação direta com a economia formal da reciclagem. (Veja mais informações no blog que os jovens criaram enquanto estiveram no Brasil).

Após voltarem para os Estados Unidos, Luciana e Thiago mantiveram contato com a equipe da Giral. O modelo de negócio acabando saindo através de muitas conversas via Skype. A formalização da empresa veio em meados de setembro de 2014. Além de Luciana, Thiago e Mateus, somaram-se ao time os irmãos André Luiz e Anderson Silva Bezerra, especialistas em TI, que cuidam da programação e segurança digital da New Hope.

De lá para cá, a New Hope já comemorou alguns feitos. A empresa ganhou um prêmio da Kellogg School no valor de 70 mil dólares, que foram aplicados na fase inicial do projeto.

Mesmo já gerando receita, a empresa não descarta a possibilidade de receber investimento de capital semente. “Estamos abertos para investidores com experiência nos segmentos de reciclagem, bens de consumo e desenvolvimento de software para alavancar o crescimento”, afirma Thiago, responsável pela área financeira da empresa.

E a evolução não parou. A empresa é finalista do maior prêmio de design do mundo – o INDEX: Award. Entre 1 123 projetos, ficou entre as 46 mais bem posicionadas (e entre as top 11 na categoria “trabalho”). A New Hope será a primeira empresa brasileira a concorrer ao prêmio, e o resultado será divulgado dia 27 de agosto, em Copenhague.

Caso saia vencedora, receberá a bagatela de 100 mil euros. Um montante que vai ajudar a New Hope a prosseguir com os planos de desenvolver outras soluções, como aplicativos em que qualquer pessoa poderá solicitar um catador para retirar recicláveis em sua residência ou empresa. Até lá, dedos cruzados: a esperança está no DNA.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: New Hope Ecotech
  • O que faz: Desenvolve tecnologias para conectar fabricantes de resíduos a catadores e empresas de reciclagem informais
  • Sócio(s): Luciana Silva de Oliveira, Mateus Mendonça, Thiago Ascenção Carvalho Pinto, André Luiz Silva Bezerra e Anderson Silva Bezerra
  • Funcionários: 5 (incluindo os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: setembro de 2014
  • Investimento inicial: R$ 250 mil (recursos próprios dos sócios, aporte de investidores anjos e prêmios de empreendedorismo
  • Faturamento: R$ 100 mil (estimativa para este ano)
  • Contato: contato@nhecotech.com
Veja também:

Em três anos, a Giral reestruturou seus serviços para manter o propósito de gerir investimentos sociais

- 7 de setembro de 2017
2949 1 0
Diogo Vallim, Fernando Assad e Mateus Mendonça, da Giral. Com o tempo, a empresa se moldou a novas exigências do mercado — e ao amadurecimento da relação entre os sócios.

Ele era “o cara” na MTV. Agora, na Arueira Ambiental, André Mantovani ganha dinheiro com gestão de resíduos

- 8 de agosto de 2017
André Mantovani, fundador da Arueira, em frente à horta subterrânea que implantou em um dos prédios comerciais atendidos pela empresa.

História de um renascimento. Agora, a recicladora WiseWaste tem fábrica própria e um novo nome: Boomera

- 19 de julho de 2017
Luiz Butti, que desistiu da aposentadoria para empreender na Boomera, ao lado do fundador Guilherme Brammer.

Como a startup VG lucra ao unir gestão ambiental e um marketplace para resíduos industriais

- 4 de julho de 2017
Guilherme Arruda, CEO da VG, Deivison Pedroza, diretor grupo Verde Ghaia, e Guilherme Gusman, também diretor da VG.