A Phomenta faz gestão de fundos filantrópicos leva profissionalismo à cadeia de organizações sociais

- 17 de abril de 2017
Em busca de unir trabalho e impacto social, Izadora Mattiello e Lorhan Caproni criaram uma organização que oferece serviços híbridos, desde auditoria social até gestão filantrópica (foto: Maria Frazão).
Em busca de unir trabalho e impacto social, Izadora Mattiello e Lorhan Caproni criaram uma organização que oferece serviços híbridos, desde auditoria social até gestão filantrópica (foto: Maria Frazão).

Responda rápido: o que vem à sua cabeça ao ouvir a palavra filantropia? Fazer caridade, ajudar instituições que cuidam de crianças carentes ou de idosos? OK, até podem ser essas atividades, mas também pode ser muito mais. Mas foi justamente pensando em ampliar e profissionalizar a visão do voluntariado e da filantropia que Izadora Mattiello e Lorhan Caproni, ambos de 29 anos, criaram a Phomenta, uma organização que há dois anos trabalha levando profissionalismo e gestão para a cadeia de organizações sociais. A ideia é aumentar a efetividade e o poder de transformação social, e está dando certo, mas essa história começou bem antes.

Izadora e Lorhan se conheceram em 2007, quando cursavam Biologia, na Unicamp. “Sempre tive vontade de empreender, mas quando saí da faculdade, em 2010, encontrei um cenário difícil, que exigia bastante capital”, diz ela, que decidiu adiar este sonho e trabalhar na empresa da família, na área de engenharia para indústria gráfica: “Uma das maiores escolas que tive na vida, aprendi muita coisa na marra e na prática, mesmo”. Nesse meio tempo, Lorhan fez uma pós em administração de empresas na FGV, e debatia-se com uma inquietação:

“Eu queria empreender e também reduzir as injustiças sociais. Me incomodava que isso parecesse excludente. Queria unir as duas coisas”

Justamente nessa época Lorhan soube de uma oportunidade para trabalhar na Geekie, uma startup de educação. “Havia um novo projeto voltado para obtenção de recursos empresariais para implantar a plataforma nas escolas públicas. Fiquei empolgado, encontrei ali a possibilidade de fazer negócio e ainda ajudar as pessoas”, conta.

Já Izadora, uma apaixonada pelas questões ambientais, principalmente as relacionadas à biologia marinha, seguiu outros caminhos. Trabalhou no Chile, em uma universidade localizada em uma comunidade pesqueira, depois fez um mestrado na USP com pesquisadores de outras áreas, startups e incubadoras. Mas somente quando trabalhou na Holanda, em um instituto de pesquisa, entendeu que mesmo como pesquisadora ela poderia aplicar seu conhecimento em questões sociais. Ela voltou ao Brasil empolgada, em 2013, mas se frustrou com o que encontrou. “Me decepcionei com o machismo e a falta de valorização do cientista. Percebi que aqui o mundo acadêmico é muito burocrático, teórico. Eu queria fazer algo prático e que desse um resultado imediato para a sociedade. Eu sentia que podia fazer mais”, diz ela.

QUANDO O PROBLEMA SE APRESENTA

Em 2014 Izadora e Lorhan se casaram – sim, eles namoravam desde a época da faculdade. Morando em Campinas e sem conseguir emprego na área de biologia marinha, ela passou a fazer voluntariado em algumas ONGs e percebeu que essas organizações tinham dificuldades enormes na área da gestão, sem falar nos problemas financeiros. Paralelamente, participava da Fundação Estudar, onde tinha contato com jovens que queriam aprimorar a carreira: “Eles queriam conhecer melhor o mercado, mas desejavam usar o conhecimento para o bem da sociedade”. Já Lorhan, na Geekie, teve a oportunidade de conhecer várias empresas da área de investimento social. “Eu percebia que elas poderiam se envolver mais, doar mais e aumentar o impacto, mas que não sentiam a credibilidade das organizações sociais”, conta.

Neste momento, juntando suas percepções e detectando um problema em busca de uma solução, os dois identificaram uma oportunidade de mercado e também um nicho: orientar organizações sérias a criar modelos confiáveis para gerar credibilidade e conseguirem acessar recursos. Assim, começaram a planejar o que viria a se tornar a Phomenta. “É o nosso projeto de vida. A gente costuma brincar que é o nosso filho, exige dedicação total”, diz Lorhan.

O casal lembra que o início foi muito difícil. Izadora conta que para conseguir capital para investir no projeto, cerca de 100 mil reais, eles venderam o apartamento que estavam comprando, e passaram a morar de aluguel. Segurariam as pontas até conseguir gerar receita ou conseguir um investidor. Um dos primeiros passos neste sentido foi marcar um bate-papo com o Marcos Flavio Azzi, que na época tinha um instituto que fazia assessoria e aconselhamento filantrópico para pessoas físicas de alto poder aquisitivo. A ideia era pedir que ele os ajudasse a encontrar um interessado em investir na Phomenta.

“Depois da primeira conversa tivemos a segunda, e por fim recebemos uma lição de casa enorme: montar um planejamento estratégico, financeiro e tático, mês a mês até 2018″, diz Lohran. O processo todo valeu a pena: Marcos se tornou investidor-anjo da organização injetou um capital que os ajudou a manter a estrutura para que saíssem em busca do crescimento. “Mais que isso, Marcos se tornou um grande mentor e amigo, sempre com insights importantes e inspiradores”, conta Lorhan. A partir daí a coisa engrenou. Hoje eles são uma equipe de quatro pessoas, alocados em um coworking em Campinas.

UM MODELO HÍBRIDO DE SERVIÇOS 

O objetivo da Phomenta é conectar e capacitar “quem está disposto a fazer a diferença”. Para alcançar essa meta, o instituto atua em três frentes: projetos sociais, investidores e voluntários. “No Brasil não há modelo semelhante, híbrido, que atue com capital financeiro e intelectual”, diz o fundador. No início deste mês aconteceu o primeiro Fórum de OSC’s da Rede Phomenta, reunindo gestores de fundos sociais das Organizações da Sociedade Civil.

Lorhan Caproni, fundador da Phomenta, fala a uma platéia de gestores.

Lorhan Caproni, fundador da Phomenta, fala a uma platéia de gestores de Organizações da Sociedade Civil.

Em relação aos projetos sociais, a organização faz um diagnóstico detalhado das instituições para identificar seus principais pontos fortes e fracos relativos à gestão e tangibilizar quais competências técnicas estão deficitárias. Além disso, analisa a documentação e realiza uma auditoria e avaliação criteriosa das ONGs da região, seguindo quatro critérios: transparência, gestão, solidez e potencial de impacto. “Ao final, se tudo estiver ok, certificamos que aquela organização está apta para receber tanto capital financeiro como capital humano”, conta Lorhan.

Com potenciais investidores, a Phomenta atua trazendo credibilidade e transparência. A ideia é transmitir a seguinte mesma segurança que um investidor busca no mercado convencional. “Por que deveria ser diferente com o investimento social?” Para tanto, a organização conecta os investidores (que podem ser empresas ou particulares) somente com os projetos sociais auditados e curados. Izadora fala de como isso é importante no Brasil:

“Quem tem dinheiro desconfiava das organizações e tinha dificuldade de acompanhar o resultado”

A Phomenta entrega para os investidores sociais, mensalmente, relatórios com a prestação de contas de onde e como foi ou será aplicado o dinheiro — e qual impacto que causou na comunidade. Lorhan afirma que o trabalho de sua organização não é captar recursos, mas sim garantir “que o dinheiro chegue a quem precisa e seja bem utilizado”. A Phomenta se sustenta financeiramente cobrando uma taxa administrativa de 10% sobre os investimentos que administra.

Outro serviço oferecido é a gestão de fundos filantrópicos. Lorhan fala: “Muitas vezes uma pessoa, empresa ou associação empresarial faz doações relevantes para uma determinada causa. Conforme o volume dessas doações aumenta, há a necessidade de formalizar esse processo. E criar uma Fundação ou Associação pode ser muito claro e complexo”. Nessa hora, a Phomenta fornece o serviço de criar e gerir o “Fundo Filantrópico”: um pool de recursos em que o filantropo pode receber as doações de outras pessoas para o seu projeto e definir como esses recursos serão aplicados em projetos sociais.

A Phomenta também vende treinamento e consultoria. Eles são contratados por fundações ou institutos para orientá-las para que, no futuro, tenham fontes alternativas de receita e possam andar sozinhas. A ideia é que desenvolvem um modelo de negócios para que, a longo prazo, não dependam mais de doações. Lorhan fala:

“Ajudamos a montar empresas sociais dentro de ONGs, com a tecnologia social que elas já têm. A ONG já presta um serviço, nós só mostramos como expandir”

Por fim, organização também direciona a atenção para o voluntariado Pro Bono, ou seja, faz a ponte e o match entre as demandas das organizações sociais e as competências dos colaboradores das empresas que os procuram. A ideia é entender as carências e demandas das organizações sociais e conectá-las com as habilidades dos voluntários corporativos. Há diversos formatos, desde maratonas de 4 horas (que custam a partir de 5 mil reais) até programas com duração de seis meses (valor negociado caso a caso). Eles são criados de maneira personalizada para atender o interesse de organizações sociais e corporações. Entre as clientes estão a CPFL Energia, a Aoki Sistemas e a Share RH.

Izadora, responsável pelo desenvolvimento de Pro Bono da Phomenta, diz: “No voluntariado corporativo a empresa consegue gerar impacto social duradouro ao mesmo tempo em que desenvolve habilidades dos colaboradores, como saber ouvir e fazer mais com menos. Já a organização social atendida passa a ter acesso a recursos intelectuais de primeira linha para ajudar a resolver seus desafios”.

COPO MEIO CHEIO

Com quase dois anos de operação, a Phomenta conseguiu resultados expressivos. Segundo Izadora, já direcionaram mais de 3 milhões e meio de reais em capital filantrópico para projetos sociais, executaram 85 projetos de Pro Bono e mais de 20 mil pessoas foram diretamente impactadas.

A organização cobra por alguns dos seus serviços, e cobra 10% de taxa administrativa dos investimentos sociais que gere.

A organização cobra 10% de taxa administrativa dos investimentos sociais que gere.

Na visão de Lorhan, isso foi possível porque o brasileiro tem um nível de empatia mais avançado que os povos de outros países. Já Izadora acredita que é porque a Phomenta, assim como outros parceiros, institutos e fundações brasileiras, está ajudando a mudar a cultura do país.

“Estamos mostrando a importância das ONGs. Se elas não existissem, o caos seria muito maior. As pessoas estão começando a entender que o governo não vai dar conta de suprir todos os problemas sociais que o país enfrenta. Uma de nossas missões é empoderar a sociedade para que se sinta parte do problema e da solução. Não basta pagar os impostos, é preciso vestir a camisa”, diz ela, que também destaca a “revolução” que os millennials vêm causando:

“Esta nova geração é mais preocupada com questões como propósito de vida e sustentabilidade, e está realmente comprometida e engajada com as causas sociais”

Mas ser capaz de olhar o copo meio cheio não os faz esquecer-se da parte vazia. Os sócios contam que a trajetória até aqui não tem sido nada fácil. “Transitamos entre dois mundos, ou seja, atuamos como intermediários, e aqui no Brasil essa figura é vista como suspeita ou duvidosa. Fazemos um trabalho árduo de conscientizar as pessoas de que precisamos de aporte de capital para conseguir gerar mais impacto”, diz Lorhan.

Olhando para trás, o casal também relembra erros cometidos. No início, precisando se remunerar, acabaram pegando projetos que não estavam no nosso escopo. “Tivemos uma sobrecarga operacional e perdemos o foco inicial. Foi preciso dar um passo para trás, e reencontrar o nosso eixo, mirar nas nossas metas”, conta ele, e prossegue: “Aos poucos a gente aprende que a credibilidade vem das vezes que dizemos ‘não’. O importante é nos mantermos fiéis aos nossos valores”.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Phomenta
  • O que faz: Auditoria social, gestão filantrópica, organização de voluntariado
  • Sócio(s): Lorhan Caproni e Izadora Mattiello
  • Funcionários: 4 (incluindo os sócios)
  • Sede: Campinas (SP)
  • Início das atividades: maio de 2015
  • Investimento inicial: R$ 100.000
  • Faturamento: R$ 350.000 (em dois anos)
  • Contato: izadora@phomenta.com.br (11) 97118-4777
Veja também:

Como o marketing pode ajudar ONGs? A Calhau Social é um caminho – e busca se firmar como negócio

- 27 de março de 2017
Sheila, Thiago e Marcia, da Calhau Social.

Viagens com voluntariado: essa é a proposta da Vivalá para se destacar no mercado do turismo de experiência

- 22 de abril de 2016
Equipe do Vivalá e amigos, reunidos numa apresentação sobre a startup.

Por que a filantropia engajada é diferente? Ela usa recursos híbridos e complexos, como faz o mercado

- 23 de novembro de 2015
Paul Shoemaker, da NESsT, explica o que é Venture Philanthropy: a filantropia engajada.