“A transição não é um bicho de sete cabeças sobre o qual não se deva falar. Ela nos prepara para o salto”

- 5 de maio de 2016
Natali e sua irmã Clara Vanali, idealizadora do projeto Vidas em Transição, que narra momentos de transformação dos personagens.
Natali e sua irmã Clara Vanali, idealizadora do projeto Vidas em Transição, que narra momentos de transformação dos personagens.

 

por Clara Vanali

Me lembro do dia em que tomei a decisão de sair da empresa jornalística em que trabalhava para montar um negócio próprio. Era fim de 2012, e as infinitas possibilidades me deixavam animada em caminhar em uma estrada nova. É engraçado pensar nessa sensação de esperança que toma conta da gente quando nos permitimos sair da rotina. É como comprar o ingresso para andar de montanha-russa. A gente sabe que vai sentir medo, mas a curiosidade de experimentar é maior.

Passado o mês de despedida dos amigos da empresa, da euforia, e da ansiedade de estar arriscando, de repente me vi em casa, sozinha, sem saber por onde começar. Eu já tinha assinado a papelada de desligamento, resolvido as burocracias com o fundo de garantia, feito o exame médico demissional. Não me sobrava mais nada para a ocupar a cabeça. E a partir daí, me vi encarando dias estranhos. Carregados de muita expectativa. E a expectativa nem sempre é prazerosa.

Gosto de trabalhar com pessoas, de interagir, de trocar informações, de chegar cumprimentando todo mundo. Gosto de ouvir histórias, de compartilhar novos projetos e de ter companhia no almoço.

Imagina trocar uma empresa de 4 mil funcionários pelo meu quarto, com uma cama e um computador ao lado. Onde eu fui me meter?

Me lembro de, em alguns desses dias, sentir uma tontura que vinha e partia várias vezes ao longo das semanas. Parecia labirintite. Era como estar vivendo num círculo giratório que me deixava aflita pensando “por que raios estou com uma labirintite que nunca tive antes?”. Não era isso. Na época eu não sabia, mas eu estava em transição. Em uma profunda transição de carreira que transformaria tudo o que eu sabia e pensava sobre trabalho, carreira e vida profissional. E a transição, hoje eu entendo, balança mais do que os seus princípios, ela movimenta seu corpo, sua mente e tudo o que você achava que estava no lugar.

É bonito dizer que vida pessoal é uma coisa e trabalho é outra. Não são. Mesmo. O trabalho representa grande parte do que somos, desenvolve a nossa capacidade criativa, de raciocínio, e nos faz seres pensantes e influenciadores na sociedade. O trabalho é pessoal, é íntimo, e tem o poder avassalador de nos deixar tristes ou felizes, dependendo de como o for. E a vida está dentro disso tudo.

Um pouco depois desta fase, quando eu já me ensaiava novos caminhos, minha irmã Natali — que também já havia passado por algumas transições e que, mais tarde, se tornaria minha grande parceira de trabalho — me contou que todos os amigos que ela encontrava nos últimos dias estavam relatando muitos questionamentos em relação ao trabalho que exerciam e ao propósito profissional que gostariam de atingir.

Seu marido, inclusive, tinha acabado de demitir-se da empresa familiar em que trabalhava para se arriscar em outras direções, que ainda não estavam definidas. O fato é que todas essas angústias coletivas que, de alguma forma, chegavam até nós, começaram a nos fazer querer discutir mais profundamente o assunto.

No meio de 2013, montei uma produtora de vídeos com a minha irmã e, começamos a produzir conteúdo audiovisual para os mais diversos segmentos. As nossas vidas e sonhos profissionais voltaram a se encaminhar. No entanto, o tema transição de carreira continuava a nos rodear porque é um tema muito rico para ser esquecido. Foi aí que surgiu a ideia de fazermos registros em vídeo de histórias reais de pessoas que estavam passando por isso. Nascia assim o Vidas em Transição.

Depois de alguns meses de estudo do projeto, percebemos que não queríamos relatos de pessoas que já tinham se encontrado, e que após longas caminhadas alcançaram seu propósito profissional. Queríamos mostrar o exato intervalo entre o decidir transitar e a linha de chegada.

Afinal, imagine conversar com alguém que passou por um grande sofrimento e que, neste momento, está bem. Agora imagine conversar com alguém que ainda está aflito, no auge da vulnerabilidade e com os sentimentos à flor da pele.

Isso nos pareceu mais interessante já que é nos momentos mais dramáticos que o ser humano traz as reflexões mais profundas. Além disso, paralelo às insatisfações profissionais, há um outro elemento:

Estamos vivendo um momento em que gerações mais velhas se veem tendo que se reinventar — ao mesmo tempo em que gerações mais jovens estão perdidas porque não se encaixam no modelo corporativo de trabalho

Embora a vontade de fazer o projeto fosse enorme, ele acabou acontecendo só dois anos depois, no final de 2015, quando iniciamos as gravações com os personagens. Esse tempo de espera foi importante para amadurecermos a ideia e encontrarmos bons personagens que topassem falar sobre solidão, tempo livre, ansiedades, medos, expectativas próprias, alheias, e sentimentos íntimos. Esse processo de construção da série foi muito interessante.

Marcávamos longos cafés com os possíveis personagens para que eles nos contassem suas histórias. Muitas vezes, nos emocionávamos porque os relatos traziam uma sinceridade que não é fácil encontrar no cotidiano nem nas redes sociais. Isso nos motivou ainda mais a gravar essas pessoas e mostrar que a vida real nem sempre está com os pontos acertados. Muitas vezes ela está dentro de um barco vazio, como bem disse uma das nossas personagens, aguardando para ver qual rumo as águas irão tomar.

A série está no ar desde o início de março. Para esta primeira temporada, estamos trazendo seis episódios, cada um com uma transição diferente — há desde pessoas que foram desligadas; que de demitiram em busca de novas oportunidades; que decidiram empreender ou que tiveram que vivenciar uma inesperada maternidade.

O símbolo do projeto é uma cadeira em movimento, que representa a busca dos personagens por um novo lugar, onde eles possam voltar a produzir e a encontrar um propósito profissional que os satisfaça. No final de todos os episódios, os entrevistados assinam a cadeira, porque nós queríamos ter um registro dessas pessoas maravilhosas que abriram sua alma para o projeto. Os vídeos seguem um formato documentário, e são lançados a cada quinze dias com entrevistas inspiradoras e um pouco mais longas do que estamos acostumados a ver no youtube.

Desde que lançamos o projeto, tem sido um frio na barriga. Todos os dias.

Projetos autorais têm a mesma carga de responsabilidade que projetos para clientes. E a nossa busca é espalhar para o maior número de pessoas que a transição profissional é um processo natural e importante que, em algum momento, fará parte da vida das pessoas. Agora estamos na fase de buscar parceiros que nos acompanhem nesta discussão de carreira, para fazer do canal Vidas em Transição um espaço aberto para conversas profundas de carreira.

A transição não é um bicho de sete cabeças que devemos evitar falar sobre ou ter medo. Ela é uma fase, por vezes dolorosa, cheia de dúvidas, questionamentos, mas que amadurece, sensibiliza e transforma o futuro. É uma preparação para o salto, um amadurecimento que antecede o voo.

 
A autora deste texto, Clara Vanali, 28, é jornalista, premiada pela CNN Internacional, com especialização em direção e cinema digital, trabalha com realização de vídeos há 10 anos e há 3 fundou a produtora audiovisual Às Claras Filmes. Sua irmã, Natali Vanali, 32, é administradora com mestrado em inovação. Trabalhou durante 10 anos com consultoria em gestão e inovação para médias e grandes empresas. Há 2 migrou para o audiovisual, reforçando a equipe de vídeos da Às Claras Filmes.

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