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“A vida é para ser encontrada, vivida, hackeada e construída. Isso é responsabilidade sua”

- 3 de novembro de 2017
Raphael Kras fala de sua busca por crescimento espiritual enquanto vendia sanduíche na praia e de como só quando aceitou suas limitações é que conseguiu prosperar com o Hareburguer
Raphael Kras fala de sua busca por crescimento espiritual enquanto vendia sanduíche na praia e de como só quando aceitou suas limitações é que conseguiu prosperar com o Hareburguer

 

por Raphael Krás

Desde pequeno sempre fui encantado por antigas civilizações, múmias, mapas, geologia, dinossauros, galáxias, planetas, estrelas e asteróides. O que eu quero ser quando “crescer”? Essa é a pergunta que a maioria de nós ouve na infância. Posso dizer que estava decidido a ser paleontólogo. Depois mudei para arqueólogo. Durante um tempo cogitei ser arquiteto e, por fim, decidi de uma vez por todas que o ideal mesmo era ser astronauta.

No ano do vestibular eu simplesmente não fazia a menor ideia do que queria fazer para o resto da vida. Minha vontade, na época, era estudar Biologia mas prestei para Engenharia, Letras, Direito… Mas acabei entrando em Comunicação Social. Durante toda a minha existência, sempre me acompanhou um desejo irresistível de descobrir a verdade da vida e do universo, quem sou eu e o porquê disso tudo.

Qual é o meu propósito? O que é viver? Estou a serviço de quê? O que é a educação? Existe uma alma no ser humano? O que é a inteligência do universo? O que devo fazer? Para onde ir? Quem tem um conhecimento real? O que é a realidade? Essas perguntas me angustiavam dia e noite.

Hoje vejo como esse interesse é justo e genuíno. Afinal de contas, todas as pessoas um dia não existiram, certo? A partir do momento em que nascem, nasce a pergunta: qual é o objetivo disso tudo? O que fazer com isso? Ao nascermos, temos que aprender a viver. Essa é a maior responsabilidade e o maior desafio de todos.

Mas, ali, naquela época tensa de definir faculdade e vestibular, eu via muitos jovens perdidos, seguindo caminhos guiados pela imagem que queriam passar ou pela uma imagem falsa que tinham de si mesmos. Não pensavam em fazer o que amavam. Não se davam conta de que quando alguém faz o que ama não sente cansaço nem preguiça, sequer sente que é trabalho, pois aquilo é simplesmente uma extensão do que a pessoa é.

Senti que queria experimentar isso. Então, terminei o segundo período, tranquei minha matrícula e decidi que o que eu seria quando crescesse era simplesmente… Eu mesmo! Era 2006, eu tinha 19 anos e, a partir desse momento, decidi que criaria meu próprio caminho. Pedi 50 reais emprestados para minha avó, com os quais comprei um pequeno isopor, desenvolvi uma receita de hambúrguer vegetariano, colori meu isopor com desenhos feitos à mão e fui à praia vender o que seriam os oito primeiros Hareburgers.

Eu estava vendendo sanduíche na praia mas, ao mesmo tempo, passei a buscar todos os meios para entender quem que eu era, como poderia evoluir, me transformar e descobrir o que um dia poderia me tornar

O negócio fez sucesso. Todo o dinheiro que ganhei vendendo os sanduíches na praia foi utilizado para os meus estudos pessoais. Comprei muitos livros, comprei flautas que passei a tocar na praia enquanto vendia os sanduíches (isso virou parte do folclore do Hare, mas era o único momento que tinha disponível para praticar!).

Comecei a estudar meditação, música, rítmica e danças sagradas, teatro sagrado, culinária, qigong (exercício chinês de cultivo energético), cerâmica, tapeçaria, kung fu. Trabalho até hoje com muitos pais, professores, jovens, crianças e anciões.

Fiz todos os esforços financeiros que pude e investi, mesmo, todo o dinheiro que tinha para estar o máximo possível sob condições de aprendizado e conhecimento do ser. Passei anos trabalhando de sol a sol nas praias do Rio de Janeiro. Eu ia para as praias todos os dias vender sanduíches. Principalmente nos finais de semana e feriados de sol. Com isso, consegui fazer meus retiros e jornadas de trabalho em torno dos temas que citei acima. Viajei pelo Equador, Venezuela, Peru, Argentina, sem contar as inúmeras experiências e vivências no Brasil.

Hoje vejo a importância da educação. Não a educação que associamos ao pensar nas escolas. A educação do ser humano, a educação da natureza do ser, da possibilidade de desenvolvimento da consciência. Essa só pode ser buscada pelo indivíduo

Sócrates ensinava em praça pública. Eu posso aprender em qualquer lugar. Cada um deve se interessar pelo próprio desenvolvimento e buscar os meios para isso

Não podemos colocar essa responsabilidade em cima de outras pessoas. Nós devemos tomar as rédeas do nosso próprio desenvolvimento. Cada um deve se responsabilizar por si e por seu próprio caminho. Porque o próprio caminho se torna o destino final.

Esse é o momento em que aprendi que não há um kung fu a ser aprendido de fora, mas há um kung fu a ser encontrado dentro de mim. É quando encontro a liberdade e a felicidade, porque me harmonizei e me forjei em minha própria natureza real.

Aprendi, ainda, a importância do aluno e do professor. Uma relação que vai muito além de passar conteúdo e provas, mas que tem a ver com energia e de transmissão de conhecimento para a vida. Uma relação que deve ser baseada em respeito mútuo e que é verdadeiramente no sentido mais amplo do termo, uma relação de mestre e discípulo.

Ao longo desses meus últimos onze anos de trabalho de desenvolvimento interior, tive mais de 20 mestres com os quais tive contato direto. Em muitos momentos, um contato diário. Um desses mestres uma vez me disse: “o que você fizer hoje determinará o que você será daqui a dez anos”. Fiquei muito espantado pela realidade de suas palavras e redobrei os meus esforços no meu desenvolvimento pessoal e no desenvolvimento do meu empreendimento.

Hoje, pouco mais de uma década depois, o Hareburger é uma rede de lanchonetes com 10 unidades no Rio de Janeiro e acabamos de inaugurar a primeira unidade em São Paulo.

Trabalhei na praia construindo a marca Hareburger e criando uma base de clientes e amigos de 2006 até 2011, durante cinco anos, até conseguir abrir a primeira loja da marca. Desde aquele primeiro dia na praia, sentia estava iniciando algo muito maior. Eu sabia que era o começo do primeiro fast-food vegetariano do universo.

Na época, rolou preconceito por eu ser um ambulante. Não existia hambúrguer vegetariano na cidade do Rio de Janeiro e nenhum fast-food vegetariano no mundo

Como sempre gostei de lidar com pessoas e sempre tive amor ao conhecimento, falar de estrelas e galáxias era muito natural para mim e isso está na comunicação da marca desde o início.

Àquela altura, tudo que eu precisava era preparar um hambúrger como eu gostaria de receber, e tratar ao outro como gostaria de ser tratado: com atenção, boa vontade e respeito. Pensava que se fizesse isso, não teria como dar errado. Era só estar tranquilo, positivo, tentar me relacionar com as pessoas e ser eu mesmo. Dessa forma, tudo no devido tempo iria vir e se encaixar.

Porém, um belo dia refleti e percebi que não era 100% garantido de que fosse assim. Eu já tinha 24 anos, meus amigos da faculdade já tinham se formado e eu corria o risco de literalmente morrer na praia… E se eu não conseguir sair da praia? E se eu ficar velhinho? Como vou aguentar carregar o isopor pesado nas costas? Além do mais, alguém com dinheiro pode vir e abrir o primeiro fast-food vegetariano do universo antes de mim. O que fazer?

Pela primeira vez, apesar de sempre ter certeza de que o Hareburger seria muito maior, pensei que também tinha potencial para dar tudo errado.

Enxergar o potencial real tanto do sucesso como do fracasso foi um tremendo susto — e me colocou de frente para a minha realidade: o tempo estava passando e eu simplesmente não tinha conhecimento para avançar

Mas acredito que quando somos corajosos o suficiente para ficar diante de nós mesmos, olhar para nós mesmos e não nos escondermos de nossas fraquezas e limitações, podemos amadurecer e crescer de verdade. Posso ser bom em vários aspectos, mas em outros devo assumir a minha limitação.

A rede Hareburger começou na praia e hoje tem 11 lojas no Rio e uma, vegana, em São Paulo.

A rede Hareburger começou na praia e hoje tem dez lojas no Rio e uma, vegana, em São Paulo.

É sempre melhor identificar os pontos fracos e correr atrás de melhorá-los. Passei a estudar planos de negócios e coloquei a meta de abrir a primeira loja em no máximo um ano, tendo em mente o risco que estaria correndo. Consegui a ajuda de dois sócios que curtiram as minhas ideias e em nove meses abrimos a primeira loja.

A vida é um mistério e, se não fizermos por nós, ninguém fará.

Hoje estou convencido de que hackear a vida não é apenas um estilo de vida, uma ideologia, um sonho, um método ou um modo de dizer. Mas algo a ser entendido no sentido mais literal possível: não só é possível de ser realizado em diversos níveis diferentes, como é necessário e urgente, é ainda, algo a ser feito em nosso próprio DNA.

Nós podemos hackear o nosso próprio DNA por meio daquilo que fazemos, comemos, pensamos, sentimos, vibramos e ouvimos

Através do desenvolvimento de nossa própria consciência, podemos alterar o nosso código genético para as próprias gerações. Isso é magia. Criar é mágica. Como se tornar um mago da vida? Ainda temos muitos anos de vida.

Hackear a vida é, acima de tudo, manter uma pergunta em aberto. Quem sou eu? Cada dia é uma descoberta e uma transformação. Se abrir ao outro é abrir o sentimento para o outro e para si mesmo. Como me abrir para a vida em vez de lutar com ela?

Com meus mais de 20 mestres, aprendi que conhecimento e cultura não devem ser acumulados, mas, que são algo em que cada um deve se transformar. Cada pessoa deve ser o conhecimento, a cultura encarnada, de uma civilização. Cada um deve ser um legado para as próximas gerações. Essa corrente de energia real é o que sustenta o desenvolvimento de uma sociedade. Só a educação e a preservação de conhecimentos ancestrais podem preparar os nossos filhos.

Educarei meus próprios filhos, aprenderemos kung fu, poesia, danças, meditação, música, teatro, inglês, espanhol, francês, mandarim, culinária, mecânica, pintura, cerâmica, engenharia, biologia e as leis cósmicas da natureza. Aprenderemos o que eles quiserem… Aprenderemos a velejar e morrerei como um samurai.

A vida é para ser encontrada, vivida, hackeada e construída. Isso é responsabilidade sua

O Hareburger é o resultado da minha busca por mim mesmo. Como usar o meu tempo ao meu favor? Como levar conhecimento e informação para as pessoas? Como entreter, fazer amigos e ainda contribuir para um mundo mais equilibrado, levando em consideração valores universais como respeito ao semelhante, aos animais e ao planeta?

O Hareburger é a minha tentativa de fazer tudo isso de uma vez só enquanto, camada por camada, busco me desfazer de ilusões, evoluir como ser humano e propagar os conhecimentos deixados por nossos ancestrais.

Como empreendimento, ele segue o seu caminho e cresce, cada vez mais maduro, pois agora já é um adolescente, já sabe de suas responsabilidades e tem seus próprios sonhos: quer conhecer o mundo, se tornar uma escola, ser totalmente sustentável e ser um canal vivo de troca de sabedoria de vida. E com a certeza do sucesso renovada, pois nós, os Hares, temos um lema: “Não tem como dar errado, pois sabemos que não desistiremos nunca”.

Pessoalmente, ainda quero construir uma esfinge, um barco viking, plantar minha própria comida, educar meus próprios filhos e aprender cada vez mais com as pessoas, com a vida.

Quando estamos no trabalho ou na escola, a atitude esperada de nós é de consideração e respeito ao outro. Quando saímos desses lugares não deveria ser diferente, pois a verdadeira escola é a vida. O desafio, então, é: como despertar em mim o desejo de me educar? A partir daí, me pergunto: como despertar no outro, nos meus filhos, o desejo de se educarem? Isso porque uma mudança de atitude só pode vir de uma intenção pessoal. Com isso, volto à pergunta: Quem sou eu?

Cada um nasceu para ser a si mesmo. Nascemos para ser buscadores, para integrar o conhecimento da vida e da morte na unidade de consciência do Ser.

Quem é você?

 

 

 

Raphael Krás, 30, é virginiano, carioca e sócio-fundador da rede de fasf-food vegetariana Hareburger

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