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“Aos 40, minha vida mudou. As oportunidades estão em lugares que nem imaginamos, basta prestar atenção”

- 14 de julho de 2017
Flavio Cremonesi, o Limonada, conta como sua vida mudou ao chegar aos 40 anos.
Flavio Cremonesi, o Limonada, conta como sua vida mudou ao chegar aos 40 anos.

 

por Limonada

A apresentação é rápida: sou caipira de nascimento, caboclo de alma e caiçara na paixão. “Qualquer um pode cozinhar”, era o lema do chef Gusteau, na animação Ratatouille. Qualquer um pode mudar. E são tantas as mudanças quando se faz 40 anos!

A minha foi tão radical que até meu signo se transformou. Sempre achei que era de Leão, por ter nascido no dia 22 de julho, mas descobri, por uma amiga daquelas “bruxas” do bem, que sou de Câncer. Aceitei e meus olhos encheram d’água! Como dizia Raulzito, ah, esses cancerianos sem lar! No final de 2016, mais precisamente no dia 17 de novembro, “pousei meu balão” em Belo Horizonte. Adotei a capital mineira e Minas Gerais me adotou. Como cheguei ali?

Minha história com o Brasil é intensa. É mais fácil mencionar os estados brazucas que não conheço do que aqueles onde estive. Após me graduar no curso de Engenharia Florestal, na universidade referência na área “escolhida”, a ESALQ/USP, de Piracicaba (SP), me aventurei profissionalmente na maior floresta contínua e tropical do mundo: fui trabalhar na Amazônia. Por mais “machucados” que eu tenha ganhado com a distância das pessoas amadas, um carinho e respeito gigantesco pela região nasceu, fazendo de mim também um “caboclo de alma”.

Na Amazônia, vivenciei histórias incríveis. Viagens longas com barcos, ribeirinhos com vidas extraordinárias. Também testemunhei desastres ambientais e vi de perto a violência no interior do Pará. Isso mexeu comigo

Ao mesmo tempo, tive a oportunidade de ver o manejo florestal responsável ocupar áreas verdes a perder de vista no horizonte (eu trabalhava com certificação FSC). O Acre, para mim, foi um lugar com grandes aprendizados. A cidade de Cujubim, em Rondônia, era um “faroeste caboclo”. E assim é no Brasil profundo. Há que se mergulhar.

E eu mergulhei em muitas águas, como as dos rios Tapajós, Ueré, Juruá, Tarumã, Negro, Acre e, claro, um dos rios mais vibrantes que pude conhecer, o Uatumã (um afluente da margem esquerda do Amazonas). Fiz tudo isso por aí afora, ou melhor, adentro.

Dentro de uma história, há inúmeras pequenas histórias. Mas, definitivamente, meu sentimento era estranho.

Tenho a sensação ter errado mais do que acertado, do nascimento até os 40 anos. Agora quero acertar bem mais do que errar

E o mundo continua mudando. Hoje, por exemplo, não é mais um diploma de universidade que vai direcionar a pessoa para o resto da sua vida: é o portfólio de atividades que ela exerce. E essas atividades podem mudar sempre. Ainda bem.

Ilustro com um exemplo. Em 2007, junto com o comandante Feodor Nenov, que conheci há 15 anos na ESALQ, e mais dois jornalistas da (hoje extinta) revista Caminhos da Terra, fizemos a reportagem de capa a partir de uma grande aventura em Minas Gerais. Nosso alvo foi a cachoeira Casca d’Anta, a primeira queda d’água do rio São Francisco, com quase 200 metros de altura. Decolamos com o balão de ar quente na nascente do Velho Chico. Sobrevoamos aquela coluna vertical. Sou balonista, e ali também fui fotógrafo. Minha câmera era analógica e usava rolo de filme (imagine como foi segurar a ansiedade antes da revelação!).

Meu coração já começava a pulsar mais forte por Minas Gerais. Mal sabia eu que esse sentimento iria aflorar de novo na minha mente tantos anos depois.

Aquele dia, pousamos no meio do Parque Nacional da Serra da Canastra. Dormimos em barracas, sem qualquer tipo de comunicação, num cerrado exuberante sob um céu recheado de estrelas. Na madrugada seguinte, acordamos, inflamos o balão e decolamos para chegar em algum lugar. E, chegamos, enfim, a um vilarejo com menos de 10 mil habitantes, São João Batista do Glória. O impacto do balão é enorme. Ao verem a aeronave de cor azul se aproximar, as pessoas se aproximavam também. Os mineiros “brotavam” de todos os lugares pra ver. No fim, claro, recebemos aquele convite típico para tomar um café e comer um pão de queijo especial, recém saído do forno.

Corta para 2016. Cheguei a Belo Horizonte já foi com uma carga de emoção. Brasileiro gosta de futebol, o mineiro, então!? Sou palmeirense e torcedor do XV de Piracicaba (por carinho pela cidade em que estudei e onde meu filhote João nasceu). Aquela noite jogavam Atlético Mineiro e Palmeiras no estádio Independência, no bairro Horto. Sou morador da rua do Ouro, no bairro Serra e iniciei a busca de local para assistir ao jogo. Encontrei o Bar do Salomão, há 70 anos na ativa, uma extensão das arquibancadas do ‘Galo Doido’. Salomão, o anfitrião, me recebeu de braços abertos e assisti ao jogo em um silêncio de “biblioteca”, vibrando aquele 1×1 por dentro.

Cheguei com uma única história e conhecia uma única pessoa na cidade, meu grande parceiro e amigo Gustavo Ziller. Conheci o “Zillermano”, como eu o chamo, em um evento da Globosat, no Rio de Janeiro, na comemoração dos quatro anos do canal OFF. Lá, ele tem o programa “7 cumes” e eu faço parte do time do programa “Mais Leve que o Ar”, que mescla balonismo e esportes radicais.

No entanto, ali, recém-chegado à cidade, entre um café e outro, eu disse ao Zillermano que tinha encerrado meu “livro”. Eu não queria fazer mais nada relacionado à minha profissão de engenheiro florestal. Depois de 12 anos, estava cansado. Tinha frustrações acumuladas, a distância de pessoas queridas, não via evolução no business, enfim, eu precisava mudar radicalmente.

A vida é uma só! Escrevi num papel o que gostava e não gostava de fazer. É melhor saber o que você não gosta, antes de realmente saber o que gosta

A palavra “cerveja” entrou, na lista “o que eu gosto”. Relembrei momentos de extrema felicidade quando estava junto com os parceiros, amigos e a cerveja. Lembrei do meu primeiro gole de cerveja na vida! E, UAU, vou trabalhar com cerveja! Não sabia como, quando, nem mesmo com quem.

O Zillermano falou com um sócio dele que tem espaços de cerveja artesanal na cidade e, por alguns dias, mudei o lado do balcão: trabalhei no Gastropub… lavando copos! Passava a noite e parte da madrugada toda lavando copos e servindo as “bebidas da felicidade” (cerveja!) para a galera. A minha mente se higienizava e uma nova pessoa ia nascendo.

A partir do Gastropub, comecei a entender que esse universo de business é sensacional. Eu me sentia uma criança numa loja de brinquedos! Ainda, não conhecia os estilos, ainda tinha muito a aprender, e tenho. Mas as coisas estavam se encaminhando. Nessas horas, os encontros mais inusitados — e necessários — acontecem quase que por mágica. Foi assim que conheci o cervejeiro Guilherme Fonseca (hoje, um dos meu sócios na Lift).

As oportunidades estão em lugares que nem imaginamos. Elas são quase imperceptíveis. Por isso temos de estar com o radar bem ligado

Corta para 2017. Numa conversa com o Guilherme, contei sobre minha última aventura no “Mais Leve que o Ar”e ele me desafiou: “vamos fazer uma cerveja com essa história!”. “Como assim, fazer uma cerveja?”. Ele me perguntou que estilo eu queria. Sensacional. Claro que eu não sabia responder, só pedi que fosse algo refrescante. Dito e feito. Outro figura passou perto de nós, nessa hora, e Guilherme o chamou. Era o Henrique Mafra (a terceira parte da nossa sociedade). O time estava completo. Guilherme e Henrique criaram a receita da cerveja, no estilo Saison/Farmhouse Ale. Meu apelido influenciou. Ah, você chama ‘Limonada’. Vamos colocar limão na receita. Pura poesia cítrica!

Um negócio estava nascendo, uma nova carreira estava nascendo.

Fizemos a primeira brassagem (mistura do malte com a água, etapa crucial na cervejaria artesanal) da Lift numa panela de 50 litros. Era uma sexta-feira 13, à noite, e a lua acompanhou tudo. Naquela primeira receita, ousamos em todos os sabores. Além do limão siciliano, colocamos o limão capeta também. A cerveja estava pronta, porém mais duas questões precisavam ser resolvidas: queríamos gerar impacto com a cerveja Lift e gerar escala num volume comercial.

Pensamos e chegamos à conclusão de que precisávamos gerar experiências marcantes, em vez de simplesmente produzir a cerveja. A solução: juntar aventura & cerveja. Era a minha conexão com aventura com a arte dos cervejeiros. Como a Lift é uma cerveja inspirada do elemento ar, o balonismo já estava ali. Faltavam mais elementos. Convidei dois amigos paraquedistas, ou melhor, base jumpers. O time da aventura formado. Ainda faltava o “gatilho” do lado do business, ou seja, uma cervejaria para nos ajudar a dar escala ao business.

Por obra do destino (ou do nosso entusiasmo maluco), os eventos se sucederam e fechamos uma parceria com a cervejaria Capa Preta. Para convencer os três sócios, no processo de contar para eles o que queríamos fazer, enviei o roteio do mini documentário, de 4 minutos, que mostra a experiência que marca a história da Lift: sim, nós voamos de balão com uma cozinha improvisada no cesto e, como se não bastasse, com dois base jumpers que saltaram do balão após a cerveja ser preparada.

E, sim!, vamos produzir a Lift em escala. As peças estavam encaixadas. Emoção é mato, como os mineiros falam! Em menos de seis meses, tenho uma nova vida. Com uma história, a partir de uma única pessoa, tudo isso se desmembrou, se conectou, fez sentido. Os últimos meses estão sendo muito intensos e creio que continuarão assim.

No fim, somos todos pessoas comuns com histórias extraordinárias, buscando o extraordinário, seja lá o que for

A cerveja Lift é uma realidade. Sei que minha adrenalina não vai baixar (por isso, até, nosso lema é “Voe com moderação!”). Mas sei que o mais importante nessa mudança, para mim, é que mesmo tendo dois casamentos frustrados, quero ser um pai formidável para os meus filhotes, João & Maria, sempre usando a inspiração como fonte primária.

A idade cronológica é apenas uma data. Voe com moderação, mas não deixe de voar!

 

Flavio Cremonesi, o Limonada, tem 40 anos. Abandonou a carreira de engenheiro florestal após 12 anos na ativa. É balonista e, agora, cervejeiro na Lift

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