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“As falhas são apenas obstáculos temporários em uma longa jornada. Aprenda com as suas. E com as alheias”

- 10 de novembro de 2017
Facundo Guerra está lançando "Empreendedorismo para Subversivos", onde narra os aprendizados de mais de dez ano reinventando o negócio da noite paulistana. Leia, com exclusividade, um trecho do livro.
Facundo Guerra está lançando "Empreendedorismo para Subversivos", onde narra os aprendizados de mais de dez ano reinventando o negócio da noite paulistana. Leia, com exclusividade, um trecho do livro.

 

por Facundo Guerra

Você falhará. Muitas vezes. Se for bem-sucedido, terá sido à custa de sangue, suor, lágrimas e inúmeras falhas. O fracasso é parte inerente da vida, especialmente para empreendedores. Alguns falham a ponto de quebrar seu negócio logo nos primeiros anos e, ainda que sobrevivam à essa dura prova inicial, experimentarão muitas pequenas falhas ao longo do caminho. Um empreendedor experiente sabe que elas nunca serão suficientemente mortais para comprometer o resultado final.

Não existe sucesso ou derrota, em realidade: são apenas estados circunstanciais de uma narrativa que está em suas mãos

Muitas vezes as falhas criam um terreno fértil para que a partir delas surjam novas narrativas. Você nunca saberá se é um erro ou uma oportunidade: precisará de tempo para entender o impacto daquele acontecimento em sua existência. Muitas vezes grandes narrativas são adubadas por esterco. Tempos difíceis criam têmpera, drama, romances, tragédias, enfim, enriquecem qualquer narrativa. As falhas são apenas obstáculos temporários em uma longa jornada. São as experiências e os erros que refinarão suas habilidades. Aprenda com as suas e, preferencialmente, com as alheias.

No livro que estou lançando esta semana, Empreendedorismo para Subversivos, além de contar minha trajetória de empreendedorismo, reservo um capítulo inteiro para falar das minhas falhas. É um convite para que você, e os leitores, aprendam com os meus erros. Reproduzo aqui a primeira falha da lista: o expansionismo desmedido.

À medida que os anos passavam e mais lugares eu abria, tanto mais problemas eu tentava encontrar para resolver. Comecei a me comportar como um empreendedor serial, abrindo lugares e me enfiando em projetos em ritmo alucinante, à razão de dois por ano, à custa de minha vida pessoal e sanidade.

Me meti em todos os ramos de entretenimento possíveis. Boates? Abri quatro. Bares? Quatro. Casas de show? Duas. Cinema, centro cultural, aplicativo? Um de cada. Projetos corporativos? Mais de cinco.

Minha fome não tinha limites, mas eu não gozava mais os lugares. Eram apenas mais um, e mais um, e mais um, um ritmo triste entre articular a equipe, colocar toda a minha energia para o projeto começar, inaugurar, virar as costas e saltar para outro projeto, voltando no máximo três ou quatro vezes para o lugar que tinha recém-inaugurado.

Os espaços começavam com uma energia incrível, mas sem meus olhos, e os dos meus sócios, eles eram rapidamente perdidos para a entropia. Meses depois, quando voltava para o lugar que tinha inaugurado, ele estava triste, longe do que tinha imaginado, porque não me dei ao trabalho de consertar o percurso logo no começo, quando ainda havia tempo, estando dentro do lugar e gozando sua existência. Eu não me interessava mais pelos lugares, eles eram apenas veículos para a minha vaidade e minha obsessão de engenheiro em encontrar problemas e propor soluções a eles.

Empreendedorismo para Subversivos, de Facundo Guerra, busca ser um guia para quem quer empreender hoje em dia.

Empreendedorismo para Subversivos, de Facundo Guerra, busca ser um guia para quem quer empreender hoje em dia.

Nessa época comecei a me sentir permanente fadigado, tinha sono o dia inteiro, dormia poucas horas por noite, era descuidado profissionalmente, irritadiço, estava impotente em todos os sentidos da palavra.

Tinha entrado em um platô na minha vida profissional: era bem-sucedido, mas isso pouco importava. Não era mais feliz fazendo o que fazia, não tinha tempo para me conectar com meus amigos ou me exercitar, meu casamento se desfez; até mesmo minha filha, a coisa mais importante que tenho, um dia me perguntou, do alto de seus 2 anos, por que não me via sorrir.

Parece que me deparei com um limite para a felicidade que buscava fora de mim, empreendendo. À medida que as minhas expectativas com relação a mim e aos meus começaram a se inflar, eu precisava de mais e mais condições objetivas, ou seja, inaugurações e projetos, para me superar. Estava permanentemente em estado de guerra comigo e com todos, querendo conquistar os problemas que encontrava, sem jamais gozar uma vitória.

Nenhuma realidade seria capaz de atingir as expectativas que tinha com relação a mim: à medida que me sentia realizado, precisava de mais e mais para provar que poderia seguir sendo bem realizado, que não deixaria meu sucesso ser efêmero. Abrir tantos lugares, em vez de me trazer mais satisfação, apenas me trouxe mais expectativas, até que por fim elas atingiram um patamar insustentável. A partir daí, minha química cerebral começou a ficar completamente desbalanceada, fiquei irritadiço e tive episódios de violência com completos estranhos, apesar de nunca ter chegado às vias de fato.

Era óbvio que algo estava muito errado: tinha me tornado um dependente químico do rush de empreender, que pode ser tão viciante quanto qualquer droga ilícita

Sem alternativas, me arrastei até um psiquiatra, que encontrou minha saúde mental em frangalhos.

Tive que encher minha cara de remédios controladores de humor, coisa que jamais pensei em ter de fazer na vida. Pago os custos desse crescimento desmedido até hoje. Perdi sócios, me endividei, vivo até hoje com medo de quebrar e por algumas vezes estive muito próximo disso, salvo pelo gongo em tantas ocasiões que acredito que eu tenha mais vidas que um gato.

Moral da história: se for bem-sucedido, goze. Aproveite seu sucesso, cacete! Você é incrível, venceu quando tantos outros ficaram para trás. Só expanda seu projeto se isso realmente fizer sentido para o propósito. Se for para simplesmente trazer mais dinheiro, pergunte-se para quê.

O que você fará com a energia extra que mais dinheiro representa? Não lhe trará mais felicidade, lhe garanto. O que lhe trará felicidade são conexões com os humanos que você quer perto de si e ter suas expectativas alinhadas com as suas realizações. Para isso, precisa de tempo, e, se dedicar sua vida à abertura de mais e mais empreendimentos, em algum momento pagará por isso. Lembre-se deque quanto maior a altura, maior a queda.

Aqui vai um conselho de autoajuda, amiguinho: o que você busca não está fora, mas dentro de você

Quase nunca reagimos a eventos que acontecem fora de nosso corpo. “Fora” não existe. Nada existe fora de nosso cérebro, de nossas sensações, do nosso eu. Não amamos alguém: amamos o fluxo de hormônios e tempestades químicas que aquela pessoa provoca em nosso cérebro.

Tudo que existe, existe dentro de você. Está ao seu alcance permitir que algo te faça miserável ou não, feliz ou não, por menor que seja esse algo. Lembre-se de que você pode ter controle sobre a maneira como se sente em relação a qualquer evento externo e estará no caminho para retomar a sua vida. Conecte-se com esse algo dentro de você e tudo ficará mais simples.

Não quero soar arrogante, tampouco dono da verdade. É somente uma perspectiva de alguém que aprendeu a parar de se preocupar em demasia com os fatos da vida. Tudo passará, tanto suas misérias como suas vitórias. Goze as vitórias, deixe as mazelas passarem, e a vida será mais doce, acredite.

 

Facundo Guerra, 43, é engenheiro de alimentos, jornalista internacional e político, mestre e doutor em Ciência Política pela PUC-SP. A partir de 2005, passou a investir em bares e casas noturnas em São Paulo (Vegas, VOLT, Z Carniceria, Lions Nightclub, Club Yacht, Cine Joia, Riviera, PanAm, Frank Bar e Mirante 9 de Julho). Está lançando o livro Empreendedorismo para Subversivos – Um Guia para Abrir seu Negócio no Pós-Capitalismo

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