“As ondas que mais me intimidam no mundo dos negócios são exatamente as que mais me inspiram a surfar”

- 6 de janeiro de 2017
Guga em ação numa surf trip recente em El Salvador.
Guga em ação numa surf trip recente em El Salvador.

 

Por Gustavo Schifino

Quarto filho de um total de seis, nunca passei fome nem frio. Mas se quisesse um tênis ou uma camiseta de marca tinha que trabalhar para conseguir o dinheiro. Assim, aos 13, comecei vendendo doce de porta em porta, no Moinhos de Vento, um bairro bacana de Porto Alegre, minha cidade.

No verão portoalegrense, que é tão quente quanto o senegalês, um dia fugi para o litoral e conheci o surf. Me apaixonei. Comecei consertando pranchas na praia de Cidreira, a pouco mais de 100 km de Porto Alegre. Aos 15, fui servir cafezinho no Banco do Brasil, todo de uniforme azul, sem parar de vender os doces de porta em porta. Aos 18, entrei na faculdade de Direito. Em seguida, passei em um concurso interno no Banco, e decidi comprar a minha primeira loja. De surfe, claro.

Aos 25, pedi demissão do Banco, e parei com a advocacia para cuidar mais das lojas – já tinha três. Aos 26, me casei. Aos 31, veio o Luca, meu primogênito. Aos 34, a Natalia. Aos 37, perdi meu pai – assassinado em um assalto em uma das minhas lojas. Aos 40, comecei a praticar yoga. Ah, sim, parei de vender doces aos 17.

A Trópico hoje é uma rede de 20 lojas. Opera pelo sistema de franquia e digo com orgulho que por sete anos consecutivos foi certificada como a melhor marca do segmento. Hoje, a pequena rede de surf – e skate – tem sonhos grandes. Não em tamanho, mas em propósito.

Nossa meta é demonstrar que, sim, é possível ter uma empresa divertida, que trate bem todos que nela orbitam, que promova o lazer e o convívio com família e amigos e não o contrário – e não afaste as pessoas desse convívio, como normalmente ocorre. Queremos levar esse estilo leve para qualquer lugar, sem pressa.

A gente vai vivendo, prosperando, sonhando, realizando, tomando tombos, aprendendo, e um dia percebe que a vida vem em ondas. Assim como as oportunidades (e ameaças) de mercado também. Eis o que está muito claro para mim, hoje: nada do que foi será do jeito que já foi um dia.

Selecionei cinco frentes de reflexão que me tiram o sono quando olho para a posição que construí até aqui como empresário do Varejo e do Franchising. Paradoxalmente, são esses mesmos cinco temas que mais me estimulam hoje a continuar empreendendo. O futuro pode ser altamente assustador, quando estamos tentando defender o presente a partir da nossa experiência pretérita.

Mas pode também ser uma possibilidade altamente motivadora, entusiasmante, rejuvenescedora, se a olharmos com olhos de quem está aqui para construir, para continuar construindo, num indo e vindo infinito, e não apenas para defender o que já foi feito.

Obsolescência

Essa é a primeira que me vem a cabeça. A certeza de que você pode acordar pela manhã e seu negócio simplesmente ter perdido a relevância. E que as pessoas podem ter encontrado algo mais interessante e mais barato para satisfazer os seus desejos e necessidades. Ou que talvez seus desejos e necessidades tenham mudado a ponto de você ter perdido o sentido e a razão de ser. Constatar essa realidade é incrível – e tem em mim o efeito de transformação, de incômodo, de me sentir vivo.

Mudança é incômodo. Bom seria não precisa mudar. O ponto é que a relevância troca de mãos como uma velocidade cada vez maior. Em uma evolução natural, temas e ações ligados à generosidade, compartilhamento, qualidade de vida, transparência e meditação estão ganhando muito espaço.

Os sistemas colaborativos e criativos – que estão na fundação do bom franchising, ainda bem! – são um equipamento interessante para enfrentar essa onda gigante que está quebrando em nossa praia. No franchising tem sempre alguém cuidando do longo prazo (o franqueador) e tem sempre alguém de olho no curto prazo (o franqueado). Por isso, o franchising tem sido o último setor a entrar nas crises e o primeiro a sair.

Consumo Consciente

As pessoas irão consumir menos e melhor. Prosperará quem tiver produto de verdade, que resolva. Vivendo o mundo do surf desde muito jovem, foi fácil perceber que, na real, precisamos de muito pouco para sermos felizes. De algum modo, o estilo de vida praiano original, meio hippie, antecipou a percepção de que riqueza mesmo é ter tempo para viver bem, e que é na Natureza, e que é dentro de nós mesmos, e não no dinheiro e nas coisas que ele pode comprar, que encontramos a Paz e o equilíbrio.

Já vivemos numa era em que o consumo consciente nos sugere usar muito cada item que adquirimos, até o fim, estabelecendo com nossas coisas relações afetivas – e não relações superficiais, de quem compra muita coisa e nem sabe direito o que tem.

Também já vivemos a era do compartilhamento. Não precisamos ter tudo que precisamos – podemos trocar, usar junto, pedir emprestado

Penso que a prioridade, daqui para a frente, será termos o suficiente para o que nos seja necessário. Qualquer coisa além não fará sentido, não será sustentável. O preço sempre será uma divisão entre o custo que você pagou e o número de vezes que vier a usar. E isso a partir de agora passará a ser percebido em larga escala.

Só que a economia inteira, em escala mundial, está estruturada de outra forma. Mexer nisso significa trocar o alicerce. Um trabalho danado. Um salto que muitos não conseguirão dar – e que ninguém conseguirá operar sem algum grau de sofrimento. Mas não há escolha. Ou você consegue voar com os novos ventos ou cairá junto com a velha estrutura.

As luzes no fim do túnel, no entanto, são muitas. Entre elas, a promoção de mais igualdade social, item tão necessário a um país como o nosso. A diminuição da oferta de coisas sem valor. Foco em produtos com alta usabilidade, seja para o prazer ou pela utilidade prática.

Conectividade e Automação

O cliente sempre vai comprar o que quiser, onde quiser e como quiser. A tecnologia elevou essa verdade a patamares nunca antes pensados. Os Millennials são nativos digitais e representarão em cinco anos 70% do consumo, seja por via direta ou indireta (interferindo na escolha de outros). Ou você aprende a conversar com essa turma, a ouvi-los, e finalmente a vender para eles, ou você está em sérias dificuldades.

Como dizia minha vó, a ligeireza é que assusta. Tudo está acontecendo muito rápido. E não há sinais de que esses processos vão desacelerar.

Ou você desaprende coisas velhas na mesma velocidade que aprende coisas novas, ou terá grande dificuldade de permanecer relevante

É preciso se desapegar dos modelos do passado, mesmo os consagrados.

Sim, tudo pode ser mais simples, barato e direto. E será.

Propósito e Alma

Tem que ser de verdade. Eu adoro o exercício do velório, aquele que você tem de imaginar quem estaria triste no velório da sua empresa. Se forem só os acionistas e, talvez, os funcionários, a empresa já morreu. Simples assim. Isso para mim é a verdadeira analise de propósito. Você tem uma alma ou não? Algo que faz falta de verdade para alguém?

Nesse território, mentir é pior que não ter uma resposta positiva. Buscar um propósito é legítimo e necessário. No fim, é só isso que seus funcionários, seus clientes e as pessoas que você mais ama, vão valorizar isso em você e na sua organização.

Um bom jeito de começar a procurar o tal propósito, às vezes tão difícil de encontrar, é humanizar as relações. Isso gera a diminuição do consumo de antidepressivos e ansiolíticos. Perder o medo de olhar no olho, de gerir na horizontal. Isso tudo abre a nossa vida tão efêmera ao engajamento a uma causa que faça sentido.

Os Millennials nos ensinam um pouco sobre isso – não têm muita ilusão sobre o futuro, procuram viver o presente. Para ser bom tem que ser agora. Estudar, para só depois trabalhar, para só depois se divertir, não faz mais NENHUM sentido. O bom é que essa geração quer trabalhar com você, só não quer ser chefiado por você. Porque não estão à procura de chefes.

Concorrência

Antes era “eu contra eles”. Agora somos “nós contra eles”. E amanhã cedinho será somente “nós”. Isso é muito interessante. As parcerias e o trabalho colaborativo, até mesmo com concorrentes, trazem um novo mundo, e toda uma nova perspectiva no mundo dos negócios. A otimização dos recursos e compartilhamento de espaços, campanhas, funcionários, produtos, enfim, de tudo, compõem talvez um dos fenômenos mais interessantes dessa nova Era.

Defina qual é a sua essência. E trate-a bem, com cuidado

A produtividade, tão necessária para trabalharmos menos e termos mais tempo para evoluir como seres humanos, em outros aspectos da vida, em outras dimensões, continua sendo uma necessidade. No entanto, ao olhar para o lado, você poderá encontrar, muito mais do que alguém disputando a atenção e o bolso do seu cliente, uma outra pessoa, como você, que pode se transformar num grande aliado na transição para esse fantástico mundo novo.

 

Gustavo Schifino, o Guga, 49, cuida hoje do propósito, do treinamento e da expansão da Trópico, rede líder no segmento de Surf Skate Shops da Região Sul, com 20 lojas. Guga é surfista, yogin e presidente da Comissão de Ética da ABF (Associação Brasileira de Franchising).

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