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“Aventureiro” não é pejorativo: Ricardo Ferreira leva a medicina ao meio da floresta

- 16 de junho de 2016
O pajé da comunidade de Maturacá agradece a Ricardo pela cura dos parentes durante a expedição (foto: Guilherme Ciaco)

 

Ricardo Affonso Ferreira pertence a uma dinastia de médicos. O avô paterno era natural de Jerumenha, no Piauí, estudou na Europa e foi médico de bordo de um navio que transportava tropas inglesas para a Guerra dos Bôeres, contra os colonos de origem holandesa na África do Sul, na virada do século XX; otorrinolaringologista, teve 15 filhos (oito seguiram a medicina). Nascido em Juiz de Fora (MG), o avô materno foi um cardiologista que desbravou o norte do Paraná para plantar café. “Ele foi um exemplo para mim”, diz Ricardo, recordando os verões de sua infância na fazenda, nos anos 1960. “Eu via a fila interminável de pacientes, o meu avô levava uma caminhonete abarrotada de medicamentos para distribuir entre o pessoal que trabalhava na região.”

Nascido nos Estados Unidos (em Peoria, no estado de Illinois, onde seu pai fazia residência), Ricardo tem 59 anos. Veio para o Brasil aos 5, cresceu – e vive – em Campinas (SP) e flertou com a ideia de estudar história. A medicina, porém, estava no seu DNA, assim como o inegável gosto pela aventura. Após espalhar folhetos por aeroportos oferecendo-se para trabalhar fora do país, trancou a faculdade no primeiro ano e aceitou um emprego numa empresa de reflorestamento no norte da Nigéria, onde o vento do Saara prejudicava a vegetação e a agricultura. “Era uma aldeia afastada, sem luz elétrica, eles não viam homens brancos por lá há quase 20 anos. Ali eu aprendi muito sobre convivência com pessoas diferentes.”

Ricardo passou oito meses na Nigéria e, após quatro anos, retomou as aulas na PUC, em Sorocaba (SP). Engatou um namoro e casou-se com Cristina, futura mãe de seus dois filhos, a tempo de concluir o último semestre do curso na University of Tennessee, em Memphis, nos Estados Unidos. “Logo que me formei, fui chamado por um amigo para trabalhar num restaurante de comida creole (culinária originada no sul dos EUA) no Colorado. Eu era garçom e a Kiki, minha esposa, trabalhava na chapelaria.” Após acumular dinheiro, deu sequência a sua formação. Nos anos seguintes, o casal viveu em Wilmington (perto de Filadélfia, EUA), Montpellier (França) e Stoke-on-Trent (Inglaterra). “De volta a Campinas, comecei a trabalhar como ortopedista, mas sempre sentia falta de fazer algum trabalho voluntário para ajudar os que mais precisam.”

Cirurgias na selva

O voluntariado entrou em sua vida na forma da Expedicionários da Saúde, entidade sem fins lucrativos fundada por Ricardo após uma excursão com seis amigos (a maioria, médicos) ao Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil que fica em terra ianomâmi, no Amazonas, em fins de 2002; travar contato com os índios era um dos objetivos. Com ajuda de carregadores, o grupo levava quilos de medicamentos fornecidos por um laboratório e kits de primeiros socorros. Quase todo o material de sutura foi gasto nos primeiros dias, costurando dois índios de outra etnia que se engalfinharam numa briga de faca. Quando enfim encontraram os ianomâmis, a recepção não foi das mais calorosas, mas Ricardo conseguiu convencer o cacique de que os “forasteiros” só queriam ajudar. 

Em 25 dias na selva, o médico perdeu 13 quilos. Tinha então 45 anos. “A floresta vai entrando em você. Mais do que preparo físico, é preciso preparo psicológico”, diz Ricardo. O conceito de uma organização para atender tribos remotas foi sendo amadurecido ainda no trajeto de barco de volta a Manaus, em conversas com dois companheiros de viagem: o anestesista Martin Ferreira, seu primo; e o ortopedista neozelandês Gordon Howie, que ele conhecera durante a residência nos EUA. De volta a Campinas, Ricardo consultou o antropólogo Beto Ricardo, fundador do Instituto Socioambiental (ISA) e seu conselheiro informal, e reuniu um grupo de amigos de infância – advogados, executivos, empresários – para, juntos, estabelecerem o estatuto dos Expedicionários da Saúde.

A primeira expedição, em 2004, teve como destino o povoado de Iauaretê, no noroeste do Amazonas, na fronteira com a Colômbia. Nos últimos 12 anos, os Expedicionários realizaram 5 700 cirurgias e 37 mil atendimentos clínicos ao longo de 34 expedições. Cada uma envolve, em média, 30 médicos, cinco dentistas, 15 enfermeiros e a equipe da logística, que chega antes para montar o acampamento. A triagem para identificar os casos cirúrgicos é feita por enfermeiros do DSEI (Distritos Sanitários Especiais Indígenas) capacitados pela ONG. Em geral, os procedimentos visam corrigir hernias e remover cataratas. “Nosso centro-cirúrgico é um hospital móvel: três barracas interligadas com entradas distintas para os pacientes oftalmológicos, os pacientes de cirurgia geral e os médicos.”

Especialista em próteses de joelho e quadril, Ricardo diz que cirurgias desse porte são muito complexas para serem realizadas na floresta. Assim, quando é necessário, os pacientes indígenas são levados até Campinas, onde o médico e seu pai dirigem o Instituto Affonso Ferreira, especializado em tratamentos ortopédicos. “Converso com o hospital onde opero, converso com os meus fornecedores de próteses e consigo fazer tudo de graça.” A generosidade de pessoas, empresas e instituições é essencial para manter os Expedicionários da Saúde. Quase todos os colaboradores são voluntários, inclusive Ricardo. Duas transportadoras parceiras levam as 15 toneladas de equipamentos até Manaus, e de lá o Exército e a Força Aérea Brasileira (FAB) dão suporte fluvial e aéreo.

Ajuda ao Haiti

Em janeiro de 2010, assim que soube do terremoto no Haiti, Ricardo decidiu: iria até lá ajudar. “Falei com amigos, fizemos uma ‘vaquinha’ e fui embora com o Hernane, enfermeiro da nossa primeira expedição, em 2004.” Os dois viajaram de avião até a República Dominicana, alugaram uma van, reuniram suprimentos e seguiram rumo à fronteira, onde aguardaram um dia para continuar a viagem em comboio (os veículos de ajuda humanitária eram alvo de assaltos). Numa parada a caminho da capital haitiana, Porto Príncipe, um tremor secundário assustou o grupo, à noite: “Estávamos dormindo, de repente o carro começou a chacoalhar…” Em Porto Príncipe, Ricardo encontrou um cenário desolador e hospitais sem condições de segurança para receber a sua equipe, como ele pretendia.

Todo fim de tarde ocorria uma reunião de emergência da Organização Mundial de Saúde com ONGs, na capital. Numa delas, Ricardo soube que precisavam de ortopedistas em Les Cayes, cidade a 200 quilômetros que recebera 80 mil refugiados. “Logo que cheguei, fiz algumas cirurgias no hospital municipal. No dia seguinte, visitei um hospital canadense com muros e guardas da ONU, fundamentais para segurança.” Era o Institut Brenda Strafford, de otorrino e oftalmologia. “Lá dentro estava uma bagunça, gente entrando com qualquer roupa no centro cirúrgico… Expliquei ao diretor: quero trazer médicos e equipamentos. Você me dá autoridade?” Acordo fechado, Ricardo organizou uma faxina no hospital e chamou dez colaboradores do Brasil, entre cirurgiões, anestesistas, enfermeiros e técnicos de radiologia.

Foram sete expedições ao Haiti, com 500 cirurgias e 2 mil atendimentos. “Quando terminava uma equipe, ia a segunda, a terceira… Mas chegou um momento em que acabou o dinheiro.” Agora, Ricardo prepara-se para a 35ª expedição em solo brasileiro, em julho; o acampamento será montado numa escola agrícola na terra dos Sateré-Mawé, a quatro horas de barco de Parintins (AM). A novidade, desta vez, será um projeto-piloto em parceria com a ONG Renovatio, que produz óculos de baixo custo. A meta é que até mil índios saiam do consultório oftalmológico enxergando melhor, com um par de óculos novinho – tudo bancado pelos Expedicionários da Saúde e pela Renovatio. “Sempre quisemos fazer óculos para as crianças, para os idosos indígenas… Vai ser algo sensacional.”

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