Casa Brasilis, ou como um selo de LPs se tornou um hub de negócios em torno da cultura do vinil

- 25 de julho de 2016
Rafaella Gouveia, a Rafa Jazz, e Bruno Borges, o DJ Niggas, fundadores da Casa Brasilis (foto: Osvaldo Ferreira).
Rafaella Gouveia, a Rafa Jazz, e Bruno Borges, o DJ Niggas, fundadores da Casa Brasilis (foto: Osvaldo Ferreira).

Um ponto que é, ao mesmo tempo, gravadora de vinis, loja de discos, bar, café, escola de DJs e espaço de eventos e lançamentos de bandas. Esse hub cultural é a Casa Brasilis, que funciona no Sumaré, em São Paulo. Os criadores do negócio são a designer Rafaella Gouveia, 29, e o técnico em informática Bruno Borges, 36, conhecidos na cena musical paulistana como Rafa Jazz e DJ Niggas. “A gente respira isso, a gente vive a casa, praticamente 24 horas por dia”, conta Rafa sobre um empreendimento que não nasceu dessa forma. Eles queriam, lá atrás, ter um selo de vinis, o Brasilis Grooves, mas aos poucos foram percebendo — não sem dores e erros — que para a ideia original vingar como negócio, eles teriam de alimentar toda uma cadeia à sua volta.

Essa transformação e ampliação da oferta de produtos e serviços não foi de caso pensado. Ela ia se ampliando conforme o movimento do público pedia. Hoje, a vocação híbrida e fluida da casa está consolidada e garante uma agenda movimentada e diversa, que alimenta a empresa original. Por causa dessa rotina sempre centrada em torno da cultura do vinil, a Casa Brasilis  atrai para a sua órbita diferentes públicos. O lugar também tem sido berço de projetos da cultura hip hop e da música brasileira, além de abrir as portas para movimentos empreendedores e criativos. “O que nos move é a vontade de estar entre os espaços que fazem a diferença e oferecem algo exclusivo. Mas sem gourmetizar, pois queremos ser acessíveis”, diz Rafa.

COMEÇAR BEM PEQUENO E FOCADO

O negócio começou bem pequeno e focado. Com o tempo, foi se transformando ao afirmar sua identidade a cada novo passo dado. Primeiro, surgiu como o selo de vinis Brasilis Grooves, que funcionava dentro de um apartamento em Perdizes, na capital paulista. O casal produzia e fabricava os discos em casa, e os vendia pela internet.

Múltipla e discreta, a fachada da Casa Brasilis (foto: Osvaldo Ferreira).

Múltipla e discreta, a fachada da Casa Brasilis (foto: Osvaldo Ferreira).

O primeiro lançamento foi um repress (a reimpressão) de um disco clássico dos anos 70 do cantor Di Melo. “Era um disco raro, muito colecionador procurava, conseguimos ir atrás do Di Melo, lançamos o primeiro disco com 500 cópias”, conta a empreendedora.

Os dois, então, se especializaram em prensagem de clássicos e lançamentos de novos nomes como Liquidus Ambiento (o LP sai por 65 reais) e cantores de rap como Jaçanã Picadilha.

Os vinis atuais custam 85 reais, em média, mas as raridades podem chegar a 210 reais. Um LP duplo de Snoop Doggy Dog, Tha Doggfather, sai por 185 reais. O recém-lançado LP de André Sampaio, Desaguou, sai por 80 reais. Um triplo dos Beatles, On Air Live at the BBC Vol.2, sai por 415 reais.

Só quando Rafa e Niggas sentiram que o público desejava ter uma experiência além da compra é que resolveram investir em algo maior. “Às vezes, em vez de receber pelo correio, o pessoal pedia para retirar no apartamento onde a gente morava. A gente descia até a portaria, e muitos perguntavam se tínhamos mais discos para ver. Nisso, percebemos a curiosidade e a vontade das pessoas de ver uma sede do selo, uma loja para ter acesso a outras coisas”, conta ela.

E então a dupla se moveu para fazer a casa do selo Brasilis Grooves virar realidade. “A gente queria montar uma loja para os nossos discos, dar espaço para novos selos, criar uma seleta de álbuns legais para vender e fazer um movimento relacionado ao mundo dos vinis”, diz Rafa.

Eles investiram 35 mil reais no negócio, conseguidos via crédito bancário. Levou um tempo até encontrarem o espaço ideal para a nova etapa. Uns sete meses. Mas, depois de encontrada a casa, o casal visualizou a oportunidade de tornar o plano maior. “Vimos que o espaço era grande para vender só discos. Então, a gente implementou um bar, com cerveja (Heineken a 8 reais), kibe (vegetariano, a 10 reais), café, e começou a convidar DJs que tocam vinil, para fazer sessions e promover os produtos que a gente vende”, afirma Rafa.

Ela conta que os eventos que acontecem desde a abertura da casa geram uma parte importante na receita porque trazem público, movimentam o bar e impulsionam as vendas na loja de discos. Hoje, após quase dois anos de operação, o faturamento da loja e do bar são equilibrados. As vendas virtuais continuam, mas deixaram de ser o carro-chefe do negócio. No ano passado, eles faturaram 250 mil reais.

O contato mais próximo e constante com as pessoas criou um perfil de negócio que se constrói dia a dia pelo compartilhamento de ideias. E as inovações foram tomando forma à medida que Rafa e Niggas captavam as tendências que apareciam aqui e ali, nas opiniões e desejos do seu público. Ela fala a respeito:

“O contato com o público ajuda a casa a se alinhar. Você estuda seu público trocando ideia com as pessoas, sabendo mais delas, o que esperam do lugar. A gente está sempre aberto”

Dessa metodologia de escuta permanente nasceram projetos como o Beat Brasilis, focado em produção musical direcionada ao rap. Toda quarta-feira, a casa abre para um encontro de DJs, músicos, produtores e beatmakers. Consiste em usar samples de um disco à venda na loja e produzir novas faixas. No fim do dia, cada um toca o que acabou de criar, ali mesmo, horas antes.

O Beat Brasilis é organizado pela casa e atrai amantes do rap (foto: Felipe Larozza).

O Beat Brasilis é um encontro de DJs, músicos, produtores e beatmakers organizado pela casa para “formar público” (foto: Felipe Larozza).

Para Rafa, este evento não tem como foco o retorno financeiro, mas sim a formação de público. Os participantes cativos acabam se tornando grandes incentivadores do negócio. “Gera um conteúdo muito legal. A gente acabou criando uma cena de beatmakers, o pessoal estava espalhado por São Paulo e só se encontrava em ambiente de batalha. No Beat Brasilis é o oposto, o clima é de compartilhamento de informações”, conta ela.

O modelo fluido e não estático do negócio permite ainda a experimentação de novas atividades, “seguindo o flow”, como eles dizem: “As mudanças vão acontecendo e a casa como um todo vai seguindo. Se a gente cair na mesmice, não é novidade e não atrai. Existe muita oferta de eventos gratuitos, de movimentos de ocupação nas ruas, e o momento político e econômico não é dos mais favoráveis, por isso nos mantemos sempre atentos e ativos”.

O Beat Brasilis, por exemplo, acabou impulsionando a abertura do espaço para a realização de aulas e workshops de discotecagem e produção musical. Eles chegaram a desenvolver também cursos de DJ, MPC (aparelho que produz batidas sintéticas), SP404 (aparelho de sampler para tocar ao vivo) e FL Studio (aparelho sequenciador de música) que, no momento, estão suspensos. “Como o pessoal via as fotos do evento e ouvia os sons, começou a ter uma procura de quem queria participar mas não sabia produzir”, conta Rafa. Uma outra gravadora de discos, a Vinyl Lab, que produz discos quadrados em lo-fi, também acabou se ancorando na casa. Nessa troca, a Casa Brasilis se tornou o ponto de venda exclusivo da marca.

A inovação, para Rafa, vai além de uma necessidade do negócio, ao se configurar como um compromisso com o público que a casa criou. “É quase uma obrigação nossa, como empreendedores de um espaço cultural, buscar sempre estar se reinventando, buscando sempre algum tipo de novidade”, diz:

“A gente tem que se reinventar sempre, como pessoa e como empresa. Senão, acaba ficando para trás”

Além da música, coletivos femininos também começaram a abraçar a casa. “Alguns nasceram aqui. O Maternativa, que é um grupo de mães empreendedoras, fez seu primeiro encontro aqui, mas logo o espaço ficou pequeno para elas”, diz ela. Outro evento que se mantém até hoje na casa é o Mãetinê, uma discotecagem mensal, focada para mães e crianças de até três anos.

PLATAFORMA PARA NOVOS NEGÓCIOS PARCEIROS

Rafa fala das dificuldades do ambiente de negócios para quem está na economia criativa, e de como a Casa Brasilis acabou se transformando uma espécie de plataforma de lançamento de projetos afim: “Para quem tem um projeto artístico ou de criação de rede de pessoas, a maior dificuldade é começar. Aqui é um espaço para se dar os primeiros passos”.

Nessa linha, a casa também sede espaço para gravação de vídeos, lançamentos de bandas e festas. O projeto Rimas & Melodias, de um grupo e mulheres rappers, entre elas, a Tassia Reis, foi um dos que realizaram gravações no espaço e lançamento de músicas. “Somos bem abertos a esse tipo de parceria porque a gente acaba sempre se beneficiando, aparecendo no conteúdo para várias pessoas”, conta Rafa. É uma roda que se retroalimenta, gerando novos públicos e consolidando também o papel da própria Casa Brasilis. Hoje, ela considera que a vocação híbrida e fluida da casa está consolidada:

“Sempre me surpreendo com o que essa casa se tornou e espero que continue. Quando criamos o espaço, mentalizamos coisas legais, mas não tínhamos noção do que realmente poderia acontecer”

O próximo projeto, com previsão de estreia em agosto, quando a casa faz dois anos, é a prensagem de discos na hora, dentro da loja. “Qualquer pessoa que venha com a sua música num pendrive vai poder fazer seu disco e vê-lo ser prensado na hora. Vai dar um buxixo”, diz Rafa, enquanto as coisas seguem girando por ali.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Casa Brasilis
  • O que faz: Gravadora de vinis, loja, bar, escola de DJs e espaço para eventos
  • Sócio(s): Rafaella Gouveia e Bruno Borges
  • Funcionários: 2 (os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2014
  • Investimento inicial: R$ 35.000
  • Faturamento: R$ 250.000 (em 2015)
  • Contato: contato@casabrasilis.com.br
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