Chica Bolacha: ou como ganhar dinheiro fazendo roupa para qualquer corpo de mulher

- 21 de novembro de 2016
Thayná e a mãe, Rosângela, sociedade em família: há 16 anos elas criaram a Chica Bolacha.
Thayná e a mãe, Rosângela, sociedade em família: há 16 anos elas criaram a Chica Bolacha.

Toda mulher, gorda ou magra, deveria poder usar a roupa que quisesse. Partindo dessa premissa, a gaúcha de Porto Alegre, Thayná Cândido, 32, criou a Chica Bolacha, marca de moda feminina que não se define como plus size (termo usado para marcas que produzem tamanhos grandes), mas como all sizes (todos os tamanhos). A loja trabalha com sete modelagens, que vão do manequim P (38/40) ao 5G (58/60). “Todas as marcas deveriam se preocupar em vestir todos os tipos de mulheres”, diz Thayná.

Lá no começo dos anos 2000, quando a Chica Bolacha foi criada, Thayná pensava ter uma marca criativa e atemporal. Com ajuda da mãe, e também sócia, Rosângela, produzia peças alternativas e alegres. Até aí, o corpo das clientes não era uma questão. Mas a sacada de produzir tamanhos maiores partiu de uma percepção de Thayná, ao ver que sua marca estava deixando de atender uma parcela importante das consumidoras. Ela conta:

“A magra comprava minha roupa. A gorda não, porque não tinha o tamanho dela. Vi que era injusto uma mulher gorda não poder escolher o que vestir”

Quando mãe e filha decidiram empreender, poucas marcas que se preocupavam em produzir tamanhos maiores — a maioria não passava do 3G (54). “Quando criei o conceito, nenhuma marca tinha feito nada parecido. Existiam marcas com tamanhos um pouco maiores, mas até o 5G (58/60) ninguém fazia”, conta Thayná. Pergunto se Chica Bolacha ajudou a consolidar o plus size e Thayná nem titubeia em concordar: “Até hoje vejo marcas replicando nosso conceito. Acho ótimo, na verdade”.

A maneira despojada da Chica Bolacha falar com o público criou uma legião de fãs.

A maneira despojada da Chica Bolacha falar com o público criou uma legião de fãs.

 

Esta percepção foi definitiva para consolidar o novo conceito da Chica Bolacha: uma marca que não segue tendência, com uma identidade própria e que faz roupa para todo o tipo de mulher. A nova fase, iniciada há pouco mais de quatro anos, também coincidiu com a reabertura da loja física, que hoje fica no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Nessa fase, ela e a mãe investiram 200 mil reais, de recursos próprios, na empreitada.

COMO É EMPREENDER EM FAMÍLIA

Empreender é sempre um risco, mas repaginar um negócio de família pode ser uma boa maneira de começar. Rosângela, a sócia-mãe de Thayná, é estilista e trabalha com roupas femininas há mais de 20 anos. A família também já vinha de uma tradição no comércio. Rosângela fechou a marca de roupas femininas que tinha para acompanhar a filha na missão de produzir roupas mais jovens e alegres. Mesmo assim, no começo da Chica Bolacha, Thayná decidiu largar tudo e tentar a vida como jornalista de moda em São Paulo. Fechou a loja e se mudou para a capital paulista. Durou pouco. Seis meses depois, voltou a Porto Alegre e decidida a criar um novo conceito para refundar a sua marca.

Neste recomeço, a internet e as redes sociais foram fundamentais para propagar o conceito da loja. “Há uma comunidade que envolve a Chica Bolacha na internet”, conta Thayná. O boca a boca, ainda que virtual, também é importante. Thayná sabe que clientes satisfeitas são a melhor propaganda que se pode ter. Por isso, está sempre de olho sobre o que falam da marca online. “Já tivemos algumas crises, mas sempre consegui remediar”, diz.

A última aconteceu com a mais recente coleção, que tinha o circo como tema. Entre as estampas, gêmeas siamesas inspiradas nos circos de freak show antigos, deixou uma mãe de gêmeos siameses ofendida. Identificada a questão, Thayná tirou a estampa da coleção e pediu desculpas à cliente. “É super importante ter empatia e manter um bom relacionamento com os clientes, nas redes sociais ou fora delas”, afirma.

A CHICA E O MERCADO PLUS SIZE

A decisão de oferecer roupas com sete tamanhos diferentes, com modelos que vestem gordos e magros, sem diferenciar estampas e cores, fez a Chica se destacar no mercado de moda. “A sociedade tenta marginalizar o gordo, como se fosse o diferente, mas eles são 53% da população brasileira”, diz Thayná. “A moda plus size é maravilhosa, contempla a mulher gorda, mas de certa forma você está dizendo o que gordo deve usar algo diferente do que o magro”, completa.

Thayná reconhece que os eventos e marcas exclusivamente plus size cumprem o papel de dar representatividade àqueles que se sentem excluídos, mas acredita que a Chica já está um passo a frente:

“O futuro tem que ser: todas as marcas têm todos os tamanhos. Gordo gosta de moda, gordo consome moda, gordo tem dinheiro”

Para isso, ela admite que ainda é preciso romper a barreira do preconceito. Enquanto o mundo não muda, Thayná segue apostando no que acredita, sem se preocupar com o que a concorrência está fazendo. “Até hoje não olho muito para o mercado plus size, ou para quem é meu concorrente ou não. Nem sei quem são meus concorrentes”, diz. Ela se entusiasma, isso sim, ao contar como acredita que a Chica Bolacha afeta a vida de suas consumidoras: “A gente ajuda as pessoas na descoberta da identidade através da vestimenta. Tem muitas meninas que vem aqui e não sabem qual é seu estilo, porque vestem o que cabe, não o que gostam”.

Cabe todo mundo: o Guia de Medidas da marca tem sete tamanhos: do P (38/40) ao 5G (58/60).

Cabe todo mundo: o Guia de Medidas da marca tem sete tamanhos: do P ao 5G.

Empoderamento se tornou um dos mandamentos da marca. Nos provadores da loja física, frases motivacionais ajudam as clientes a sentirem mais à vontade.

“Já teve cliente que nunca tinha usado uma minissaia e saiu chorando de felicidade”, conta Thayná. “É importante que o gordo tenha a possibilidade de mostrar quem ele é através da moda.”

Todo esse trabalho de promover autoestima por meio da moda fez a fama da Chica Bolacha ultrapassar as fronteiras do Rio Grande do Sul. A loja comparece a feiras, eventos e faz bazares em outros cidades do Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro.

“Ouvi de várias pessoas que a gente não tem cliente, tem fã. Três clientes nossas têm o símbolo da marca tatuado”, conta a empreendedora.

Nos eventos, clientes fazem fila para conversar e tirar uma foto ao lado dela. Mas nem tudo são flores quando o assunto é produzir roupas que desafiam os padrões de beleza:

“Ainda tem gente que passa na frente da loja rindo das manequins gordas. Muitas pessoas magras têm vergonha de entrar porque fazemos roupas para gordo”

No fim, para Thayná, o mais importante é se manter dentro daquilo que ela acredita. “A Chica Bolacha me fez perceber quem eu sou e do que eu sou capaz e ter a oportunidade de fazer bem para alguém é sensacional”, diz.

O DESAFIO DA PRODUÇÃO NACIONAL

Do ponto de vista do negócio, manter sete modelagens não é uma tarefa fácil. Os moldes precisam vestir todos os tipos de cliente. “O corpo magro não tem tantas variações, mas uma pessoa que veste 5G (58/60) pode ter diversas variáveis que a gente tem que prever”, conta Thayná. Um mesmo vestido pode ganhar um elástico nas costas, um botão a mais ou um zíper mais resistente, tudo para deixar o caimento melhor e mais confortável para numerações maiores.

A logística de encaixar os tamanhos dentro da matéria-prima disponível é complicada. Muito tecido é desperdiçado na hora de fazer os moldes. Isso torna a produção um pouco mais cara, e a marca faz um balanço para aplicar o mesmo preço para todas as peças, independente do tamanho.

Outra preocupação são os modelos. Na Chica, a variação de tamanhos não é impeditivo na hora de criar. “Fiz uma saia de tule, de todos os tamanhos, e vendeu muito o tamanho 5G (que equivale ao 58/60). Ninguém faria isso, porque ninguém imaginaria uma pessoa gorda de saia de tule na rua, mas é ela que tem que decidir se vai usar ou não”, afirma.

A saia de tule, por 159 reais, vendeu além do esperado no tamanho 5G.

A saia de tule, por 159 reais, que vendeu bem além do esperado no tamanho 5G.

Toda produção da Chica Bolacha é feita no Rio Grande do Sul. Além disso, toda matéria-prima, desde o tecido até os botões, é nacional. “Não compro nada importado porque acho importante saber a origem dos produtos e a maneira como são feitos. Tenho uma preocupação muito grande com a questão de trabalho escravo”, conta Thayná.

Não importar produtos mais baratos também interfere no valor das peças, mas Thayná não abre mão de manter toda a cadeia produtiva funcionando de maneira correta. “Muitas pessoas reclamam do preço das roupas da Chica, mas a preocupação com a qualidade e origem da matéria-prima precisa ser levada em conta”, diz.

Os vestidos custam de 169 a 289 reais. As blusas partem de 65 reais (camisetas) a 169 (com aplicação). No ano passado, a marca faturou 1,5 milhão de reais em vendas.

Todas as coleções e estampas são criadas e desenhadas por Thayná, enquanto os modelos são desenvolvidos por sua mãe. “Sempre tento trabalhar com temas relacionados à cultura, mas a ideias surgem sem querer.” A marca também apoia o mercado local, vendendo peças de artistas gaúchos ou convidando ilustradores locais para participar de algumas coleções.

A preocupação com o que é politicamente correto (no sentido desejável do termo) também se entende aos funcionários. Ser gorda não está entre os requisitos para ser vendedora da Chica, mas no entender de Thayná ajuda na hora de criar empatia com as clientes. É bem comum que mulheres gordas procurem trabalho na loja por já gostarem e se identificarem com a marca.

Fachada da Chica Bolacha, em Porto Alegre, num dia de festa.

Fachada da Chica Bolacha, em Porto Alegre, num dia de festa.

Thayná diz ter também vontade dar oportunidade a transexuais, transgêneros, travestis e refugiados. Mais gente que fica à margem do mercado por puro preconceito. Até hoje a loja recebeu poucos candidatos assim, e Thayná não encontrou ninguém que se encaixasse no perfil, mas as vagas estão sempre abertas. “Eles fazem parte da nossa sociedade, mas não são reconhecidos. São pessoas qualificadas e precisam ser inseridas no mercado de trabalho”, diz.

Apesar do DNA gaúcho, o maior público da Chica Bolacha está em São Paulo. A cidade é uma das grandes responsáveis pelo sucesso de vendas na loja virtual, que é responsável por 90% do faturamento da marca. Por conta disso, em 2017, Thayná tem planos de levar uma loja da Chica para a capital paulista. O novo passo ainda é um plano, mas Thayná não tem receio de se arriscar na nova empreitada. “Até hoje tem gente que diz a marca que não vai dar certo, sendo que já deu”, diz. Vai ter Chica Bolacha e vai ter ainda mais. Vem que cabe.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Chica Bolacha
  • O que faz: Moda feminina do tamanho P ao 5G
  • Sócio(s): Thayná Cândido e Rosângela Cândido
  • Funcionários: 12 (incluindo as sócias)
  • Sede: Porto Alegre
  • Início das atividades: 2000
  • Investimento inicial: R$ 200.000
  • Faturamento: R$ 1,5 milhão em 2015
  • Contato: contato@lojachicabolacha.com.br
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