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Coleta automática de resíduos: a solução da Recicletool para favorecer a logística reversa

- 16 de novembro de 2017
A máquina da Recicletool é exibida no demoday do Braskem Labs Scale 2017, realizado em outubro, em São Paulo (foto: Thiago Dantas)
A máquina da Recicletool é exibida no demoday do Braskem Labs Scale 2017, realizado em outubro, em São Paulo (foto: Thiago Dantas)

 

Vending machines são aquelas máquinas trambolhudas de venda automatizada que engolem dinheiro em troca de refrigerantes, salgadinhos e chocolates, entre outros produtos. Em Pernambuco, porém, a Recicletool subverteu essa ordem, criando um equipamento que incentiva a reciclagem bonificando a coleta de resíduos: o usuário insere produtos ou materiais pós-consumo dentro do aparelho e recebe um crédito financeiro em troca. A startup foi uma das dez aceleradas pelo Braskem Labs Scale 2017.

“Quando o resíduo é depositado, a máquina identifica a embalagem com leitura ótica e informa na tela que você inseriu uma latinha de Coca-Cola, por exemplo”, diz Thiago Dantas, de 34 anos, sócio-fundador da Recicletool. “O equipamento verifica tanto o rótulo quanto o tipo de resíduo que está sendo depositado, se é plástico, alumínio, latão…”. O material e seu valor no mercado de reciclagem definem a quantia a ser creditada (cinco centavos, no caso de uma lata de alumínio).

A luzinha da ideia acendeu na cabeça de Thiago em 2009, quando ele deparou com um aparelho semelhante durante um mochilão pela Alemanha. Formado em História, mas empreendedor por natureza, ele dedicou-se nos anos seguintes à sua empresa de consultoria e captação de recursos para projetos culturais, que era seu ganha-pão principal, enquanto, em paralelo, trabalhava desenvolvendo o protótipo do que viria a ser a máquina de coleta automatizada de resíduos da Recicletool.

Em vigor desde 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos responsabiliza fabricantes, distribuidores, comerciantes e cidadãos pelo manejo e destinação do lixo; assinado em 2015, um acordo setorial previa a redução de 22% do envio de embalagens pós-consumo a aterros sanitários até o fim de 2017. Impulsionado pela lei, o horizonte estratégico das empresas começava a contemplar a recuperação dos resíduos e a sua reutilização nos ciclos produtivos: a chamada logística reversa.

Modelos de negócio

A Recicletool nasceu em 2014, inicialmente incubada no Instituto de Tecnologia de Pernambuco. Desde abril de 2017, quatro máquinas funcionam em duas estações do metrô de Recife, e mais duas entrarão em operação antes do fim do ano. Outras duas foram enviadas a Joinville e mais 14 serão instaladas até o fim do mês em estações rodoviárias de Brasília.

Existem dois modelos de equipamento. O modelo standard comporta até 30 quilos e recebe exclusivamente resíduos cilíndricos, como garrafas, latas de refrigerante, tubos de desodorante spray e frascos de detergente. O modelo plus tem capacidade para 40 quilos e aceita ainda embalagens quadradas, oblongas e com formatos irregulares. “Esse foi desenvolvido também para receber medicamentos fora de validade, para que as pessoas deixem de jogar no lixo comum”, diz Thiago.

Cada equipamento tem uma tela de 15.6 polegadas para a operação do usuário e outra maior (de 32 polegadas na standard e 48 polegadas na plus) para veiculação de anúncios, uma forma das empresas viabilizarem a logística reversa sem precisar criar um novo centro de custo. Clientes podem alugar o equipamento a R$ 3.920 por mês, com a possibilidade de programá-lo para receber apenas determinado tipo de resíduo, ou pagar só pela propaganda (R$ 0,16 por anúncio veiculado), no caso de máquinas instaladas em locais de grande fluxo escolhidos pela própria Recicletool.

Hoje, o modelo de negócio mais recorrente é o de custeio do valor das máquinas através da  propaganda. Em breve, o objetivo é começar a comercializar inteligência de mercado. “O nosso equipamento gera o cruzamento de dados entre o resíduo depositado com o perfil da pessoa que depositou. A partir daí, podemos extrair uma fotografia dos hábitos de consumo das pessoas”, diz Thiago. “Já estamos coletando dados desde o primeiro dia de funcionamento, mas a massa crítica para que esses dados tenham relevância para o mercado é de pelo menos dez mil usuários.”

A Recicletool pretende chegar a esse número mágico de 10 mil usuários até o fim de 2017; na primeira quinzena de novembro, a startup registrava 4.332 usuários. O cadastro pode ser iniciado no próprio equipamento, inserindo o número do celular, e finalizado pela internet ou pelo aplicativo, com a inclusão dos dados completos. “O app permite ver mais facilmente o extrato e visualizar a máquina mais próxima num raio de dois quilômetros”, diz Thiago. Os créditos vão sendo acumulados e, a partir de R$ 7, podem ser depositados na conta bancária do usuário. Até hoje, o valor mais alto pago a um único reciclador foi R$ 62,42, equivalente a três meses de uso.

Mentorias de primeira linha

A linha de montagem funciona num galpão de 365 m² no bairro do Prado, que serve ainda de escritório e estoque da empresa. A capacidade atual de produção é de dez máquinas por mês. A coleta das embalagens descartadas é operada pela própria equipe (uma tentativa de parceria com uma cooperativa de catadores não foi à frente); a venda dos materiais para empresas de remanufatura custeia o crédito dos usuários.

Em 2017, a startup ganhou impulso para alavancar seu negócio com a participação no Braskem Labs Scale. “A Braskem é a maior produtora de polímeros da América do Sul. E nós trabalhamos com a coleta de PET e de outros polímeros, como o polipropileno, presentes em embalagens. Isso já gera uma sinergia imediata entre o que a gente faz, o que a lei exige e o que a Braskem deseja implementar como política de valorização do plástico. Esse foi o nosso primeiro motivador”, diz Thiago.

Entre junho e outubro deste ano, o sócio da Recicletool pôde confirmar por conta própria o feedback positivo que ouvira de participantes anteriores: “O Braskem Labs é seguramente uma das melhores plataformas de aceleração do Brasil. Um programa com um conjunto de mentorias de primeira linha e muitas possibilidades para serem desenvolvidas e você sair dali com oportunidades de negócio.”

A startup está em negociações para levar seu equipamento de logística reversa a Porto Alegre e Rio de Janeiro. “O nosso objetivo agora é aumentar capilaridade, a quantidade de equipamentos no mercado, para que cada vez mais pessoas possam utilizá-los e para que possamos coletar mais dados e destinar mais resíduos à reciclagem.” A meta é chegar a 200 aparelhos em operação até dezembro de 2018.

Despertar a consciência ambiental de forma espontânea e em larga escala ainda é um desafio. Porém, por meio do empreendedorismo, da tecnologia e de boas ideias como a da Recicletool é possível engajar pessoas e empresas a olharem o lixo com mais inteligência, em prol de um planeta mais verde.

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