Com um mix de novas tecnologias e ativismo tradicional, o Minha Sampa quer revolucionar a política

- 2 de junho de 2016
Organização especializada em ativismo e novas tecnologias, o Minha Sampa traz para as ruas o ativismo de sofá e visa promover mudanças reais na cidade (foto: Alan Dubner).
Organização especializada em ativismo e novas tecnologias, o Minha Sampa traz para as ruas o ativismo de sofá e visa promover mudanças reais na cidade (foto: Alan Dubner).

Hoje, a timeline de muita gente está repleta de fotos e vídeos das manifestações ocorridas ontem em várias cidades do país. Em repúdio ao estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro, milhares de meninas e mulheres foram às ruas pedindo respeito, o fim da cultura do estupro e liberdade sobre seus corpos. Em São Paulo, mais de 15 mil pessoas se reuniram graças a um poder de mobilização que é sinal dos nossos tempos: acontece online e faz parte de uma rede ampla de interesses comuns. Uma dessas forças é o Mulheres Mobilizadas, site que surgiu com o apoio de uma organização muito maior: o Minha Sampa.

O Minha Sampa é um exemplo de como a tecnologia e a colaboração podem promover mudanças reais na cidade e na cultura política local. Apoiou a mobilização dos estudantes secundaristas contra o fechamento das escolas e pela CPI da Merenda, e começou a atuar na capital paulista com a campanha pela abertura da Avenida Paulista aos domingos para o lazer. Autodefinido como uma rede de mobilização apartidária, a organização tem como objetivo pressionar — com um mix de novas tecnologias e articulação de bastidores — o poder público para que ouça seus cidadãos.

A campanha pela abertura da Paulista marca a estreia deles na cidade e começou no meio de 2014. Em outubro de 2015, após mais de 2 000 e-mail enviados, diversas audiências públicas e consultas a outros órgãos, a Prefeitura decidiu favoravelmente ao projeto. Anna Lívia Arida, 32, é diretora executiva do Minha Sampa e lidera uma pequena equipe de mobilizadores e comunicadores que acompanham as decisões que estão sendo tomadas pelo executivo e legislativo municipais e estaduais. Advogada de formação e ativista de coração, como se define, Anna Lívia se formou em Direito pela PUC-SP e especializou-se em Direito Econômico na FGV, mas encontrou na defesa dos Direitos Humanos sua paixão. A Minha Sampa, em atividade desde 2014, faz parte da Rede Nossas Cidades, criada três anos antes. Anna Lívia estava lá desde o início.

COMO TUDO COMEÇOU

A história começa em 2011, com Alessandra Orofino e Miguel Lago, fundadores do Meu Rio e, atualmente, diretores da Rede Nossas Cidades. Na época, os dois jovens cariocas olhavam para as mudanças que aguardavam a cidade do Rio de Janeiro com certa apreensão: às vésperas de receber a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas dois anos depois, sabia-se que muitos investimentos seriam feitos e que eles iriam mudar a cara da cidade. Anna conta que a grande questão era descobrir como influenciar o processo para que as mudanças no Rio refletissem os desejos dos cidadãos cariocas.

Equipe do Minha Sampa: seis integrantes e mais de 65 mil cadastrados para incentivar as campanhas.

Equipe do Minha Sampa: Anna Lívia entre Lucas Neumann, Emygdio Carvalho, Guilherme Coelho, Leonardo Milano e Gut Simon.

Buscando respostas, o Meu Rio surgiu como um laboratório de interfaces de participação. Desde o início, o uso de novas tecnologias esteve presente, tanto que a equipe começou a desenvolver e testar uma série de aplicativos que tinham como objetivo facilitar esse processo de influência do cidadão sobre as decisões políticas da cidade.

Embora o desenvolvimento da tecnologia fosse uma pilar importante nesta busca por participação, havia ainda a questão de como envolver a sociedade neste debate. “O que a gente sabia desde o começo era que era preciso chamar as pessoas para participar. Por conta disso, um segundo eixo que sempre esteve presente foi o das campanhas de mobilização”, conta Anna Lívia.

Desde o começo, a equipe do Meu Rio acompanha muito de perto o que acontece na cidade, não só por meio dos veículos de imprensa tradicionais, mas também pela mídia alternativa e diretamente na Câmara dos Vereadores. “Dessa forma, sempre que encontrávamos oportunidades para que as pessoas participassem de uma decisão importante, criávamos uma campanha de mobilização e convidávamos as pessoas a se engajarem com a gente”, diz.

Ao mesmo tempo que trabalhavam no desenvolvimento e teste de alguns aplicativos, a equipe de Meu Rio ia tocando campanhas de mobilização, ativadas principalmente pelas redes sociais. Foi através delas que a organização foi ganhando o apoio das pessoas.

O DIFERENCIAL: USAR A TECNOLOGIA PARA A MOBILIZAÇÃO

A Rede Nossas Cidades nasce com a vocação de aliar tecnologia, participação popular e políticas públicas. A ideia, no entanto, é incentivar o uso desses métodos para muito além do Meu Rio e do Minha Sampa. As ferramentas são abertas para que qualquer pessoa crie sua própria campanha. São elas:

De Guarda
Promove vigílias eletrônicas para monitorar atividades governamentais no espaço público da cidade (disponível apenas no Rio de Janeiro por enquanto). Os interessados em determinadas causas recebem alertas por SMS e, assim, podem se mobilizar no momento ideal.

Legislando
É um aplicativo que possibilita a participação direta do cidadão na produção legislativa das Câmaras de Vereadores e Assembléias Legislativas. Ele permite que qualquer pessoa crie, edite ou assine um Projeto de Lei, fazendo do cidadão o próprio legislador de sua cidade. A ideia é que, após a criação do Projeto de Lei, ele seja adotado por um vereador.

Panela de Pressão
Este é o aplicativo mais utilizado. Trata-se de uma ferramenta que permite o contato direto do cidadão com governantes, gestores públicos, parlamentares, concessionárias de serviços públicos, políticos em geral e outros tomadores de decisão da cidade. Sem intermediários: todos pressionam os tomadores de decisão da cidade por e-mail, Facebook, Twitter e até por telefone.

O Panela funciona da seguinte forma: qualquer interessado preenche um formulário dizendo que problema identificou na cidade, que solução gostaria de propor, quem é a pessoa que deve ser pressionada para que a situação se reverta e como deverá ser feita a pressão (e-mail, Facebook, Twitter ou telefone). As informações de contato do alvo da campanha e os contatos já estão lá. A campanha vai ao ar imediatamente após ser criada e, a partir daí, basta convidar os amigos para somar forças.

Se a forma escolhida for o e-mail, quem participa da mobilização só precisa colocar seu nome e e-mail que a ferramenta já enviará um e-mail de sua caixa de entrada diretamente para a do alvo da campanha. “A gente não quis se colocar como intermediário desse processo. Então, quando o prefeito, por exemplo, recebe o e-mail da mobilização, ele chega com o nome da pessoa que enviou”, conta Anna Lívia.

Depois que uma campanha é criada, a equipe do Minha Sampa recebe uma notificação e analisa se ela está de acordo com os termos de uso, que são: ter foco municipal, respeitar os direitos humanos, não incitar a violência, e não ter cunho político-partidário.

PARA ALÉM DO ATIVISMO DE SOFÁ

Uma das críticas que o Minha Sampa recebe é a de que só fazem pressão online, sem botar a mão na massa. Anna Lívia discorda: “Uma das consequências da pressão online é abrir o diálogo com os interessados, principalmente entre o poder público e setores da sociedade que historicamente foram excluídos do debate”.

Ela menciona o que diz ser uma assimetria de poder na sociedade, pois enquanto alguns grupos, pela relação que têm com o Estado e por seu poder econômico, têm acesso direto aos tomadores de decisão, outros não têm e veem suas vontades ignoradas. “Nada mais justo que o político que vai tomar uma decisão que impactará muita gente ouça e dialogue com todos os interessados”, diz.

Embora a pressão online seja importante, há também um intenso trabalho offline, nos bastidores e nas ruas. Para isso, o Minha Sampa trabalha com a divulgação da causa com jornalistas e organizações parceiras, promove eventos de rua, participa de audiências públicas e assembleias:

“Nem todas as campanhas funcionam só com pressão pela internet. Muitas vezes a gente faz um trabalho de bastidores: falamos com vereador, deputado, secretário, subprefeito…”

COMO O MODELO SE EXPANDIU

Após dois anos e meio de operação do Meu Rio, o grupo sentiu que já havia um modelo maduro para começar a expansão para outras cidades, um desejo antigo. “Uma das coisas mais caras e desafiadoras que uma organização pode ter é a tecnologia. E a que a gente já havia desenvolvido para o Rio servia para São Paulo, e para qualquer outra cidade. Por que não levar esse conhecimento para os outros lugares?”, diz Anna Lívia.

A escolha de São Paulo como primeira cidade para expandir a Rede Nossas Cidades foi natural. Alguns dos investidores que apoiavam o Meu Rio estavam interessados em estender o apoio à Minha Sampa, e ter Anna Lívia na liderança da empreitada também foi um decisivo, visto que ela era “a paulista” no conselho do Meu Rio e conhecia a operação por dentro.

Como dito acima, o lançamento oficial do Minha Sampa ocorreu em julho de 2014, com a mobilização pela Paulista Aberta. Pouco antes disso, o Meu Rio ganhara o prêmio do Desafio de Impacto Social do Google. “O que inscrevemos foi justamente levar a nossa metodologia e conhecimento de mobilização para 20 cidades em cinco anos”, conta Anna Lívia. Com o prêmio (no valor de 1 milhão de reais) o plano pode ser colocado em prática. Hoje, a Rede Nossas Cidades está em sete cidades, além de São Paulo e Rio: Porto Alegre, Recife, Curitiba, Campinas (SP), Ouro Preto (MG), Garopaba (SC) e Blumenau (SC).

Meu Rio e Minha Sampa fazem parte da Rede Nossas Cidades. As outras cidades também integram a Rede, mas funcionam em um modelo diferente, compartilhando expertise mas com autonomia e independência total nas suas campanhas. Para tanto, a equipe da Rede procurou nelas pessoas com perfil de empreendedores e ativistas para encabeçar o movimento. Elas foram treinadas, receberam a metodologia desenvolvida pela Rede e usam as mesmas ferramentas que são disponibilizadas para o Meu Rio e a Minha Sampa, mas não são subordinadas à Rede.

“As organizações têm independência de atuação, mas a gente se ajuda e troca experiências. Mobilizar pessoas em São Paulo não é o mesmo que mobilizar no Recife ou em Garopaba. A relação com o poder público também é diferente, então, temos muito potencial para aprender juntos”, diz Anna Lívia. Atualmente, a equipe se divide em três times: o Minha Sampa, o Meu Rio e o Rede Nossas Cidades.

A SUSTENTAÇÃO FINANCEIRA É COLETIVA

Para tirar do papel o plano de construir uma organização que ajudasse a aumentar a participação popular nas decisões políticas de suas cidades, os fundadores fizeram uma rodada de captação de investimentos com pessoas físicas, como Anna Lívia conta: “Não foi um investimento muito grande, mas pedimos para que essas pessoas se comprometessem com a gente por três anos para que a organização já nascesse com algum fôlego”.

Nos primeiros dois anos, acreditando no potencial do projeto, a consultoria americana Purpose, onde a fundador Alessandra Orofino trabalhava, decidiu incubar o Meu Rio. “A Purpose emprestou pessoas que ajudaram a fazer todo estudo de viabilidade. Eles, inclusive, trouxeram para o Brasil uma equipe que trabalhava com mobilização lá fora para estruturar o Meu Rio”, conta Anna Lívia.

Hoje, a renda da Minha Sampa vem de doações de institutos, fundações e também de pessoas físicas. Nenhuma das organizações que compõem a Rede Nossas Cidades aceita recursos de governos, partidos políticos ou concessionárias de serviços públicos. No site há uma planilha aberta apontando os custos da equipe e, no futuro, o objetivo é ter 100% da operação financiada por doações de pessoas físicas, com contribuições mensais. “Isso seria um reconhecimento muito legal”, diz Anna Lívia.

O QUE FAZ UMA CAMPANHA DAR CERTO

As campanhas de mobilização tocadas pelo Minha Sampa podem surgir de duas formas: via acompanhamento do que está acontecendo na cidade e merece atenção e por meio das campanhas que criadas lá no Panela de Pressão. “Ficamos sempre com o radar ligado para pescar o que está acontecendo na vida da cidade. Usamos muito o aplicativo. Quando somos notificados das campanhas que estão sendo criadas, já ficamos atentos e vamos atrás daquele tema, para entender o que está acontecendo”, conta a diretora.

O Minha Sampa atuou junto aos estudantes secundaristas para forçar a abertura da CPI da Merenda.

O Minha Sampa atuou junto aos estudantes secundaristas para forçar a abertura da CPI da Merenda.

Três critérios ajudam o Minha Sampa a determinar se uma mobilização tem potencial de sair do online e ir para as ruas: se há um potencial grande de impacto positivo na cidade, se é urgente e se o Minha Sampa tem como ajudar. O passo seguinte é conversar com o criador da campanha para pensar uma estratégia. Por exemplo, se é um problema na área de educação, eles separaram entre os apoiadores aqueles que já apoiaram mobilizações na mesma área. O Minha Sampa também ajuda no contato com jornalistas e políticos que possam levar o tema até os tomadores de decisão.

COMO FOI APOIAR A OCUPAÇÃO DAS ESCOLAS PAULISTAS

Desde o ano passado, o Minha Sampa está mobilizado junto aos estudantes secundaristas de São Paulo. Primeiro, contra a reorganização escolar proposta pelo governo estadual, em novembro de 2015. O plano incluía fechar 93 escolas e deslocar mais de 311 mil alunos. Os estudantes não gostaram de não ter sido ouvidos a respeito das mudanças e, em resposta, ocuparam mais de 200 escolas da rede estadual.

O governo Alckmin respondeu de forma truculenta aos protestos nas ruas dos estudantes, repetindo um conhecido padrão de repressão e violência desproporcional. Para evitar que os jovens fossem tirados à força das escolas pela Política Militar, o Minha Sampa se uniu ao movimento e convocou seus apoiadores a ficarem “De Guarda Pelas Escolas” — pela internet, mais de 4 000 pessoas se inscreveram para receber alertas sobre tentativas forçadas de desocupação, abusos e ameaças. A cada denúncia, a Minha Sampa enviava via SMS um chamado aos guardiões cadastrados, que imediatamente corriam até as escolas mais próximas de suas casas para solicitar ajuda.

Numa campanha vitoriosa de pressão e mobilização, a reorganização escolar foi suspensa pelo governo e a vitória, celebrada com a Virada Ocupação, um evento organizado pelo Minha Sampa e que consistiu em dois dias de shows de música e artes dentro de 10 escolas com centenas de voluntários: artistas, produtores, fotógrafos, jornalistas, ativistas e técnicos mobilizados para construir o evento de forma colaborativa, descentralizada e inédita. Artistas como Chico Buarque, Paulo Miklos, Arnaldo Antunes e Zélia Dunkan se uniram para cantar a música composta por Dani Black para homenagear a luta dos estudantes (veja neste vídeo).

Apesar da vitória no final do ano passado, os estudantes seguiram mobilizados este ano, pressionando por mudanças concretas dentro das escolas. Uma das principais demandas é a investigação do escândalo no fornecimento de alimentos para a merenda escolar no estado de São Paulo. Investigações do Ministério Público e da Política Civil revelaram que os contratos foram superfaturados e o envolvimento de membros do governo estadual e de deputados federais no esquema. Faltava que uma CPI na Assembleia Legislativa (Alesp) e novamente os estudantes entraram em cena: fizeram protestos, ocuparam escolas e ocuparam também a própria a Alesp, no fim de abril.

Mais uma vez, a Minha Sampa aderiu ao movimento e ajudou na mobilização criando um hotsite semelhante ao Mulhere Mobilizadas, mas pela CPI da Merenda. Dessa vez, a estratégia foi pressionar vários deputados via facebook e e-mail, pedindo que assinassem pela CPI. Como a pressão online não foi suficiente para conseguir todas as assinaturas, a equipe partiu para a Alesp com amostras das merendas que os estudantes das escolas técnicas estaduais recebem (bolachas, barra de cereal e achocolatado de caixinha) para entregar aos deputados. No mesmo dia, a CPI foi criada. Anna conta que esse tipo de ativismo a faz feliz por ser ativismo mão na massa:

“Dá um super trabalho, é frustrante às vezes, mas quando a gente consegue é muito realizador ver a mudança na vida das pessoas”

No seu entender, as mudanças nunca são fáceis, mas acabam resultando em resultados concretos na cidade. Nessa Sampa que é de todos.

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