Como a Atina luta para se manter oferecendo ao mercado uma metodologia de ensino para escolas

- 2 de janeiro de 2017
O fundador Vinicius, Julia (em pé), Patrícia e Felipe: parte do time Atina.
O fundador Vinicius, Julia (em pé), Patrícia e Felipe: parte do time Atina.

Uma educação que faça sentido e “fale” de verdade com o aluno: este é o propósito que leva a Atina a desenvolver recursos pedagógicos, metodologia e treinamento para professores da rede pública. O cerne do negócio é dar ferramentas para que o aluno saiba contextualizar cultural, cognitiva e cientificamente o que está aprendendo (que “aprenda a aprender”, como diz o site). Seu principal produto é um atlas que integra ao registro de satélite a história social e ambiental das cidades, assim que passam a ser muito mais de um mero pontinho preto no mapa.

Mas para entender o que é a Atina é preciso voltar ao seu início. Quem conta essa história é o fundador e CEO, Vinicius Saraceni, 39. Para ele, o ponto de partida dessa história acontece em 1999, quando a tecnologia tornou um pouco mais acessíveis as imagens de satélite. Encantado com as possibilidades daquela nova fronteira, Vinicius pegou seu FGTS, vendeu um carro e sua linha de celular (lembre, estamos em 1999): reuniu cerca de 35 mil reais e, com isso, comprou imagens de satélite. Nascia assim uma startup de nome inspirado: Vistadivina.

Workshop com professores: a metodologia é ensinada na prática.

Workshop: os educadores passam por 60 horas de formação na metodologia Atina, que é multidisciplinar.

“Naquela época, imagens de satélite eram algo muito caro e restrito”, conta. O objetivo de Vinicius era produzir e vender para os municípios mapas mais detalhados, diferentes daqueles tradicionais – ou seja, mapas que apresentassem o contexto local para os alunos, com foco no segundo segmento do ensino fundamental (6º ao 9º ano).

“Os municípios que não são polos regionais não cabem nos mapas em um atlas tradicional. E qual é a primeira coisa que uma pessoa faz quando abre um mapa? Procura a sua cidade. Se essa pessoa é um aluno de Uauá, na Bahia; ele não vai existir. Se sentirá literalmente fora do mapa, excluído do ciclo educacional”, afirma.

Logo chegou ao negócio Felipe Seibel, 40, jornalista e amigo de infância de Vinicius. Com experiência em reportagens de infraestrutura e agronegócio, o agora sócio percebeu que os mapas de Vinicuis também poderiam interessar às empresas. Assim se abriu mais uma oportunidade de receita e a Vistadivina passou a atuar nessas duas frentes: mapas setoriais (para empresas) e mapas municipais (para educação pública municipal).

HORA DE DAR FOCO AO NEGÓCIO

Começaram, então, a chegar convites de outras redes de ensino e Vinicius percebeu que teria de escolher apenas um foco. Optou pela educação. A empresa chegou a se chamar Geodinâmica (que está na razão social até hoje) em 2009, antes do atual Atina, que marca a fase atual, em 2015.

Com motivação renovada, os sócios criaram o que chamaram de Atlas Ambiental da cidade de Bebedouro, no interior de São Paulo, voltado às escolas da rede pública. Este trabalho é considerado o piloto da Atina, e teve apoio da Fundação Espaço Eco, da Basf, e com a assessoria de professores experientes nos parâmetros curriculares nacionais. Vinicius fala desse gargalo:

“Além dos mapas, precisávamos criar uma estratégia de aula que engajasse os alunos, com sequências didáticas, pois é na prática que se aprende a ler mapas”

Além das imagens de satélite (que incluem os bairros da cidade, a mata e os rios da região), o atlas da Atina traz infográficos, indicadores sociais e econômicos.

QUANDO UM GRANDE PROJETO MUDA TUDO

Em 2012, veio o convite para criar um atlas para o estado da Bahia. Até então, a Atina fazia mapas municipais e foi um desafio reproduzir esse nível de detalhamento para os 417 municípios da rede estadual baiana. A solução foi incluir no atlas todo o conteúdo local, com informações específicas do estado da Bahia – geografia, indicadores sociais e econômicos, cultura, patrimônio histórico, potencial energético, personagens da história etc. – e gerar mapas individuais das 417 cidades, que foram salvos em um pen drive e entregues aos professores.

Trecho do atlas da Bahia: a Atina coloca informações sociais e ambientais sobre as imagens de satélite.

Trecho do atlas da Bahia: a Atina sobrepõe informações sociais e ambientais às imagens de satélite.

O atlas chegou a 750 escolas, 500 mil alunos e mais de mil professores. O trabalho foi um divisor de águas na empresa: levou quatro meses para ficar pronto e contou com uma equipe extra de repórteres, editores e infografistas, que rastrearam a região por meio das imagens de satélite para depois validar esses dados e buscar mais informações com professores e outros especialistas.

“Nosso atlas não substitui o livro didático. Ele é um disparador de perguntas para engajar e despertar a curiosidade do aluno”, afirma Vinicius.

A Atina tem um time só para a gestão de projetos. Na equipe fixa estão Patrícia Fumagalli, diretora de comercial e marketing (e agora também sócia); Julia Pinheiro Andrade, diretora pedagógica, e Diana Gonçalves, coordenadora de projetos.

Todos ali “sambaram” para entregar o grande mapa, mas o resultado foi positivo. “Professores de outras disciplinas começaram a pedir o material para a secretaria, escolas privadas de Salvador quiseram usar também. Isso tudo foi muito relevante para a gente”, conta Vinicius. O projeto foi disseminado como parte do programa Ciência na Escola, da secretaria de educação da Bahia, que culmina na feira de ciências, a Feciba, em que os alunos expõem seus projetos. Ele fala a respeito:

“Estamos envolvidos em todo o processo, mas somos o ‘software’. O projeto é da rede de educadores”

Os educadores também passam por um processo de mais de 60 horas de formação, conduzido pelos formadores da Atina. Ao final, começa a etapa de reconhecimento dos professores; como parte do curso de formação, eles realizam trabalhos de conclusão em que criam suas próprias sequências didáticas, ou seja, novas receitas de bolo. A Atina seleciona as melhores experiências, faz um mapeamento e inclui em cadernos em que os professores saem como autores.

HORA DE PEDIR AJUDA PARA CONTINUAR

A Atina faturou uma média de 4 milhões de reais ao ano, nos últimos quatro períodos. Com o projeto na Bahia bem sucedido, a expectativa era expandir e vender projetos similares para todo o país. Ilusão total. “Descobrimos na prática como é a gestão do orçamento público no que diz respeito aos repasses para estados e municípios. É como um sistema hidráulico: se o registro fecha, não sai mais água. Foi o que aconteceu durante a crise de 2015, a água secou de uma hora para a outra”, diz Vinicius. Ele prossegue:

“Estávamos muito dependentes da estratégia de vender para governos. Foi como se tivéssemos um cliente só. Este foi o nosso maior erro”

A saída, ele conta, foi definir uma nova estratégia comercial. Para tanto, eles sentiram que era hora de pedir ajuda extena. Há dois anos a Atina tem contado com a mentoria do fundo Astella Investimentos. “Estamos em contato com fundações e empresas que apoiam causas como direitos humanos, meio ambiente e empreendedorismo . Temos falado com dezenas de institutos, que estão se mobilizando e colocando nossa proposta em seus orçamentos. Acreditamos que 2017 será bem melhor”, diz Vinicius.

Escalar o produto é outro desafio que os mentores da Astella estão ajudando a equacionar. O desejo é chegar a um formato de mapa educativo que possa ser vendido como um serviço de assinatura, pago por mês, em vez de ser um projeto de venda única. “A recorrência é um desafio na educação. Não falo só da gente, mas da educação em geral. Mas, vamos com fé”, diz Vinicius. E que não falhe.

DRAFT CARD

  • Projeto: Atina Educação
  • O que faz: Projetos educacionais e metodologias de ensino para redes de ensino
  • Sócio(s): Vinicius Saraceni, Felipe Seibel e Patrícia Fumagalli
  • Funcionários: 11 (incluindo os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: R$ 35.000
  • Faturamento: NI
  • Contato: vinicius@atinaedu.com.br
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