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Como a crise da Odebrecht e a Lava Jato mudaram a minha vida. Para melhor

- 28 de abril de 2017
Camila é arquiteta de formação, bailarina de coração, mas trabalhava na Odebrecht. Até ser "libertada" pela Lava Jato. Ela conta.
Camila é arquiteta de formação, bailarina de coração, mas trabalhava na Odebrecht. Até ser "libertada" pela Lava Jato. Ela conta.

 

por Camila Rapuano Linhares

Nunca tive dúvidas de que nasci para a dança, mas a pressão familiar para que eu tivesse um diploma me levou ao bacharelado em Arquitetura e Urbanismo.

Após anos afastada da carreira de bailarina, achava que minha chance tinha passado e que teria que conviver com essa frustração para o resto da vida. No entanto, uma crise que atingiu a empresa na qual trabalhava me deu a chance de finalmente investir na minha verdadeira vocação.

Essa não era uma crise qualquer: era a Lava Jato

Quase diariamente vemos os desdobramentos da operação nos noticiários, mas eu não imaginava que ela seria a razão pela qual voltaria para a atividade que sempre foi a minha paixão.

Eu trabalhava como gerente de incorporação na Odebrecht. Estava com uma carreira promissora e era uma funcionária competente para a corporação, dessas que trabalham 12h por dia. Tudo caminhava bem no aspecto profissional, até o momento em que a crise bateu às portas da empresa.

Na semana em que voltei da licença maternidade, Marcelo Odebrecht foi preso. A partir daí, minha vida também mudaria completamente

Todos os meus projetos de crescimento lá dentro foram por água abaixo. Houve corte de pessoal e, três meses depois, entrei na lista e fui demitida.

Confesso que fiquei perdida. Trabalhava no ramo das incorporações imobiliárias desde que me formei, mas devo admitir que, com o nascimento de minha filha, algo mudou dentro de mim.

Sentia que não poderia deixar minha filha em casa e trabalhar 12 horas ou mais todos os dias — em algo que não amava. Minha paixão era a dança, não a incorporação imobiliária. Chegou o momento em que não conseguia mais segurar este sonho e decidi voltar a atuar na área de alguma forma.

Onde eu tinha sido bailarina antes daquilo tudo? Muito jovem, aos 15 anos, formei pela Royal Academy of Dancing no nível Advanced. Me tornei bailarina profissional pouco tempo depois, na companhia de dança Cisne Negro. Trabalhei lá por três anos, mesmo sem nunca ter conseguido realmente aproveitar minha profissão de artista.

Meus familiares não viam a dança como profissão e eu sempre me sentia pressionada a seguir uma carreira considerada mais “sólida”.

Minha dedicação à dança era vista como um hobby, como uma brincadeira. E isso era devastador para mim

Parecia errado querer ser bailarina profissional. Eu até poderia ter insistido na carreira, mas, com 15 anos, como poderia ter certeza de algo? Em 2000, aos 23 anos, finalmente abandonei os palcos para cursar faculdade. Sofri muito. Tive que deixar de assistir a espetáculos de dança por um bom tempo, porque sempre acabava me emocionando por estar afastada deste mundo. Tive uma depressão que tratei por 10 anos. Achava que era porque me sentia perdida profissionalmente, e hoje vejo que a depressão veio porque algo muito sagrado foi tirado de mim, que era a dança.

A demissão foi, no final das contas, um presente. Foi o único jeito de eu ter coragem de repensar minha vida, sair da zona de conforto e abraçar a oportunidade de voltar a trabalhar com o que sempre amei.

Como eu estava há 16 anos longe dos palcos e do mundo artístico, precisava de uma orientação. Estava perdida e não sabia por onde começar. Foi quando busquei um coaching profissional para descobrir novos caminhos e me ajudar nesse trajeto.

Neste processo de redescoberta, encontrei uma amiga: Alessandra Herszkowicz. Ela também tinha sido bailarina, mas, ao contrário de mim, teve a oportunidade de seguir carreira por mais tempo. Durante um intercâmbio cultural para os EUA, Alessandra descobriu a formação profissional em dança, que já existia por lá há anos, mas que ainda era pouco explorada no Brasil. No auge de sua carreira, ela se machucou e foi obrigada a parar por um tempo e repensar a vida profissional, assim como eu estava fazendo.

Neste momento, começou a pensar em trazer para o Brasil um projeto de formação profissional mais abrangente para bailarinos, que entendesse este profissional como um artista e também como um atleta. Foi então que, em 2015, o destino a colocou no meu caminho. Numa conversa despretensiosa em um café, percebemos que tínhamos a mesma visão sobre a dança — e que estávamos dispostas a empreender para tornar isso real. A união das nossas vontades fez nascer o Centro de Dança Bàllo, que inauguramos agora em março, em São Paulo.

Ali, a Formação Profissional é o nosso projeto do coração. Tem como objetivo apresentar a dança como uma carreira profissional possível, assim como foi apresentada um dia à Alessandra e que tanto faltou a mim aqui no Brasil. Queremos que o aluno seja tratado como um atleta profissional. Por isso a grade inclui aulas de preparação física, além de acompanhamento psicológico e nutricional.

Não é um projeto pequeno, e talvez seja até um pouco utópico, mas é exatamente nisso que acreditamos. Queremos mostrar aos pais de nossos alunos que a dança pode trazer muito conhecimento e diversas possibilidades de carreiras. Tocamos nosso projeto mesmo com a recessão econômica. Usamos capital próprio, um dinheiro que as duas tinham guardado por anos, e investimos um ano e meio na Bàllo. Aprendemos que, com a crise, a mão de obra, a locação do espaço e as formas de pagamento ficam mais acessíveis. Se pararmos para pensar, a situação é a mesma para todos.

Momentos de crise podem parecer os piores para se começar um negócio, mas isso pode não ser a única verdade. A sacada é saber aproveitar as oportunidades

É também acreditar no seu diferencial em relação ao mercado e, principalmente, fazer o que se ama. Foi o que fizemos: sabíamos que enxergávamos a dança de uma forma diferente e, por isso, apostamos.

Mergulhamos nisso porque queremos que a dança seja valorizada em todos os âmbitos e estamos fazendo tudo com muita humildade e amor à arte. Isso mostra que mesmo nos piores momentos, quando tudo parece não fazer mais sentido, a saída pode ser apostar naquilo que é sua vocação e estar aberto às mudanças e transformações que a vida propõe. E deixar, lá bem longe no passado, a carreira que não te fazia feliz.

Muito obrigada, Lava Jato.

 

Camila Rapuano Linhares, 40, é arquiteta de formação, bailarina de coração e empreendedora na área da dança. É cofundadora da Bàllo Centro de Dança

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