Como o Instituto Procomum viu o potencial de Santos para criar um circuito de inovação cidadã

- 13 de março de 2017
Co-fundada por Rodrigo Savazoni, a ONG lança projetos de transformação social que nascem na Baixada Santista, mas podem ir muito além.
Co-fundada por Rodrigo Savazoni, a ONG lança projetos de transformação social que nascem na Baixada Santista, mas podem ir muito além.

Quando se mudou com a família para Santos, em 2011, o jornalista, produtor e pesquisador Rodrigo Savazoni, 36 anos, queria uma vida mais tranquila, perto do mar e com propósito. Em São Paulo, ele havia sido um dos responsáveis pela criação da Casa de Cultura Digital, núcleo de tecnologia, cultura, cidadania e inovação responsável por uma série de projetos entre 2008 e 2012. Hoje morador da Baixada Santista, Rodrigo está à frente do Instituto Procomum, uma ONG que atua com projetos para promover o compartilhamento e a inovação por meio de projetos locais.

O IP, como é chamado, tem seis funcionários e três diretores: o próprio Savazoni, Georgia Haddad Nicolau (ex-diretora de Economia Criativa do Ministério da Cultura), 31 anos, e a comunicadora Marília Guarita. O time completo ainda tem o jornalista Victor Marinho, a produtora cultural Marina Pereira e o desenvolvedor Fabiano Cidade. Segundo Rodrigo, o modelo de funcionamento ainda não está 100% definido, mas isso não é um problema:

“O Instituto não tem uma organização rígida e por enquanto está em busca de modelos de atuação, gestão e financiamento”

O fato de não ter encontrado um processo definitivo faz parte da organização ser “um laboratório de si mesma”, de acordo com o co-fundador.

O Procomum também é, por definição, internacional. A ideia é que os projetos possam ser desenvolvidos em qualquer lugar do país ou do mundo. O primeiro deles, no entanto, foi na própria Baixada Santista: o LABxS, que reuniu projetos e iniciativas locais com foco em transformar a realidade de uma região.

UM PROJETO FOI O FIO CONDUTOR PARA A CRIAÇÃO DO INSTITUTO

No ano em que encerraram as atividades da Casa de Cultura Digital, os fundadores começaram a se dispersar e foram para outros projetos e cidades. Rodrigo, que é mestre e doutorando em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC, se viu questionando a dureza de viver na metrópole e a própria capacidade de trabalhar pela transformação do lugar em que vivia. “As cidades grandes chegaram a um ponto de colapso, porque ela deixa de ser um lugar de encontro”, ele diz.

A primeira ideia, ainda em 2012, foi criar uma Casa de Cultura Digital de Santos. Mas não deu certo. Em 2014, Savazoni procurou a Fundação Ford buscando financiamento para pesquisar o que havia sobrado da agenda de cultura digital no Brasil – uma área que já havia sido considerada prioritária pelo Ministério da Cultura nos anos Lula, mas que foi deixada de lado durante os anos de Dilma Rousseff na presidência.

Depois da tentativa frustrada, Rodrigo começou a pesquisar alternativas para a reorganização da sociedade civil. Ele conta que queria entender “como aquela internet promissora de abertura, redes e compartilhamento havia se transformado na rede de vigilância e perseguição de Edward Snowden”. E como ficava a atuação da sociedade civil neste contexto – especialmente após junho de 2013, ano de eclosão de manifestações em todo o Brasil.

O equipe do Instituto com Rodrigo Savazoni (abaixo, à direita). (foto: Victor Marinho)

O equipe do Instituto com Rodrigo Savazoni (abaixo, à direita). (foto: Victor Marinho)

Foi então que o empreendedor percebeu que a pauta do comum – ou procomum, a tradução usada para o conceito de “commons” – havia crescido e se desdobrado para além da internet, invadindo áreas como urbanismo, políticas sociais e ambientais. Surgiu daí a fagulha para o Instituto Procomum, criado oficialmente em 2016.

Entre abril e junho desse mesmo ano, o primeiro projeto do IP ganhou um nome, LABxS (ou Lab Santista), e um patrocínio da Fundação Ford no valor de 270 mil dólares (aproximadamente 851 mil reais) durante um ano e meio. A ideia é criar um laboratório cidadão nos moldes do Open Lab, no México, e o Santa Lab, na Argentina, entre outros, e realizar uma série de atividades para fomentar iniciativas e viabilizar projetos.

A primeira ação, o Circuito LABxS, já está acontecendo. Os selecionados receberam, cada um, uma microbolsa de 1,3 mil reais para viabilizar seu projeto. A ideia era escolher 12 iniciativas, que variavam de banheiros secos e hortas comunitárias a iniciativas de hip hop femininas, de inclusão de deficientes e intervenções artísticas. O número de inscritos foi surpreendente, segundo o co-fundador, assim como a qualidade dos projetos – foram 127 ao todo. Por isso, acabaram premiando 13 deles, nove propostos por mulheres.

INOVAR FORA DAS CAPITAIS É POSSÍVEL E NECESSÁRIO

Rodrigo conta que, quando chegou em Santos, se impressionou com a riqueza cultural e com o potencial da cidade. Um ecossistema que combina o porto, as praias, comunidades indígenas, movimento de hip hop, quilombos e o peso histórico de ter sido por muito tempo um dos principais centros culturais do país. Ao mesmo tempo, ele lembra, é comum ouvir dos santistas que a cidade é parada, ou que é preciso subir a serra para ver as coisas. “A primeira sensação que eu tive quando vim pra cá foi que isso não era verdade”, diz. O que faltava, então, era articulação e fomento.

A primeira ação prática do Instituto foi uma iniciativa para mapear e prospectar as pessoas e projetos que estão reinventando a cidade e suas possibilidades. “A gente tem uma sensação que as coisas só acontecem nos eixos dos grandes centros do Brasil”, diz Rodrigo. “Mas a experiência de vida e urbana que você pode ter em cidades de médio porte é muito mais fascinante e agradável”.

Georgia Nicolau, ex-diretora de Economia Criativa do Ministério da Cultura entre 2013 e 2016, reforça o argumento:

“O Brasil tem uma concentração ridícula de recursos e projetos nas grandes capitais. A gente ignora cidades de médio porte, como se nada acontecesse nelas”

Ela ainda conta que, quando estava no governo, era nítida a maneira como o incentivo é restrito aos grandes centros, e como são necessárias ações para fomentar o desenvolvimento de atividades em outros locais, como a que eles estão realizando.

No fim deste mês, o LABxSantos passará a articular os vencedores (e também aqueles que não ganharam bolsa, mas têm um projeto interessante) para criar o que chama de “circuito”. A ideia é promover reuniões e encontros para discutir soluções que melhorem a vida na cidade, e fazer com que seus realizadores se conheçam, criando uma rede prática de discussão e colaboração. O Instituto também fará a ponte entre os projetos inovadores da Baixada e os de outras partes do Brasil e do mundo que possam ter sinergia.

“Até pela região ser portuária, há essa vocação para a abertura que queremos explorar nesse projeto”, diz Rodrigo. A equipe também busca, com a prefeitura, um imóvel abandonado para ser restaurado e transformado em um laboratório fixo, com infraestrutura de internet, máquinas e café. O plano é que o espaço sirva aos criadores dos projetos, mas também a toda a população interessada em trocar experiências relacionadas à inovação.

A MARÉ MUDA A CADA DIA, MAS O PROPÓSITO PERMANECE

Gerir uma organização em tempos de crise econômica e política é um desafio, mas os criadores do Procomum preferem enxergar as oportunidades e a bagagem trazidas pelas experiência anteriores – inclusive pelas derrotas. No auge da Casa de Cultura Digital, por exemplo, o espaço tinha projetos e era reconhecido pelo mais alto escalão do governo federal na área de cultura. Com a mudança no contexto político, hoje os desafios são outros. Muitos projetos bancados pela então gestão, que dependiam de editais, acabaram por falta de financiamento. E muita gente que trabalhava em setores do governo acabou afastada com a troca de partidos no poder.

“Muita coisa mudou, mas não acho que voltamos à estaca zero”, diz Georgia. Ela própria é um exemplo de profissionais experientes, que estão “soltos”, em busca de novos desafios, que acumularam repertório, conexões nacionais e internacionais:

“Muitas pessoas que saíram dos governos estão se reinventando na sociedade civil e conseguem olhar o Brasil de outro jeito”

Além disso, ela cita outro avanço recente em relação à pauta social: “No início dos anos 2000, não havia a preocupação atual com a questão de gênero e com o racismo. Eu tinha menos voz em locais dominados por homens brancos. Tenho certeza que isso mudou”.

“Estamos em um momento de reestruturação”, segundo Rodrigo. “A gente não tem medo e olhar politicamente para as questões e quer poder ajudar a criar a sociedade civil do século 21”. É neste contexto que o Instituto Procomum se insere, segundo ele. E não é preciso estar em uma metrópole para lançar iniciativas inovadoras e transformar realidades.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Instituto Procomum
  • O que faz: ONG que atua na promoção do compartilhamento e inovação
  • Sócio(s): Rodrigo Savazoni, Georgia Haddad Nicolau e Marília Reis Guarita
  • Funcionários: 6
  • Sede: Santos (SP)
  • Início das atividades: Agosto de 2016
  • Investimento inicial: US$ 270 mil (aproximadamente R$ 851 mil)
  • Faturamento: NI
  • Contato: contato@procomum.org
Veja também:

De coworking a rede de inovação, o Impact Hub abriga e fortalece empreendedores sociais no país

- 7 de novembro de 2016
O Impact Hub SP ficou conhecido como coworking antes e aos poucos fortaleceu o empreendedorismo social na capital. (Foto Impact Hub)

Como orientar sua vida para a inovação social e o trabalho colaborativo

- 25 de abril de 2016
Aron Krause divide seu tempo entre uma consultoria de inovação social, um laboratório social e a vida acadêmica.