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Como o bonachudo personagem infantil Bita mudou a vida, e os planos, de quatro empreendedores

- 11 de janeiro de 2017
Inspirados pelos filhos pequenos, os sócios João Henrique, Enio Porto, Chaps Melo e Felipe Almeida agora têm o Bita como companheiro inseparável de negócios.
Inspirados pelos filhos pequenos, os sócios João Henrique, Enio Porto, Chaps Melo e Felipe Almeida agora têm o Bita como companheiro inseparável de negócios.

“Bom dia! O sol já nasceu lá na fazendinha!” Quem tem crianças na família provavelmente vai reconhecer essa frase. É parte de uma das músicas do Mundo Bita, cujo personagem principal é um simpático senhor gorducho, que brinca com crianças em canções divertidas e educativas. Sucesso como conteúdo para animações, eventos e produtos licenciados, todo este universo colorido não estava no plano inicial de seus criadores — muito menos no plano de negócios. O sucesso foi uma reviravolta na vida dos sócios, trazendo aperreios e também alegrias.

Com idades entre 37 e 39 anos, Felipe Almeida, Chaps Melo, Enio Porto e João Henrique Souza estão no Recife, onde produzem o conteúdo e controlam a distribuição e licenciamento do Mundo Bita em todo o País. Tudo é feito pela empresa fundada por eles, o estúdio criativo Mr. Plot, e que lançou o primeiro DVD em 2013. Desde então, a euforia de crianças, pais e mães em torno de Bita e seus amigos só cresce, a ponto de fazer a empresa mudar de rota para acompanhar a respostas do público.

A paixão que os pequeninos demonstram pelo bonachão bigodudo se reverte em números. Em 2016, a Mr. Plot atingiu seu break even (quando não dá mais prejuízo; embora ainda não lucre). A previsão de faturamento para este ano é de 2,5 milhões de reais, movimentados em vendas e royalties de produtos e eventos, quase o dobro do resultado de 2016.

Também este ano, Bita vai expandir suas fronteiras: começa a ser distribuído no México e em seguida a outros países da América Latina. Felipe Almeida, diretor de Negócios e um dos sócios da Mr. Plot, indica que este é o começo do que pode ser uma expansão global:

“O modelo de negócio tem que ser escalável, com um produto replicado para milhares de pessoas, sem ter que começar tudo de novo”

Tudo está correndo bem agora, principalmente se considerarmos o caminho que a Mr. Plot fez para chegar até aqui. Em 2008, o que Felipe, Chaps e Enio tinham em mente não passava nem perto de uma empresa que produz canções infantis e desenho animado. Naquele ano, eles saíram da empresa em que trabalhavam e se uniram para montar a Quarta Dimensão, startup que prestava serviços de software e desenvolvia websites. Dois anos depois, no entanto, o formato já não satisfazia os anseios dos fundadores. “Ali, nosso modelo de negócio era só prestação de serviço. Não ia gerar escala. Poderíamos até aumentar o número de clientes, mas com esse aumento também cresceriam as dificuldades”, conta Felipe.

DA INQUIETAÇÃO À TRANSFORMAÇÃO

A Mr. Plot nasceu deste incômodo. Incubada inicialmente no polo tecnológico Porto Digital, foi criada, desde a concepção, com o conceito de gerar conteúdo original e autoral, distribuído através de aplicativos e livros digitais para crianças — uma oportunidade que os sócios identificaram com o crescente uso de smartphones e a pouca oferta de material infantil de qualidade. O recém-criado Bita já estreava entre os personagens do catálogo da jovem empresa e foi bem aceito pelo público desde o princípio. Nessa fase, João foi incluído na sociedade, chegando com força de trabalho e capital. Havia, então, muitos fatores favoráveis.

Bita (o gorducho) é um sucesso e shows, feitos em parcerias com produtoras locais, são uma fonte importante da receita da Mr Plot.

Bita (o gorducho) é um sucesso e shows, feitos em parcerias com produtoras locais, são uma fonte importante da receita da Mr Plot.

Contudo, nada fazia a empresa ganhar dinheiro para pagar as contas. Era hora de fazer ajustes novamente. Junto com a equipe que tinham na época, formada por um animador e um ilustrador, os sócios montaram três clipes de animação no aplicativo Bita e os Animais, com músicas educativas criadas e gravadas por Chaps. Havia finalmente chegado o momento pelo qual eles tanto esperaram. “Os clipes fizeram tanto sucesso que passaram a ser o produto principal da Mr. Plot. Tivemos certeza que tínhamos acertado quando a Discovery Kids e a Sony Music se interessaram pelo material”, conta o compositor.

O momento impôs aos sócios uma mudança profunda no negócio. A empresa pivotou (mudou a estratégia depois de testar uma outra). Foi de editora digital a produtora de audiovisual. Felipe fala dessa fase: “O sucesso nos fez fundar uma nova empresa, do zero. Mantivemos, é claro, a nossa criação original, que é o Bita e sua turminha”.

Felipe aponta a ampliação do uso de plataformas como Youtube e Vimeo como grandes aliados da disseminação do Mundo Bita. Todavia, destaca que a originalidade é a base mais forte do êxito do produto:

“Se o conteúdo for realmente bom, bem feito e tiver um propósito definido, as pessoas dão atenção”

Se um empreendedor perguntasse a Felipe o que levar em conta para saber se é hora de mudar a direção de um negócio, ele diria que um ponto importante é avaliar da escalabilidade do produto. Outro é o valor gerado para o cliente. “Se não tiver esses atributos claros, imagino que precise de ajustes”, diz.

SOBRE TER PREJUÍZO POR ANOS, MAS MANTER O FOCO

Embora tenha sido um marco para a Mr. Plot, a descoberta da rota para um produto escalável deu prejuízo por dois longos anos. “Nós investimos mais de um ano sem saber se os resultados viriam. E não vieram”, conta Felipe. A despeito da atenção vinda de players como a Sony, ele diz que não houve interesse por parte de investidores na empresa. Eles passaram por meses em que a folha de pagamento ficou sob ameaça de não ser honrada e o dinheiro entrou de última hora, com contratos de licenciamento. Felipe afirma que e a falta de conhecimento do mercado de audiovisual foi uma barreira:

“Podíamos ter estudado mais, pesquisado mais. Mas, sem esse nosso erro, dificilmente teríamos chegado onde estamos”

Para ele, o maior desafio da Mr. Plot foi “manter o foco e continuar o caminho” enquanto produziam-se quatro anos de conteúdo sem um faturamento que cobrisse os custos. A cobertura dos gastos vinha principalmente de capital próprio. Um dos sócios vendeu um apartamento para que os clipes, cujo custo passava de 30 mil reais por produção, continuassem acontecendo. “Nos vimos em vários momentos sem nenhuma perspectiva”, diz.

Foi difícil para eles descobrir que o mercado de financiamentos bancários não é simpático a empresas iniciantes e da área de economia criativa. Além disso, a participação de um investidor anjo em negócios que ainda não dão resultados foi desmistificada, como explica Felipe: “Investidor, na maioria dos casos, analisa números e checa o quanto a empresa pode render em curto ou médio prazo”. E a realidade do cotidiano de uma startup também passou por um processo de desconstrução.

“Ter startup é moda no Brasil e a mídia cria uma expectativa ilusória nos jovens. É preciso ter o pé no chão e trabalhar muito para dar certo”

Apesar das frustrações e tropeços, eles seguiram em frente. Hoje, a Quarta Dimensão ainda existe, mas tem poucos clientes e não faz novos contratos. Os sócios mantêm-se focados em Bita e seu universo, alimentado principalmente pela inspiração que vem dos fãs e das suas próprias famílias. Todos têm filhos pequenos. Aliás, foi a partir da experiência de ser pai da primeira filha, Anabel, que Chaps criou o personagem, como mostra esse vídeo.

Entre os produtos licenciados estão itens para festas, mas no site é possível baixar as imagens e fazer os produtos em casa.

Entre os produtos licenciados estão itens para festas, mas no site é possível baixar as imagens e fazer os produtos em casa.

Felipe considera que o foco do time é proporcional à importância do conteúdo no dia a dia de seu público: “É um projeto que requer bastante cuidado, estudo e foco. Estamos lidando com crianças, com educação. E, a cada dia, o Mundo Bita se torna mais presente na vida das famílias. A responsabilidade só aumenta”.

O esforço parece estar dando certo. Somente o clipe Fazendinha, citado no início desta reportagem, tem mais de 30 milhões de visualizações no YouTube, sem contar as exibições em canais de TV e no Netflix. No ano passado, parcerias da Mr. Plot com produtoras de eventos realizaram mais de 100 shows em diversas cidades do País. O licenciamento de produtos vai além de brinquedos e também está em materiais escolares e itens de festas. Está, também, na Lojinha do Bita. As diversas fontes de receita geram resultados que, para os sócios, mostram como nenhum dos erros cometidos no passado foi em vão. “Sem as falhas que cometemos no início do negócio, não haveria acerto. Não haveria Bita.” Aprendizados pelos quais os fãs — crianças, pais e mães — agradecem.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Mr. Plot
  • O que faz: Conteúdo audiovisual, tendo como principal produto o Mundo Bita
  • Sócio(s): Chaps Melo, Felipe Almeida, Enio Porto e João Henrique Souza
  • Funcionários: 8
  • Sede: Recife
  • Investimento inicial: R$ 200.000
  • Faturamento: R$ 1,3 milhão em 2016
  • Contato: felipe@mrplot.com.br e joao@mrplot.com.br
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