Como vender camisetas no Brasil e distribuir sorrisos, e esperança, pelo mundo. Conheça a Hevp

- 11 de dezembro de 2015
Lucas, sócio fundador da Hevp, no Haiti distribuindo camisetas e multiplicando sorrisos. A cada peça comprada, uma é doada.
Lucas, sócio fundador da Hevp, no Haiti distribuindo camisetas e multiplicando sorrisos. A cada peça comprada, uma é doada.

É um delicioso clichê falar que longas viagens são capazes de renovar a nossa energia. Elas são uma ponte para novas ideias, reflexões e mudanças. De uma viagem pode nascer conexão inesperada, um inspiração diferente e, quem sabe, até um projeto de vida e de trabalho. Aconteceu com dois amigos de infância, apaixonados por viajar e com uma determinação em comum: queriam trabalhar juntos em algo que os permitisse viajar, mas que essencialmente causasse um impacto positivo nos locais visitados. Assim nasceu a Hevp, um negócio social que usa a moda para gerar receita e permitir doações sistemáticas de uniformes escolares e alimentos a comunidades carentes ao redor do mundo.

Quando ainda estava no terceiro ano da faculdade de Administração na Unicesumar, Lucas Emmanuel Rodrigues, 27, que é de Maringá (PR), começou a se questionar sobre muita coisa. Ele conta que ficou pasmo ao perceber que não tinha muita noção do que era a vida, o mundo: “Era impressionante, eu pensava em Estados Unidos e vinha a imagem da Estátua da Liberdade e dos filmes de Nova York que eu tinha assistido. Eu não tinha visão do que era o mundo nem de quão grande e espetacular ele poderia ser. Alguma coisa eu não estava fazendo certo, e resolvi viajar”. Assim, no final de 2008, ele foi morar no Havaí por três meses.

Lucas e Juriel, amigos de infância e sócios na Hevp.

Lucas e Juriel, amigos de infância e sócios na Hevp.

 

A viagem foi a primeira de muitas que viriam. No cinco anos seguintes, Lucas esteve em mais de 50 países. Nessa jornada, o que viu e conheceu nos países mais pobres do globo quebraram seus paradigmas. Algo o frustrava, incomodava. Diante da miséria, da pobreza, ele muitas vezes não sabia o que fazer, como ajudar ou se envolver: “Quando rodei o mundo, o desenvolvimento pessoal era meu primeiro objetivo, pois eu sabia que só me traria coisas boas e que, quem sabe, poderia me trazer o insight para um trabalho que tivesse a ver com o que eu acreditava”.

A história começa a se desenrolar com a entrada do amigo de infância e hoje sócio Juriel Meneguetti, também 27 anos. Ele estudou Direito na UEM e, segundo Lucas, é centrado, focado e caseiro: “É um dos caras mais corretos e inteligentes que já conheci”. Jurial gosta de se envolver com projetos sociais, tem uma relação próxima com a família. Recentemente começou a surfar, e é skatista.

A EMPRESA NASCE DE UM BATE PAPO NO HAVAÍ

Um negócio pode nascer de uma ideia fulminante, ou ser moldado aos poucos. Assim foi com a Hevp. A empresa veio nascendo um pouquinho em cada lugar que Lucas conheceu, naquilo que lhe tocou, em suas expectativas e experiências. Em uma surf trip para o Havaí, em janeiro de 2013, Lucas e Jurial  estavam conversando e Lucas pensou: “vou fazer camisetas e estampar minhas fotos nela”. Juriel curtiu a ideia, gostou da possibilidade de vestir algo que fizesse sentido e tivesse qualidade. Ali foi plantada a sementinha da Hevp. No início, o negócio não lhes parecia tão sério assim, e os dois amigos foram testando situações e modelos de negócio para ver como tudo sairia. Lucas fala dessa fase:

“Os jovens empreendedores precisam saber que não é necessário tanto dinheiro pra começar um negócio”

O livro O Banqueiro dos Pobres, do Muhammad Yunus, trouxe-lhes inspiração de fazer algo diferente. Pesquisando a respeito, basearam o o modelo de negócios da nascente empresa na americana TOMS, que doava um sapato para cada alpargata que vendia. Assim veio à inspiração de doar uma camiseta sempre que outra fosse comprada. O slogan ficou: ‘Uma camiseta vendida, uma camiseta doada’. O nome surgiu de “help”, ajuda em inglês, que eles decidiram alterar para criar uma nova palavra: Hevp.

Os amigos juntaram 18 mil reais e confeccionaram a primeira tiragem de camisetas, com fotos de Lucas, em janeiro do ano passado: eles comercializaram  360 camisetas. Com isso, eles tinham mais 360 para doar. A primeira entrega aconteceu em maio de 2014, no Haiti. Porque lá e não o Brasil? “Porque são países esquecidos.” Lucas até lá para trabalhar como voluntário em outro projeto social e aproveitou para fazer a doação da Hevp: “Pra Hevp as pessoas são iguais em todos os lugares. Somos do mundo, somos para todo o mundo. Ajudar pessoas em países onde a pobreza é mais generalizada talvez seja mais necessário. Mas temos noção das necessidades no Brasil também ajudaremos ONGs daqui”.

UMA CAMISETA VAI SALVAR O MUNDO?

Tudo parecia certo, Lucas estava no voo de Guarulhos (SP) para Porto Príncipe, no Haiti, mas viajou frustrado. Ele se questionava: “O que uma camiseta vai fazer de diferente para aquelas crianças?”. A resposta só viria depois da entrega (que foi registrada neste vídeo). Lucas percebeu três coisas: as crianças de lá dificilmente recebiam presentes, elas não estão acostumadas a receber carinho nem atenção e, por fim, o dia da doação talvez tenha sido um dos mais felizes da vida daquelas crianças. Aí estava a resposta.

Um dos modelos à venda na Hevp, por 49 reais.

Um dos modelos à venda na Hevp, por 49 reais.

A primeira leva foi assim, meio no susto, e logo Lucas e Jurial perceberam a importância de ter parceiros no local de doação, para ajudarem a direcionar os esforços e maximizar o impacto social, para que os produtos chegassem a quem realmente precisa. A partir disso, definiram que sempre fariam as doações em parceria com pessoas ou projetos que já causam impacto social local.

A segunda doação foi no Quênia. Doaram camisetas em orfanatos e comunidades da cidade de Meru. Antes de viajar, os sócios fizeram parcerias locais e através delas visitaram escolas públicas e conheceram diretores e professores, onde souberam que muitas crianças iam com fome para a escola. Mais uma vez saíram tocados, e voltaram ao Brasil se perguntando o valor do que estavam fazendo. Aí, decidiram que a Hevp passaria a doar também refeições para crianças dentro da escola. O objetivo era incentivar a criança a ir para o local, mesmo que o estudo ficasse em segundo plano.

Com esta nova forma de atuar, a Hevp teve que se adaptar e mudar também seu modelo de receita. Além das camisetas, adicionariam calças e colares femininos para poder replicar em doações de refeições. Também estão criando bermudas, bonés e outros itens (há detalhes no blog que mantêm dentro do site da marca).

A LÓGICA E AS DIFICULDADES DE UM NEGÓCIO SOCIAL

Diferentemente de uma ONG, que depende basicamente de doações, a Hevp é um negócio social. Para aprender como empreender no negócio que tinha nascido mais intuitivamente do que racionalmente, Lucas foi se especializar em negócios sociais na Yunus Espm Social Business Centre. Assim, pôde desenvolver o modelo que sustentasse a proposta da marca: “A cada camiseta vendida, uma é doada. A cada calça vendida, 10 refeições são doadas. A cada colar vendido, 5 refeições são doadas”.

No site da Hevp é possível encontrar camisetas femininas e masculinas, e calças masculinas de sarja. Os preços variam de 75 a 90 reais para as camisetas, e as calças custam 229 reais. Além do e-commerce, a Hevp já tem vários lojistas comercializando as peças inclusive em São Paulo.O diferencial é que: tendo ou não lucro haverá doação. Comprando um produto, a doação é garantida. Algo que os sócios pensaram desde o início é construir um negócio social, no qual as pessoas acreditassem: na empresa, nas pessoas, nas doações. Trabalhar a imagem de um negócio é difícil, eles reconhecem.

Apoiadores pelo mundo. A Hevp incentiva os clientes a viajarem pelo mundo com as camisetas, e posta as fotos nas redes sociais da marca.

Apoiadores pelo mundo. A Hevp incentiva os clientes a viajarem pelo mundo com as camisetas, e posta as fotos nas redes sociais da marca.

As dificuldades no empreendimento foram várias. Tudo era novidade, e os dois sócios não sabiam de muita coisa sobre o universo no qual mergulharam. Era preciso desde escolher a fábrica, trabalhar o e-commerce, criar sites, alimentar mídias sociais, desenhar as roupas femininas e masculinas… A lista era infinita e eles logo contrataram um estagiário. Dia e noite dedicados ao negócio, os dois sócios se dividiram conforme suas facilidades e gostos. Juriel ficou cuidando mais da parte financeira e Lucas do envolvimento com o social e desenvolvimento de estampas. As vendas, o contato com lojistas e clientes são funções que os dois executam em conjunto.

Após um ano de empresa, eles atingiram o ponto de equilíbrio. Além dos 18 mil reais iniciais, eles tiveram de fazer mais aportes, que foram cobertos pelo faturamento com as vendas. A sede da Hevp é um escritório em Maringá, onde os sócios e o estagiário trabalham.

Para 2016, os planos são de ir para o Quênia e o objetivo é, mais uma vez, algo ambicioso. Eles dois querem fazer a produção de camisetas por lá, para que as mulheres, mães das crianças tenham um ocupação que gere renda e, assim, o impacto local seja ainda maior. “Nos realizamos a produção de uniformes localmente, esse ano, no Nepal. Mas foi em fábricas. Nosso objetivo e injetar dinheiro na economia local e fomentar a geração de renda e de emprego. Será sensacional se conseguirmos fazer isso com as mães dos alunos”, diz Lucas.

Em relação às viagens, eles não têm uma programação detalhada com prazos. Vão fazendo e marcando de acordo com as novas parcerias firmadas. Também não é mandatório que eles viagem a todos os locais. Uma vez que tenham parceiros locais, não é preciso estar todo o tempo presentes para fabricar e distribuir os uniformes.

A viagem de Lucas como empreendedor mal começou. Mas ele afirma que o mais gratificante do trabalho de Hevp é o reconhecimento das pessoas: “Dar palestras para contar do trabalho da Hevp, do negócio social, é motivador e assim mais negócios como o nosso podem surgir. Ver as pessoas usando as camisetas da empresa também é bacana. Nossos clientes já tiraram fotos viajando de Hevp pelos 5 continentes. Além disso, saber que estamos criando impacto social positivo na vida de quem realmente precisa, é sensacional. Isso dá todo o sentido para que continuemos. Para mim e para o Juriel, o CPF e o CNPJ são as mesmas coisas. A Hevp é o nosso sonho”. O negócio também esta voltado para a economia colaborativa, em uma economia mais circular que também desenvolva um impacto social. E isso não é difícil de verificar. Os dois amigos realmente fizeram um negócio pra valer. Que a viagem vá longe.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Hevp
  • O que faz: Vende camisetas e doa uniformes escolares e refeição
  • Sócio(s): Lucas Emmanuel Rodrigues e Juriel Meneguetti
  • Funcionários: 2 (os sócios) e 1 estagiário
  • Sede: Maringá
  • Início das atividades: janeiro de 2014
  • Investimento inicial: R$ 18.000
  • Faturamento: NI
  • Contato: lucas@hevp.com.br
Veja também:

A T-Mutts vende mensagens de amor aos cachorros – e quem ganha são os vira-latas

- 12 de junho de 2017
"É legal porque quanto mais eu tiver lucro, mais vou ajudar", diz Ana Luísa Schmitt, da marca de camisetas comprometida com cães abandonados.

“É ridículo como as ‘modas’ digitais se tornam um paraíso para oportunistas no Brasil. Eis a verdade sobre elas”

- 9 de junho de 2017
Luciano Palma trabalha com tecnologia há mais de 20 anos e desvenda alguns "truques" usados por gente mais interessada em vender do que em entender sobre o que vende.

Por uma moda mais consciente: a história da Mattricaria e sua pequena fábrica de corantes naturais

- 5 de junho de 2017
Pelas mãos da designer de moda Maibe Maraccolo, da Mattricaria, mais de uma centena de plantas viram tintas naturais (foto: Luís Tajes).

O Studio dLux formou uma rede de makers para dar conta da demanda por design aberto – que só cresce

- 1 de junho de 2017
Denis, da Studio dLux, conta como seu business amadureceu, e ramificou-se, nos últimos dois anos.

A PanoSocial emprega ex-detentos, usa algodão orgânico e mostra, na prática, outro caminho para a moda

- 22 de maio de 2017
Equipe PanoSocial: Ricardo, Paulo Tadeu Silva, Cristina Campos, Samantha Pereira, Wellington Galdino, Natasha Barros, Gerfried Gaulhofer, Vladmir Ortiz, Karine Andrea Vieira, Reginaldo Jacinto, Juliana Giovanardi, Cauê Saladak Saladino e Renato Morato (foto: Pablo Saborido).