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Conheça a Nova Terceira Idade: um mercado com mais de 20 milhões de brasileiros e de 1 trilhão de reais

- 10 de dezembro de 2014
Maria Correia, 70, com José Arcas, 76, o namorado com quem ela divide a porção de pastel com Malzebier (foto: Kalinca Maki).

A funcionária pública aposentada Maria Ruiz Correia, 70, é mãe de três filhas e avó de duas netas – a mais jovem tem 19 anos e está prestes a iniciar a faculdade. “Sou uma vovó, mas não me sinto uma velhinha”, diz ela. E não é para se sentir mesmo. Maria considera que começou a curtir a vida para valer após os 50, quando terminou um casamento de quase 20 anos e se aposentou. “Queria viver intensamente”, afirma. Ela mudou de casa e começou a cursar faculdade da terceira idade, onde participou de palestras sobre saúde da mulher e sexualidade. Também realizou um antigo desejo: fazer aulas de canto. Nos últimos anos Maria fez cursos de fotografia, informática, jardinagem e paisagismo. Pelo menos uma fez por ano, faz uma viagem internacional. Já foi a Portugal, França, Itália e Espanha.

“Viajo sozinha e gosto de fazer meus próprios passeios, não dependo de ninguém”

Três vezes por semana, Maria faz musculação e alongamento em uma academia, “ótimas atividades para enrijecer os braços”. Aos finais de semana, se diverte com amigos em bares da Vila Mariana, bairro da zona sul paulistana onde mora. Há cinco meses, passou a dividir o prato predileto – porção de pastel com cerveja Malzbier – com o novo namorado, o aposentado José Arcas, de 76 anos. “Ele é muito romântico e sempre me surpreende com flores e carinhos”, diz ela.

Maria conversou com o Draft durante o Lab+60, um encontro que reuniu cerca de 500 pessoas para colocar em evidência a nova dinâmica social de quem tem mais de 60 anos. Organizado pela agência de marketing digital Garage e pela consultoria corporativa Via Gutenberg, teve patrocínio do Grupo Segurador Banco do Brasil, Mapfre e Plenitud, a marca de fraldas geriátricas da Kimberly Clark.

Selfie não tem idade, mostram os participantes do Lab 60+ (da esq. para a dir.): Maria Correia, Raimundo Moura, José Arcas e Renilda Moura (foto: divulgação).

Selfie dos participantes do Lab 60+ (da esq. para a dir.) Maria Correia, Raimundo Moura, José Arcas e Renilda Moura (foto: divulgação).

Mulheres com blusas estampadas e homens de bermuda e camiseta eram figuras comuns no evento, que teve palestras sobre saúde, atividade física, programas culturais e consumo. Depois das apresentações, um grupo musical embalou o público com uma música que lembrava forró nordestino. Ninguém ficou parado. Foi também a hora de fazerem selfies e mostrarem intimidade com smartphones, apesar da idade. Mas, que idade? Terceira? Melhor? Idade de gente que continua trabalhando, se divertindo e tem agenda cheia. A faixa etária dos 60+ não é mais sinônimo de gente frágil que necessita de cuidados em tempo integral. A lógica é outra.

EM ÚLTIMA INSTÂNCIA, ESTAREMOS TODOS VIVOS

Aumento da renda, maior acesso à saúde, novos tratamento médicos e hábitos de vida saudáveis têm feito os brasileiros viverem mais e melhor. Há pouco o IBGE divulgou que a expectativa de vida no Brasil é de 74,9 anos – um aumento de 12,4 anos em comparação à média em 1980. Hoje, o país tem 20,6 milhões de pessoas com mais de 60 anos (quando o IBGE considera alguém idoso), o que representa 10,8% do total da população. Em 2060, serão 58,4 milhões de idosos – cerca de um quarto da população brasileira.

Roni Ribeiro e Benjamin Rosenthal, da Gagarin. Pesquisa de mercado com pessoas maduras para as empresas desenvolverem e melhorarem produtos.

Roni Ribeiro e Benjamin Rosenthal, da Gagarin, que pesquisa o público maduro para empresas desenvolverem e melhorarem seus produtos (foto: Kalinca Maki).

Um estudo da consultoria paulista de geomarketing Escopo apontou que o consumo entre as pessoas com mais de 50 anos foi de quase 1 trilhão de reais em 2013. Desse montante, 135 bilhões de reais foram gastos em alimentos e bebidas, 64 bilhões em carros, 49 bilhões em artigos de vestuário, 24 bilhões em produtos de higiene e beleza. Ao todo, essa fatia foi responsável por 34% do consumo total da população, e esse número deve crescer para 44% em 2018.

Não é o caso de esperar. Hoje, os mais velhos já são um público consumidor relevante. Conversamos com alguns empreendedores que estão aproveitando esse mercado e criando novos negócios em torno dele.

Roni Ribeiro, 39, e Benjamin Rosenthal, 43, passam o dia conversando com pessoas maduras. Não que eles sejam psicólogos ou médicos geriatras – embora também acumulem conhecimento nessas áreas. São empreendedores e o motivo de tanto bate papo é conhecer seus hábitos sociais e de consumo para ajudar grandes empresas a desenvolverem ou aprimorarem produtos e serviços para os consumidores mais experientes. Eles são fundadores da Gagarin, empresa focada em pesquisa de mercado com pessoas acima de 45 anos e que tem como clientes empresas farmacêuticas, de cosméticos, planos de saúde e do mercado financeiro. Roni conta mais:

“Hoje é comum ver pessoas com 60 anos que trabalham, têm vida social ativa e estão no ápice de seu poder econômico. As empresas estão começando a entender isso”

Os dois sócios acreditam, por exemplo, que em breve o mercado de educação terá mais espaço para este público. Pessoas perto dos 60 anos estão iniciando novas carreiras em áreas que lhe dão prazer, como um engenheiro que começa a estudar filosofia. Por outro lado, também é comum profissionais experientes deixarem o mercado corporativo para empreender. “As universidades terão que olhar esse público com mais atenção”, acredita Rosenthal.

As pesquisas da Gagarin costumam durar de dois a oito meses, o tempo depende do objetivo do cliente: reformular uma embalagem para que seja mais aderente à mão do idoso ou criar um novo serviço de private bank, por exemplo. Para obter informações, a empresa faz entrevistas presenciais (conforme as respostas ficam homogêneas, as informações passam a ser validadas) e conversa com especialistas como médicos geriatras e pesquisadores em antropologia e etnografia.

Ao entregar os resultados aos clientes, Roni e Benjamin costumam esclarecer alguns mitos sobre a terceira idade. Por exemplo, a solidão. É comum achar que os mais velhos se sintam sós e, nesse caso, cuidar dos netos seria uma ocupação gratificante. “Não é bem por aí”, diz Rosenthal.

“Eles querem curtir os netos, mas sem a obrigação de serem responsáveis pela educação”

Na verdade, prossegue ele, muitos idosos querem ter sua própria agenda e não gostam de depender de ninguém – e nem que alguém dependa deles. Por outro lado, os mais velhos de fato se preocupam em deixar uma herança para os familiares. Além disso, pensam em qual será o legado após a morte e, por isso, muitos transferem recursos a entidades ligadas a causas sociais e empreendedoras. “É uma forma de se manterem vivos por meio de seus ideais”, acredita Rosenthal.

SMARTPHONE PARA TODOS

O Instituto de Artes Interativas, também conhecido como iai?, é uma escola de cursos livres focada em tecnologias móveis. Fundado em 2009 pelo engenheiro paulista Lucas Longo, 40, oferece cursos de programação, design e segurança de dados com ênfase em smartphones e tablets. Em 2011, Lucas percebeu que alguns clientes mais velhos procuravam o instituto para aprender funções mais básicas dos aparelhos.

Lucas Longo, do Instituto de Artes Interativas, abriu cursos para tornar smartphones acessíveis aos mais velhos.

Lucas Longo, do Instituto de Artes Interativas, abriu cursos rápidos específicos para ensinar os mais velhos a usarem smartphones iOS e Android (foto: Kalinca Maki).

Muitos ganhavam os dispositivos de filhos ou netos e as dúvidas iam desde como tirar fotos e acessar a internet até como criar arquivos de planilhas. “Os próprios familiares poderiam ensinar”, diz Lucas. “Mas faltava paciência, pois o que é intuitivo para um jovem pode não ser para uma pessoa com mais de 50 anos.” Foi aí que o empreendedor enxergou uma oportunidade de negócio e criou os cursos “iPhone para todos” e “Android para todos”, para quem tem mais de meio século de vida.

Em média, o valor do curso é de 1.200 reais e as aulas são particulares, com duração de quatro horas, em duas sessões. Na primeira etapa, o professor ensina conceitos, como o funcionamento dos serviços em nuvem. Depois, é hora de aprender na prática a configurar e-mail, conversar por chat, tirar fotos e acessar redes sociais. “Uma dúvida bem comum é o que fazer caso esqueça a senha do e-mail”, diz Lucas.

Em 2014, os clientes acima de 50 anos representarão 5% do faturamento da empresa, estimado em 3 milhões de reais. Lucas acredita que essa participação vá crescer, acompanhando a popularização dos smartphones. Segundo a consultoria de tecnologia de informação IDC, em 2013 foram vendidos 35,6 milhões de smartphones no Brasil, colocando o em quarto lugar no ranking mundial. Nos EUA, segundo levantamento da consultoria Forrester Research, os gastos de pessoas entre 50 a 64 anos representaram 40% do mercado de produtos tecnológicos.

Nos últimos anos, algumas empresas desenvolveram aplicativos exclusivos para idosos, como o Pillboxie, que lembra a hora de tomar remédios. E há novidades a caminho, como a rede social Stitch, que visa conectar pessoas com mais de 50 anos para amizades ou relacionamentos amorosos. O site ainda está em fase de testes, disponível apenas para cidades dos EUA e da Austrália.

CURAR PARA FORTALECER, FORTALECER PARA CURAR

O médico ortopedista Benjamin Apter, que não revela a idade, pratica esportes desde a infância. Hoje, seus preferidos são surf e skate. Com 1,70m de altura e 68 quilos, exibe uma condição física invejável a muitos jovens. Benjamin tem um grande estímulo para manter a forma: é fundador da B-Active, a rede paulistana de academias terapêuticas que oferece musculação, pilates e fisioterapia para o público maduro. “Cerca de 80% dos nossos clientes tem mais de 60 anos”, diz.

O B-Active tem o conceito de ser um ambiente mais “médico” do que “fitness”: 80% dos 50 professores são fisioterapeutas que acompanham os alunos em atividades para tratar lesões musculares e nas articulações. “Mas a questão estética também entra em cena, pois muitos clientes querem ter um corpo mais magro e saudável.”

Benjamin Apter, o médico ortopedista que fundou a B-Active, uma academia terapêutica para os público acima de 50.

Benjamin Apter, o médico ortopedista que fundou uma academia terapêutica para o público acima dos 60.

Benjamim decidiu criar a academia quando atendia idosos e atletas em uma clínica de ortopedia. Ele recomendava aos pacientes exercícios de musculação no pós-operatório mas, poucos meses após a alta, eles voltavam ao consultório com as mesmas queixas de antes. Foi quando vislumbrou a oportunidade:

“Percebi que as academias convencionais não estavam preparadas para tratar lesões ortopédicas. Enxerguei um nicho de mercado promissor”

Na mesma época, Benjamin fez pós-graduação no departamento de geriatria da Universidade de São Paulo (USP) para conhecer melhor a fisiologia do idoso. Também fez MBA em economia e marketing, para aprender a gerir uma empresa. Era o início da B-Active, fundada em 2004 com outros dois sócios, os médicos Ari Radu Halpern e Nelson Wolosker.

Os aparelhos da B-Active foram fabricados quase artesanalmente. Os sócios buscaram projetos de equipamentos já testados por grupos médicos em centros de pesquisa de universidades de diversos países. Depois, terceirizavam a fabricação aqui no Brasil. “Começamos com seis equipamentos, hoje temos 60”, conta Benjamin.

As mensalidades variam de acordo com a frequência do aluno, que precisa marcar as aulas com antecedência. O pacote com duas aulas semanais sai por cerca de 350 reais ao mês. A empresa também oferece serviços avulsos, como um programa de massagens para reduzir gordura visceral e localizada. Este ano, a B-Active deve faturar cerca de 6 milhões de reais – um crescimento de 10 %.

No ano passado, a B-Active iniciou a expansão por franquias. Além das unidades próprias, localizadas em Higienópolis e Perdizes, abriu franquias no Ibirapuera, em Moema e no Jardim Anália Franco. Em março de 2015, será a vez de inaugurar uma unidade em Campinas. “O próximo passo será chegar a outras capitais brasileiras”, conta Benjamin. Ou seja, mais “velhinhos” saudáveis e fortes estão por vir. Seu negócio está preparado para recebê-los?

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