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“Conviver com a pressão interna de fazer dar certo meu novo estilo de vida foi o mais complexo da equação”

- 24 de novembro de 2017
Ian Borges tem 30 anos e narra sua transição do mundo corporativo para o nomadismo digital. Fala da pressão que é mudar de vida e de como foi a adaptação da namorada e da família à nova rotina.
Ian Borges tem 30 anos e narra sua transição do mundo corporativo para o nomadismo digital. Fala da pressão que é mudar de vida e de como foi a adaptação da namorada e da família à nova rotina.

 

por Ian Borges

Sempre tive muitas paixões e curiosidade pela vida. Uma frase que sempre me inspirou é: “Não acrescente dias à sua vida, mas sim vida aos seus dias”. Aqui, gostaria de compartilhar um pouco do que vivi até conquistar um lifestyle com mais sentido e liberdade, vivendo como nômade digital e, ao mesmo tempo, ajudando as pessoas em suas jornadas por mais consciência e propósito.

Quando criança, por influência do meu pai, desde os 9 anos eu frequentava as areias de Icaraí, em Niterói (RJ), para observá-lo jogando vôlei de praia. Aos poucos, comecei a praticar. Participei de alguns torneios e fui me apaixonando cada vez mais pelo esporte. Em 2002, aos 15, tive a oportunidade de representar o Brasil na primeira edição do Campeonato Mundial sub-18 na Grécia e acabei sendo campeão ao lado do Pedro Solberg. Que experiência maravilhosa!

Essa vitória acabou me abrindo muitas portas. Como minha família não tinha condições financeiras muito confortáveis, o esporte foi minha alavanca para conquistar o que eu desejava naquele momento. Consegui fazer cursos de línguas, me formar em publicidade com bolsa integral na ESPM e viajar para mais de 20 países para competir. Foi um ciclo muito bom.

Aos 21 anos, já estagiando na L’Oréal, ficou muito difícil conciliar trabalho, estudo e a rotina de treinamentos. Era chegado o momento de decidir entre continuar como atleta ou viver uma nova paixão. Decidi pela nova aventura.

Entrei de cabeça no mundo corporativo com o sonho de ter uma experiência internacional de trabalho

Viajar e explorar o novo sempre foram minhas paixões e, desde o primeiro dia na L’Oréal, deixei claro que este era o meu maior desejo. Tive a oportunidade de iniciar minha carreira com dois grandes mentores, Diego Metivier e Georges Riche, que me apoiaram e me possibilitaram fazer um mestrado pela empresa e trabalhar na sede, em Paris.

Fiquei quatro anos na França, trabalhando em áreas como recursos humanos, treinamento e desenvolvimento, trade marketing e marketing digital, até que resolvi voltar para o Brasil. Foi uma época maravilhosa, com muitas descobertas, domínio de uma nova língua, amadurecimento profissional e acima de tudo, enriquecimento cultural.

Com 28 anos, já de volta, depois das experiências internacionais na França e nos Estados Unidos, eu tinha conquistado um cargo de Diretor de Comunicação e Marketing Digital na L’Oréal. Tinha uma carreira promissora, muito conforto de grana, benefícios e vários outros símbolos que a sociedade consideraria sucesso.

Mas eu sentia falta de algo… Não sabia exatamente o que era. Eu não me sentia mais 100% conectado com o meu trabalho. Tinha a impressão de estar no piloto automático, apenas acrescentando dias em minha vida. Meu nível de energia vivia baixo. Eu passava cerca de 12 horas por dia no trabalho e mal tinha tempo de conectar com as pessoas mais importantes, como amigos e família.

Quantas vezes levei  trabalho para casa? Me lembro de uma ocasião (tenho vergonha de admitir) onde cheguei ao cúmulo de, durante um aniversário da minha avó, com a família toda reunida, eu “fugir” para o banheiro por 1 hora para terminar um email importante para meu chefe, pois ele havia me ligado às 22h e disse que era “urgente”!

Eu me pegava diariamente preocupado e sonhando — ou tendo pesadelos — com as tarefas do dia seguinte. Sofria com as pressões e responsabilidades. Acordava diversas vezes às 4h da manhã pensando em terminar esses slides e apresentações, mesmo que fossem para a semana seguinte.

E sentia que eu não podia ser o verdadeiro Ian. Aí, acabava entrando no teatro político onde todos usam máscaras corporativas para conquistar seus próprios interesses

Nos poucos momentos que passava comos amigos, eu não conseguia ficar verdadeiramente presente e acabava checando meus emails, na ilusão de que aquilo me ajudaria no trabalho. Basicamente, eu estava trocando minha vida por um bom salário e trinta dias de férias por ano.

Então comecei a me questionar. Durante um treinamento de liderança organizado pela empresa, uma coach me fez a pergunta que virou minha vida de cabeça para baixo: “Ian, qual é o seu propósito de vida?” Uau! Nesse momento, percebi que estava na mer#$! Eu não fazia idéia do representava o conceito de propósito de vida e, muito menos, tinha clareza sobre o meu.

A partir dali, iniciei uma jornada profunda de autoconhecimento através de diversos livros, cursos, palestras, TED talks, meditações, retiros. A cada experiência, meu propósito ia ficando mais claro. O primeiro livro que li nesse momento foi o Sincronicidade, do Joseph Jaworski, que me ajudou a começar a enxergar o mundo com um outro olhar.

Será que as decisões que eu estava tomando, os sonhos que estava sonhando e o impacto que estava tendo com meu trabalho realmente faziam sentido para mim e para a sociedade? Outro ponto que o livro me ajudou a entender foi a visão de que todos os elementos do mundo estão conectados de alguma forma por uma ordem invisível presente no nosso dia a dia.

E, uma vez que você passa a enxergar e sentir essa dinâmica, coincidências deixam de existir e passam a se tornar sincronicidades. Assim, comecei a dar muito mais valor para minha intuição e a valorizar o que começou a acontecer na minha vida.

É muito louco! Quando você se abre e começa a viver mais alinhado com seu propósito, as coisas começam a pipocar em todas as direções

Basta você se esforçar para enxergar essas oportunidades e abraçá-las com carinho. Foi o que aconteceu em uma viagem, quando fui visitar um primo que estava morando como nômade digital em Playa del Carmen, no México, por três meses. É o Rafael Lima, um cara que admiro muito, aquele tipo de primo-irmão-amigo-mentor mais velho. Ao ritmo de algumas margaritas e Coronas, ele mencionou que estava tocando alguns projetos com o Ricardo Semler no Brasil, um visionário que revolucionou áreas como educação e gestão em empresas através de conceitos de democracia organizacional.

Em dado momento, ele perguntou se eu tinha indicação de alguém de marketing para ajudá-los a lançar uma startup que levaria esses conceitos para o mundo de maneira mais digital. Na hora, pensei: olha a sincronicidade! Nos dias seguintes, fiquei digerindo as possibilidades e implicações de pedir demissão da L’Oréal e embarcar em algo com pouquíssimas garantias.

O mais difícil não era só pedir demissão, mas também recusar uma proposta de trabalho que uma outra grande empresa havia me oferecido, com salários e benefícios ainda maiores, além de um desafio animal. Uma oportunidade de ouro que eu estava praticamente decidido a aceitar.

Isso reduziria minha renda mensal em cinco vezes e eu perderia todos os benefícios para viver algo que nem sequer tinha certeza se estava 100% alinhado ao meu propósito. Foi uma das decisões mais difíceis na minha vida. Mas, se não desse o “salto de fé”, nunca saberia! Lembro das palavras do meu primo: “Se você não tacar o seu chapéu para o outro lado do muro, nunca sairá da sua zona de conforto para ir lá escalá-lo e ver o que te espera do outro lado”. Com isso, pensei comigo que, se tudo desse errado, a experiência teria sido o melhor MBA do mundo sobre empreendedorismo.

Não se aprende a empreender lendo livros ou em cursos. É preciso botar a cara, testar, errar, aprender, cair, levantar, seguir em frente

Foi o que eu fiz. Após conversar com minha companheira Taíssa e receber o seu apoio, nos demos pelo menos dois anos para vivenciar esse novo ciclo e, caso lá na frente chegássemos à conclusão de que não estava bom, voltaríamos atrás. Com uma baita bagagem de vida e experiências.

De volta ao Rio de Janeiro, decidi pedir demissão da L’Oréal e largar a tal carreira promissora e o salário de múltiplos dígitos ao ano para iniciar mais um ciclo na minha vida, que tenho orgulho de compartilhar hoje. Com meu primo e com o Ricardo Semler, co-fundei a LeadWise, uma startup com o objetivo de ajudar líderes a tornar suas organizações mais humanas, colaborativas e eficazes.

A empresa nasceu 100% remota, sem escritório, com os funcionários trabalhando remotamente em países como Brasil, Estados-Unidos, Portugal, Holanda, Nova Zelândia e Austrália, sem níveis hierárquicos e com muita autonomia. Em 2017, resolvemos unir a operação com a Semco Style Institute, outra empresa do Ricardo, da qual também virei sócio e responsável pela expansão internacional e conteúdo. Hoje, facilitamos essa transformação através de um novo modelo de consultoria, com experiências de aprendizado presencial e online, além de ferramentas práticas para a gestão da mudança organizacional.

Em paralelo, mudei bastante o meu lifestyle e comecei a me tornar um nômade digital. Junto da Taíssa, passamos a viajar pelo mundo, trabalhando remotamente, e fomos aplicando uma série de conceitos minimalistas (que consiste em reduzir ao máximo os objetos cotidianos, focando mais na experiência do que na posse de bens) para viver uma vida com mais simplicidade e intenção.

Obviamente que isso não era um mar de rosas. O primeiro grande desafio foi a Taíssa encontrar um projeto que conectasse com suas ideias e a permitisse trabalhar remotamente viajando pelo mundo. Assim que fiz meu movimento, passei a ter total liberdade geográfica para trabalhar de onde eu quisesse, mas a Taíssa ainda continuava como analista financeira na FMC, uma multinacional no ramo de óleo e gás.

Eu sentia minha companheira angustiada de ver a minha flexibilidade e não poder sair junto viajando pelo mundo comigo

Para conseguir viajar, acabávamos tendo que focar nos seus breves períodos de férias. Até que, certo dia, ela chegou em casa decidida e disse para nos planejarmos, pois queria largar seu emprego e entrar de cabeça nesse novo lifestyle. Ouvir aquilo foi como música para os meus ouvidos! Esse tipo de decisão era muito importante e tinha que ser tomada com consciência por ela. Não me sentia no direito de forçá-la, pois cada um tem o seu tempo.

Como toda família tradicional, com o intuito de proteger e com medo das incertezas do futuro, a família dela não apoiou sua decisão de abandonar o emprego. Muitas vezes, é difícil argumentar sobre abandonar uma carreira estável, o status e a “segurança” de um bom emprego para seguir o sonho de trabalhar com algo mais conectado com seu propósito — ainda mais quando você ainda nem sabe o que é!

Essa fase durou uns quatro meses, tempo suficiente para planejarmos a nossa primeira viagem em casal para Austrália e Nova Zelândia durante três meses. Nessa fase, eu já estava há um ano com a LeadWise, trabalhando bastante, evoluindo com o formato, mas sem a plena segurança financeira para acalmar todos os nossos demônios internos.

Tínhamos feito uma bela reserva e um planejamento estruturado para não passar perrengue, mas claro que não queríamos torrar todas as nossas economias, já que não estávamos de férias!

Conviver com as inseguranças e com a pressão interna de fazer dar certo o novo estilo de vida foi o mais complexo dessa equação

Viajamos muito, vivendo experiências como saltar dos maiores bungee jumps na Nova Zelândia, viver semanas em motor-homes na Austrália, nadar com elefantes na Tailândia, fazer safáris num balão na África do Sul… Sempre com o laptop e uma boa conexão de wi-fi.

No entanto, eu sabia que nessa nova jornada existiriam muitos altos e baixos. Aprender a lidar com as incertezas, e não querer controlar tudo e todos, seria nosso maior aprendizado! Após alguns meses, depois de uma conversa no trem, em Amsterdam, com uma brasileira que estava morando na cidade há cinco anos, a Taíssa teve o insight para criar o blog Bora Morar Fora, que mostra as motivações, desafios e detalhes do dia a dia de brasileiros que moram fora do país. Isso foi muito importante, pois ela conseguiu dar um passo fundamental na sua própria jornada e começou gerar valor com um projeto que tem um belo senso de contribuição.

Mas essa vida traz diversas outras dificuldades, como a distância da família, amigos, e do nosso cãozinho Haole, que pesaram e pesam bastante. Tentamos minimizar essa saudade voltando pelo menos uma vez a cada três meses para o Brasil, para nos reenergizar com praia, cerveja, churrasco, samba e muitos sorrisos e abraços!

Outro ponto, que tem sido um constante aprendizado, é entender e respeitar as diferenças e modos de pensar como casal. Como ficamos praticamente todos os dias juntos, é normal termos atritos e discussões, invadirmos os espaços de cada um. Mas o mais legal é como resolvemos nossos problemas, buscando desenvolver nossa empatia, reconhecer nossos erros e surpreender um ao outro nos pequenos detalhes do dia a dia. E estamos muito felizes de concretizar uma nova etapa do nosso relacionamento ano que vem com nosso casamento!

Hoje, tenho orgulho de ter visitado mais de 50 países, e a sede por mais só aumenta. Em paralelo à LeadWise, estudei cada vez mais as áreas de desenvolvimento humano e organizacional, que também se tornaram a minha paixão. Como o coaching havia me ajudado muito durante a minha transição, resolvi explorar ainda mais essa área e acabei me especializando e praticando bastante.

Frequentei eventos, fiz cursos, conversei com pessoas e encontrei de tudo: desde profissionais extremamente competentes, com bastante estudo e intenção em seus projetos, até pessoas completamente perdidas na vida, que estavam se propondo a “ajudar” outras ainda mais perdidas, numa espécie de ciclo vicioso, com discurso apelativo e barato.

Isso me deixou um pouco receoso de seguir em frente nessa área, mas a partir do momento que eu pude ajudar as primeiras pessoas e ver uma real transformação em suas vidas, não tive dúvida que essa era a minha arte!

Isso tudo me ajudou a criar o conceito de Life Strategist. Passei a trabalhar com algumas técnicas como o coaching, mentoring e life hacking, ajudando jovens profissionais e empreendedores a se tornarem protagonistas de suas próprias vidas. Ou seja: descobrir sua arte, trabalhar com o que ama e modelar seu lifestyle para viver uma vida com mais sentido e liberdade. Que era exatamente a transformação que eu havia vivido — e continuo vivendo. 

Hoje, entendo melhor a beleza da impermanência e do poder de evolução e adaptação que temos dentro de nós

Somos verdadeiras metamorfoses ambulantes e deveríamos utilizar cada vez menos o verbo “ser”, e cada vez mais o verbo “estar”. Eu “estive” jogador de vôlei de praia, eu “estive” estudante de publicidade, eu “estive” diretor na L’Oréal. Hoje, “estou” nômade digital, eu “estou” empreendedor, eu “estou” lifestyle strategist.

Amanhã espero “estar” muitas outras coisas relacionadas às minhas paixões, valores e sonhos. E te convido a refletir sobre a sua história, e responder de maneira sincera os seguintes questionamentos: Você tem orgulho de tudo o que você “esteve” e “está” hoje? O que você quer “estar” amanhã? Qual o primeiro passo que você pode dar hoje em direção a uma vida com mais sentido, liberdade e alinhada com o seu “estar” do amanhã?

 

 

Ian Borges, 30, é formado em publicidade. Empreendedor, é nômade digital e coach na Lifestyle Strategist.

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