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Da mistura de metais preciosos com “lixo” nascem as ecojoias de Carol Barreto

- 18 de setembro de 2017
Ela uniu Biologia à ourivesaria e ouviu muito “não” antes de assinar a criação das joias ecológicas que ela produz devagar, sob demanda — e que são a cara do Rio de Janeiro.
Ela uniu Biologia a ourivesaria e ouviu muito “não” antes de assinar a criação das joias ecológicas que ela produz devagar, sob demanda — e que são a cara do Rio de Janeiro.

Quem nunca se encantou por uma embalagem e quis guardá-la, mesmo depois que o produto dentro dela já tenha acabado? A carioca Carolina Barreto, 32, não só guardou – e guarda – frascos que iriam para o lixo, como os combina a elementos nobres para criar pequenas preciosidades. Em geral, é isso que está por trás da Ecojoias Carol Barreto. Porém, a beleza, como tudo na vida, não está só no geral, mas especialmente nos detalhes. Da timidez de vender, nas praias do Rio de Janeiro, o que ainda era bijuteria (e ver muita gente fazendo cara feia para seu trabalho) à possibilidade de expandir sua arte para o mundo, a marca tem crescido na medida em que o conceito de sustentabilidade tem avançado, de 12 anos pra cá. Sem pressa.

Aos 20 anos, Carol cursava Biologia e teve que trancar a faculdade porque a empresa em que estagiava, na área de Biotecnologia, fechou as portas e ela ficou sem ter como pagar as mensalidades. “Foi realmente porque faliu que eu tive aquele pé na bunda que te leva a se mexer”, conta. A forma que ela encontrou de “se mexer” foi transformar o que já fazia para uso próprio (bijuteria comum) em uma atividade comercial.

O BRILHO PODE ESTAR EM QUALQUER LUGAR

“Sempre montei minhas bijuterias porque eu não achava as coisas diferentes no mercado. Só que, como eu não tinha noção de onde comprar material, comprava um conjunto de colar e brinco, desmontava e botava o pingente que vinha do colar, no brinco. Eu ia transformando e criando”, diz.

O brinco Contraponto (vermelho e preto, na foto), de Carol Barros, é feito de chapa de radiografia e plástico. Custa 58 reais.

O brinco Contraponto (vermelho e preto, na foto), de Carol Barreto, é feito de chapa de radiografia e plástico. Custa 58 reais (foto: Sintonia Photography).

Carol conta, também, que sempre teve um olhar atento para qualquer material. “Quando a Coca-cola lançou uma garrafa dourada de Natal, eu achei a garrafa linda e pensei: ‘não dá pra jogar isso fora, mesmo que seja para a reciclagem’. E comecei a criar peças a partir daquele material.”

Com o tempo, surgiu o interesse em fazer um curso para aprender a criar joias a partir de metais preciosos: a ourivesaria. Carol começou a entender melhor sobre esse universo por dentro quando foi trabalhar na joalheria H.Stern. Rapidamente, o conhecimento técnico no manuseio de ouro e prata (principalmente a prata) foi incorporado às peças que ela já fazia intuitivamente. “Fui agregando outros materiais, como o PEAD (polietileno de alta densidade), que é encontrado em embalagens de xampu, amaciante… São plásticos mais durinhos, geralmente com cor”.

ORELHAS ADORNADAS E OUVIDOS ATENTOS

Antes, porém, de agregar esses novos materiais e montar uma empresa propriamente dita, a designer de joias fazia acessórios despretensiosamente, apenas para os mais chegados. “Comecei criando para as amigas, bem sem noção, mesmo. Não tinha nem embalagem. Até que o primeiro cliente me perguntou: ‘você não vai me dar embalado, não?’ Aí eu fui evoluindo”.  Atenta às críticas, o começo foi bem pé no chão, ou melhor, na areia:

“Eu era muito envergonhada. Para superar isso, coloquei uma meta: vender na praia. Se eu passasse por isso, enfrentaria depois qualquer coisa (risos)!”

No início, nas palavras da própria Carol, “foi rejeição total”. Segundo ela, poucos eram os que topavam pagar por algo que “vinha do lixo”, mesmo o preço sendo, inicialmente, em torno de 4 reais. “Na época eu ainda trabalhava muito com a garrafa PET e depois comecei a trabalhar com alumínio. E aí não se falava tanto sobre sustentabilidade. Então, eu explicava para as pessoas o que era e primeiro elas só ficavam me olhando. Depois que eu explicava que era a garrafa do refrigerante, era muito comum a peça ser rejeitada”. Hoje, mais de uma década depois, ela colhe os louros por não ter desistido. “Fui persistindo e conhecendo outras pessoas que foram elogiando.”

O tempo passou e o pequeno estúdio improvisado em seu quarto, em uma residência na região central do Rio de Janeiro, foi substituído por um ateliê em Maricá, no interior do estado, que é onde ela mora hoje em dia, com o marido Mauro Vital, sócio da Ecojoias (responsável pela parte administrativa) e a filha de três meses.

CARIOCA DE CORPO E ALMA

Longe da agitação do centro urbano, em meio à natureza de Maricá, ao som de Nando Reis, Jack Johnson e de Engenheiros do Havaí nasceu o entusiasmo para criar os acessórios cujas cores e formas remetem à sua terra. “Minha inspiração é o estilo carioca, que sempre curti. Essa coisa de praia, pé descalço ou só com um chinelo. Bem descontraído e colorido… leve! Minhas peças todas são levinhas”.

Exemplos disso são os brincos Peixe, feitos com reaproveitamento de plásticos de diversos tipos, com base hipoalergênica em aço, que custam 69 reais (o par), ou os brincos Souvenir, feitos de plástico e alumínio de latinhas de bebida recolhidas pós-consumo, com os Arcos da Lapa desenhados (56 reais) e que têm versão gargantilha. Há também colares, pulseiras, braceletes e anéis supercoloridos. Em média, são encomendadas 100 peças por mês.

Em geral, as matérias-primas vêm das próprias clientes de Carol, que já separam o que foi usado em casa (como o PEAD, que está presente em vários produtos de uso doméstico), mas até papel e chapas de radiografia servem para ser transformados em joias. As cores vivas de suas criações não vêm de um processo de tingimento convencional, mas de embalagens plásticas. “Acontece muito de uma cor sair de produção porque não tem mais aquela embalagem no mercado, ou porque o fabricante muda a cor do produto. Mas o bacana é isso, ter um produto exclusivo”, conta a designer.

E os metais nobres? Geralmente, a prata é usada no acabamento das peças (ela até trabalha com ouro, mas só por encomenda). Tudo é feito à mão, com ferramentas da ourivesaria, mas sem maquinário específico.“O trabalho é todo delicado, o corte, tem toda uma precisão que eu aprendi na joalheria”, diz. As peças só passam por uma fábrica na finalização do processo, para ganhar o acabamento em aço que as torna hipoalergênicas.

SLOW E PERSONALIZADO

A produção das joias ecológicas é feita 100% em cima dos pedidos, evitando, com isso, o desperdício de ter disponíveis no ateliê peças que não necessariamente serão vendidas. Ao acessar a loja virtual isso se percebe no prazo para postagem dos pedidos, que é de 10 dias úteis (tempo que Carol leva para confeccionar a peça exclusivamente para o cliente).

Mas não é só o que está disponível para compra online que passa pelas mãos da designer de joias. Viu por aí um produto com frasco um frasco estiloso, que gostaria de usar feito um brinco? É só pedir, que ela faz. “Sou aberta a tudo, o cliente pode personalizar como ele quiser. Tem gente que fala ‘Carol, você não tem noção, agora eu vou ao mercado e fico olhando a embalagem das coisas!’”

Quanto ao portfólio, geralmente há uma coleção por ano, em um processo que a empreendedora define como slow (devagar, na tradução do inglês). Mas, a menos que as marcas por trás das embalagens utilizadas modifiquem seus produtos, as coleções nunca saem de linha. Nos últimos meses, porém, Carol não está desenvolvendo novas peças, pois está em um “momento maternidade”, dando atenção total à pequena Luna.

Ao menos por enquanto, a produção não será repassada a ninguém, afinal tem sua assinatura. “A maior parte das ecojoias eu faço sozinha. Em outras, faço o protótipo e passo para o ourives, que faz as próximas peças. É tudo artesanal. Ainda não consegui passar para alguém que fizesse com a mesma qualidade”

Aqui vale outra reflexão sobre a passagem do tempo e o valor que existe em respeitar o próprio tempo, confiar em si. É a transparência de Carol com o consumidor que faz com que, hoje, a designer de joias que antes vendia bijuterias a 4 reais e era criticada, consiga cobrar de 27 a 200 reais aproximadamente pelas peças, sem que isso seja colocado em dúvida. “Tenho peças com 93% de upcycling (material reciclado) e outras com 30%. Essa porcentagem vai numa tag, para a pessoa saber o que ela está comprando”, conta. E fala do amadurecimento do mercado:

“Hoje as pessoas entendem muito mais o conceito da sustentabilidade e a maioria aceita, porque tenho um preço de mercado”

Carol prossegue: “Tem clientes que me procuram pelo conceito, mas tem quem vá comprar porque achou a peça linda e, aí, é interessante explicar o conceito por trás”. A durabilidade reforça a pegada sustentável: “O material que iria para o lixo é o que mais dura. Tem gente que tem peça de quando eu comecei e ainda está inteirinha. Imagina quanto tempo aquilo demoraria para entrar em decomposição na natureza?”. Uma garrafa plástica, 400 anos.

TUDO SE APROVEITA

Para a precificação, ela considera o custo da marca em si (registrada) e da loja virtual; a matéria-prima (quanto maior a porcentagem de prata, por exemplo, mais caro fica) e o tempo que leva para fazer os acessórios. Mas sempre tentando se colocar no lugar de quem consome. “Mesmo sendo sustentável e que às vezes eu demore 4h pra fazer uma peça só, não posso colocar um preço absurdo. Sempre tento pensar se eu pagaria, se estivesse comprando”. O diferencial da Ecojoias Carol Barreto está, de acordo com a idealizadora, está na forma de encarar a matéria-prima que vem do descarte:

“Eu olho para o material, por mais que venha do lixo, como algo nobre. Cada pedacinho de um plástico é aproveitado ao máximo”

Dos 30 reais investidos “quando tudo começou”, ou seja, ao fazer os primeiros produtos para vender, hoje a marca, que não tem loja física, conta com uma representante de vendas no Rio e parceiros na Cidade Maravilhosa (como o tradicional bar Rio Scenarium, no centro), em São Paulo e na França. E, claro, o e-commerce, que começou há sete anos, mas só começou a gerar lucro líquido há três.

Numa observação da própria trajetória até o momento, Carol considera que o mais importante foi, desde o início – do primeiro cliente “oficial” que cobrou uma embalagem -, lidar bem com comentários a respeito do que fazia. “O grande diferencial pra você fazer crescer sua empresa é saber ouvir, tanto a crítica positiva, quando negativa”. Não foram poucas as críticas e até mesmo os calotes que, segundo ela, tomava “por ingenuidade” vendas iniciais, mas agora, pelo menos no e-commerce, isso não é mais um problema.

Os próximos passos? “Quero chegar em alguns pontos com a marca, internacionalmente e crescer mais com a loja virtual”. A ex-estudante de Biologia segue consciente de seu papel no mundo, na preservação ambiental, como parte de uma transformação. “Sou eternamente otimista. Se cada um fizesse a sua parte, por mais que ela seja ínfima, já teríamos um mundo melhor. Não basta ficar esperando que grandes movimentos aconteçam. A gente tem que começar pela gente”.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Ecojoias Carol Barreto
  • O que faz: faz: Joias que combinam prata (e outros metais preciosos) a materiais reciclados
  • Sócio(s): Carol Barreto e Mauro Vital
  • Funcionários: 4 (incluindo os sócios)
  • Sede: Maricá (RJ)
  • Início das atividades: 2005
  • Investimento inicial: R$ 30 reais
  • Faturamento: em média 100 peças vendidas por mês
  • Contato: (21) 3732-1726 e (21) 99707-2337
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