Do campo até a mesa: o trabalho da Quitandoca começa cultivando produtores agroecológicos

- 1 de maio de 2017
Equipa da Quitandoca, um posto avançado de agroecologia encravado na capital paulista.
Equipe Quitandoca: Mauricio cavallari (sócio), Julia Spelta (atendimento), Janaina Fragoso (coordenadora), Gabriella Matos (sócia), Thiago Montiel (sócio) e Clarice Catunda (atendimento loja).

Recheada de caixas de feira, cestas de vime e prateleiras de madeira com produtos frescos, a Quitandoca é um mercadinho fotogênico da nova geração. Posicionada no bairro de Pinheiros, em São Paulo, comercializa apenas produtos agroecológicos – um processo produtivo mais interessantes do que o orgânico, do qual falaremos adiante. Agora, importa o seguinte: além de vender seus produtos, a Quitandoca também ajuda a organizar a produção desses pequenos produtores, oferecendo apoio técnico e logístico para que encontrem o público consumidor na metrópole. Não é apenas um hortifruti, como também um posto avançado dos mais de 70 produtores parceiros.

Para contar a história da Quitandoca, começo por sua rua. Até poucos anos atrás, a Guaicui era uma quebrada escondida, bem perto do movimentado Largo da Batata, na capital paulista. O Pitico abriu as portas em 2015, quando seus quatro sócios transformaram um estacionamento em um restaurante descolado e simples, vendia apenas dois kebabs, um suco e uma cerveja — tudo montado em contêineres ao redor de cadeiras de praia, mesas de ripa e vasos de planta. Foi a partir dali que a Guaicui, hoje cheia de bares e restaurantes, encontrou sua vocação gastronômica. A Quitandoca é a filha mais nova dessa iniciativa.

Na Quitandoca, o preço é transparente e está na etiqueta dos produtos.

Na Quitandoca, a etiqueta dos produtos indica o produtor e também os custos.

Gabriella Mattos, 3o, é a sócia do Pitico que deu o ponta pé na quitanda. Os outros sócios são Piero Mazzamati, Thiego Montiel, Mauricio Cavallari. Juntos, eles investiram 100 mil reais no projeto, de recursos próprios.

Formada em Geografia, Gabriella vem de uma trajetória ligada a grupos de consumo, essas organizações que fazem contato direto com os produtores e distribuem cestas de produtos entre os amigos participantes. Fez parte da Comerativamente, grupo que já tem 15 anos de vida, 60 membros fixos e 110 flutuantes. Foi nessa experiência que ela encontrou a semente da Quitandoca, plantada junto com Janaina Fragoso, gestora ambiental de 33 anos.

Gabriella e Janaina se conheceram faculdade. Gabriella queria abrir a Quitandoca e sabia da afinidade da amiga com o tema. O mestrado de Janaína é em agricultura orgânica pela Universidade de Córdoba, na Espanha, o curso que cunhou o termo agroecologia. Antes disso, havia trabalhado no Ministério do Desenvolvimento Agrário – “…finado Ministério”, suspira Jana – em um projeto que mapeou todas as associações e cooperativas de agricultores familiares do estado de São Paulo. Esta experiência marcou sua trajetória e deixou clara a vontade de contato direto com os produtores, em campo.

Janaina não é assim muito da cidade. Mesmo que esteja morando na capital, de vez em quando, quando você vai ver, ela já está na roça. Ela é a coordenadora do projeto Quitandoca, e foi quem conversou comigo no quintal do Pitico numa manhã encharcada de verão:

“O produtor sabe plantar. Não tem a manha de ficar no computador fazendo nota, escrevendo edital. Se ele não estiver na terra todo dia, não vai sair planta”

Ela prossegue: “Fazer controle de ervas daninhas, de insetos, é um trabalho sem final de semana, feriado, férias. O que nós queremos é compartilhar ferramentas técnicas e tecnológicas com esses trabalhadores”.

É MAIS QUE ORGÂNICO, É AGROECOLÓGICO

Após entrar em contato com diversas cooperativas em São Paulo, Janaina entendeu que ou existe um ente estruturado (como prefeitura, ministério ou ONG) que cede um funcionário para acompanhar os produtores e articular com a burocracia, fazer projeto e planilha, ou os agricultores vão patinar, sem acesso a linhas de crédito ou programas oficiais de apoio. É este desafio que provoca a Quitandoca.

Uma ressalva: nem tudo que é orgânico é bom. Você pode ter uma monocultura orgânica, que não utiliza agrotóxicos mas ainda é nociva ao meio ambiente por sua escala monótona. O produtor agroecológico utiliza mão de obra familiar e trabalha exclusivamente em pequena propriedades. A Quitandoca entende que a produção do orgânico já entrou em uma lógica de mercado como outro produto qualquer (com o diferencial de não usar químicos) enquanto o a agroecológica mantém princípios mais interessantes, como considerar o impacto ambiental da produção, manter relações justas de trabalho e ter uma perspectiva social.

A produção agroflorestal é mais complexa do que a monocultura. Janaina conta que seu papel é gerar complexidade, organizar diversas espécies no mesmo chão:

“A agroecologia não precisa de químicos. A bananeira é usada para cobrir o solo, a folha de uma planta controla as lagartas, e assim vai. Há muita coisa nova para aprender. Cara, eu nem sabia que existiam 20 tipos de banana!”

E então, encontraram a enorme diversidade de nossa flora. A princípio, muitos produtores dizem que possuem poucos produtos para comercializar, arroz e feijão, maçã e banana. “Mas maçã nem dá direito no Brasil. E nós perguntamos das outras culturas que eles tenham. Feijão guandu? Cará moela? Manacubiu? A gente quer tudo”, conta ela, comprometendo sua quitanda a buscar produtos não óbvios. Assim, em vez de sair de com cinco produtos de cada sítio, sai com 30.

UMA AGRICULTURA FEMINISTA

A parceria fundamental aconteceu com as as agricultoras de dois grupos de mulheres quilombolas atendidas pela Sempreviva Organização Feminista (SOF), no projeto de assistência técnica do extinto MDA pelo qual Janaína lamentou há pouco.

Janaina e Gabriella visitam a Terra Seca, comunidade de mulheres produtoras de agroecologia do Vale da Ribeira, em São Paulo.

Janaina e Gabriella visitam a comunidade de mulheres do Vale do Ribeira, no litoral sul de São Paulo. A Quitandoca as ajuda na formalização e na logística, não só comprando a produção.

Formada só por mulheres, a SOF trabalha para a autonomia da mulher, fomentando a formação de grupos para a comercializar a produção de agricultoras do Vale do Ribeira, no litoral sul de São Paulo. A relação só deu liga quando as agricultoras entenderam que a Quitandoca compraria todos os seus produtos, não apenas os tradicionais. Após muita conversa, sentaram para desenhar a parceria no final de 2015, meses antes da Quitandoca abrir. Janaína conta isso e, em seguida, relativiza o meu trabalho, o dela e o seu também:

“Você acha que está fazendo alguma coisa da sua vida? Desculpa, mas elas é que estão: mulheres organizadas, em condições precárias, produzindo alimento sem veneno e reconstruindo a Mata Atlântica”

Ela conta que o grande problema do processo, porém, é o preço baixo praticado nas compras oficiais, tudo muito barato e apenas alguns itens repetidos. Para mudar isso, as agricultoras, as técnicas da SOF e a Quitandoca fizeram algumas oficinas de precificação com o objetivo de entender qual seria o preço final praticado na Quitandoca. Também prestaram outros serviços, como a oficina de preenchimento de nota do produtor e de planejamento da produção, sempre buscando oferecer apoio técnico e burocrático aos agricultores, especialistas em fazer comida.

COMO TRADUZIR SONHOS EM UM NEGÓCIO VIÁVEL

A Quitandoca abriu suas portas apostando na venda de cestas fechadas, baseadas na sazonalidade, nas quais os clientes não poderiam escolher os produtos que levariam. A ideia era educar o público de que só dá para ter morango no verão brasileiro se você abusar de insumos químicos (portanto, morangos na cesta da Quitandoca só quando for tempo de morango). Queriam, também, criar uma relação com o trabalho dos produtores. Mas… não funcionou. Os clientes vinham até a loja queriam escolher os itens da cesta. Como assim não posso montar minha cesta?

Quando a realidade se mostra diferente do que foi idealizado, é hora de ser flexível. Isso acontece não só com quem está tentando vender produtos agroecológios na cidade grande, mas com qualquer empreendedor, em qualquer ramo. Rapidamente, a Quitandoca mudou de estratégia quando às cestas: não só abriram a possibilidade de o cliente fazer as escolhas (dentro do possível, da sazonalidade) como começaram a oferecer as cestas também por um delivery, administrado pelo Whatsapp de Janaina e Gabriella.

Mas às vezes uma solução cria um problema novo. E não demorou para Jana se afogar na logística infinita de debater e organizar dezenas de pedidos pelo chatzinho do celular. Agora, elas apostam em receber esses pedidos via site, em um sistema que deve ficar pronto em breve.

Ela e Gabriella entendem que a Quitandoca tem, atualmente, dois grandes desafios: um é separar ativismo de comércio e o outro é melhorar sua logística. O negócio começou com custos altos, aceitando perdas, comprando mais de determinados produtos que acabaram estragando. Há uma curva de aprendizado, que é normal. Mas, além disso, a Quitandoca ainda não conseguiu equacionar os fretes coletivos dos (muitos) pequenos produtores de quem compra.

NOVAS ESTRATÉGIAS PARA PROSPERAR

Hoje, quase um ano depois, a operação já está se pagando. A equipe foi reformulada e o faturamento aumentou. O projeto para este ano de 2017 é passar para o positivo. Recentemente, eles investiram em uma câmara fria e fizeram mais contratações. Nivaldo Girardi, que toma conta da loja, do delivery, liberou Jana desta parte da operação.

A Quitandoca usa a sinergia com o Pitico para oferecer um café da manhã agroecológico, sempre aos domingos.

A Quitandoca usa a sinergia com o Pitico para oferecer um café da manhã elaborado com produtos agroecológicos, sempre aos domingos.

Outro acréscimo ao projeto é Pedro Valiati, que desde outubro passado trabalha no administrativo do restaurante Pitico, mas deu contribuições importantes à Quitandoca.

Um dia, encontrou Jana e Gabriela, conversaram muito, e ele sacou a distinção necessária ao negócio: uma coisa é a assistência técnica, o fomento aos agricultores, a logística, a formação dos grupos de consumo, fortalecer a rede — tudo isso dá sentido ao trabalho e precisa acontecer. Mas outra coisa é a loja, que tem seus custos, tem que faturar, tem que aumentar seus clientes.

Assim, conseguiram separar melhor e colocar no papel o que cada área precisa fazer para andar. Uma das consequências dessa nova estratégia foi que, então, começaram a promover cafés da manhã orgânicos. Eles acontecem sempre aos domingos. Usa-se espaço, equipe e cozinha do Pitico para processar os produtos agroecológicos da Quitandoca e criar, por exemplo, maionese de inhame com curcuma, caponata e moqueca de jaca verde, pesto de cenoura. Agora, já possuem um livrinho de receitas para ajudar quem compra os orgânicos a saber o que fazer deles. A brochura nem tem nome, e é vendida na própria quitanda por módicos cinco reais.

A verdade é que a Quitandoca é muito mais um projeto político do que econômico. Seu investimento nos elos mais fracos da cadeia produtiva é um sopro de ar fresco em um setor que, historicamente, achata produtores sem dó. Se tudo der certo, a loja se estabelece e seu caixa passa a financiar a assistência técnica prestada na outra ponta, junto aos agricultores familiares. E você? O que está fazendo da sua vida?

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Quitandoca
  • O que faz: Vende produtos agroecológicos enquanto fomenta agricultura familiar
  • Sócio(s): Gabriella Mattos, Piero Mazzamati, Thiego Montiel, Mauricio Cavallari
  • Funcionários: 5 (Gabriella e 4 funcionários)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: fevereiro de 2016
  • Investimento inicial: R$ 100.000
  • Faturamento: R$ 80.000
  • Contato: quitandocaa@gmail.com e (11) 3582 7367
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