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“É preciso saber escolher. Cabe a nós, consumidores, manter as florestas brasileiras em pé”

- 21 de abril de 2016
Aline Tristão, bióloga, é diretora do FSC no Brasil e conta algumas curiosidades sobre a certificação de madeira no país.

por Aline Tristão

Mais da metade do nosso território é coberto por florestas. Desse total, cerca de 60% são formados pela Amazônia. Isso representa um terço das florestas tropicais do mundo! São 350 milhões de hectares. E, ainda assim, boa parte dos brasileiros nunca chegou perto da floresta.

Você, por exemplo, já viu uma floresta de pertinho?

Assim, não dá nem para imaginar quão poderosa ela é – no sentido opressor mesmo, de nos fazer sentir muito pequenos, mas também na capacidade de nos deixar extasiados. De longe, é difícil mesmo se conectar. Se responsabilizar. Mas é preciso.

O potencial econômico da Amazônia é enorme. Segundo o Plano Nacional de Florestas (PNF), a região abriga as maiores reservas de produtos madeireiros (60 bilhões de m³ em tora) do mundo. Atualmente, floresta produtiva é tida como a principal resposta para a demanda futura de madeira, fibra, energia e comida. Com tanto verde, é possível gerar riquezas constantemente. Desde que, claro, o manejo seja feito de forma correta.

Certificações, como o FSC, oferecem um link confiável entre a produção e o consumo responsáveis de produtos florestais, permitindo que sejam tomadas decisões em prol do bem das pessoas e do ambiente. Por isso, vou aproveitar este espaço, para mostrar que é importante – e simples – comprar consciente e responsavelmente.

Então, você sabia que:

1) A cada um minuto, uma área equivalente a dois campos de futebol é desmatada na Amazônia?
O manejo florestal responsável é um poderoso mecanismo para valorizar – e valorar – a floresta. O incentivo à economia florestal é muito importante para, justamente, fazer com que a Amazônia tenha mais valor em pé do que no chão.

2) Deixar de consumir madeira não ajuda a evitar o desmatamento?
Apesar de quase metade da madeira que chega ao mercado nacional ser ilegal e a outra metade pouco ou nada confiável em função da ineficiência do sistema público de comando e controle, essa lógica torta é dos principais motores para continuidade da ilegalidade e da falsa legalidade. Ao não consumirmos seus recursos de forma sustentável, deixamos de valorizar a floresta como tal. O que passa a ter valor é o solo e ela é derrubada para dar espaço a usos bem menos nobres quando se trata do bioma amazônico, como a criação de gado e a plantação de soja.

3) Os produtos de origem florestal estão muito mais presentes no nosso dia a dia do que imaginamos?
Papéis, livros, revistas, embalagens, lápis, lousas, rolhas, móveis, objetos de decoração, portas, janelas e pisos… Comidas e bebidas como erva mate, açaí, castanha… Tenha a garantia de que estes produtos vêm de florestas bem manejadas.

4) A extração responsável de madeira é lucrativa e deixa a floresta descansar?
Uma das técnicas de corte ambientalmente correta divide a porção da floresta que será explorada em vários pedaços, chamados módulos ou talhões. E depois da extração, a floresta descansa por décadas! São retiradas apenas algumas árvores com valor comercial, que estejam com idade e tamanho suficientes, e espera-se o tempo necessário para a mata se regenerar. No caso do mogno, por exemplo, são 30 anos!

5) O que parece ser o fim dos recursos naturais é, na verdade, o mecanismo para a sua conservação?
Ao extrair a madeira – e outros produtos de origem florestal – de forma responsável, dentro da capacidade de reposição das florestas, cria-se um incentivo para a sua sobrevivência. A floresta é um organismo vivo, rico e resiliente. Por meio de um planejamento cuidadoso do que pode ou não ser retirado e sob a ótica da sua sobrevivência, essas técnicas ajudam a preservar sua flora, fauna e habitantes. Não à toa, o slogan do FSC no mundo é “florestas para todos para sempre”.

A madeira tropical da Amazônia oriunda de manejo florestal responsável precisa voltar a fazer parte da vida de todos nós. Substituí-la nem de longe é solução.

O fundamental – e cada vez mais urgente – é dar valor às florestas em pé. E nós, consumidores, somos o começo deste processo

A ilegalidade, com seus preços mais “competitivos”, impacta diretamente no meio ambiente, na qualidade de vida das comunidades locais e na incapacidade do mercado reagir para competir com produtos responsáveis.

Antes de comprar qualquer coisa, é preciso pensar em sua procedência e se questionar se você quer sustentar aquela cadeia”. A base de toda boa escolha é o conhecimento.

 

Aline Tristão Bernardes, 51, é bióloga e tem mestrado em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre. Participou da formação de inúmeras reservas ambientais no Brasil. Foi diretora do Instituto Terra (de Sebastião Salgado) e desde novembro de 2015, é diretora executiva do escritório nacional do Forest Stewardship Council – FSC.

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