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Ela completou a São Silvestre de muletas. Virou velejadora e quer ganhar medalhas para o país

- 17 de março de 2016
Marinalva de Almeida: pronta para novas conquistas – agora no mar (foto: Valter Stoiani)

 

O caminho de Marinalva de Almeida foi difícil desde os seus primeiros passos, ainda em Santa Isabel do Ivaí, no Noroeste do Paraná, onde nasceu e viveu até os quatro anos. “A gente acordava muito cedo. Às quatro da manhã, minha mãe já estava preparando a marmita. O nome boia-fria é porque a pessoa que trabalha no campo não tem onde esquentar o prato e come a comida fria mesmo.” Separada, a mãe não tinha com quem deixar os filhos e levava a prole junto (Marinalva é a caçula de seis filhos). Iam para a roça de caminhão, com outros trabalhadores rurais, e a criançada suava no cultivo do algodão, na colheita do café e da cana-de-açúcar. “Até para não ficar ocioso, a gente trabalhava.”

Quando Marinalva tinha quatro anos, a família se mudou para Campo Grande. Por um tempo, sobreviveram da venda de quibes e de coxinhas que ela e a irmã ofereciam de porta em porta. Chegaram a retornar para o Paraná por conta das dificuldades, mas, depois de dois anos, decidiram voltar para a capital do Mato Grosso do Sul. A mãe conseguiu um emprego de zeladora em uma empresa de construção civil e a menina foi para a escola.

O acidente aconteceu em 1992. Marinalva tinha 14 anos. “O namorado da minha irmã estava de moto e eu fiquei insistindo: deixa eu dar uma voltinha na quadra, deixa…” O rapaz cedeu. “Quando peguei a moto, eu fui looonge… Fui quase até o Centro, bem distante da minha casa.” Sem capacete e sem noção de trânsito, Marinalva entrou em uma avenida movimentada, perdeu o controle do veículo e foi atingida por um carro. “Minha perna ficou esmagada. A rótula do joelho se quebrou em cinco partes, fora as fraturas expostas na coxa e na canela.”

Foram seis horas de cirurgia, e cinco dias com os médicos tentando evitar a amputação. “No quinto dia, me levaram para a sala de curativos. Já tinha ido várias vezes, mas aquele foi o dia fatal… Tinha dado trombose.” Como ela era menor de idade, o hospital solicitou à mãe a autorização para fazer a amputação. A mãe se recusou. “A gente não conhecia nenhuma pessoa com deficiência. Como é que a filha dela iria viver sem perna?” Foi preciso que a irmã autorizasse a cirurgia.

Para mim, é tranquilo falar sobre o acidente porque sei que fui eu a responsável. Foi a minha imprudência que fez com que isso acontecesse. Graças a Deus, ninguém mais se machucou.” Marinalva teve alta do hospital após 22 dias. O carinho dos familiares foi fundamental. “Nós não tínhamos estrutura financeira, mas tínhamos muita união. A presença das pessoas mostrando que me amavam, dando suporte, foi muito importante.”

Corrida de muletas

Passado o baque, a adolescente se obrigou a tocar a vida com atitude. No Centro de Educação Multidisciplinar ao Portador de Deficiência Física (Cemdef), entrou em contato com pessoas que enfrentavam dificuldades maiores que as dela. “Eu via gente sem as duas pernas que fazia mais coisas do que eu! E pensava: ‘pô, eu estou muito mole!’” Foi no Cemdef que Marinalva aprendeu a nadar e se iniciou no atletismo: arremesso de peso, lançamento de dardo, de disco. Participava de competições, mais preocupada em divertir-se do que em vencer, e também em manter a condição física que precisava para as atividades do dia a dia, incluindo o uso de muletas.

Ela não chegou a concluir o ensino médio: casou cedo, engravidou aos 17 anos e passou a dividir o tempo entre a casa e o trabalho como telefonista. O ritmo era puxado e o esporte perdeu espaço. Com cerca de 20 anos, Marinalva começou a usar uma prótese. “Mas era de qualidade inferior, machucava muito, imagine um sapato apertando o seu pé o dia inteiro…” Os dias eram longos, ela acordava às cinco da manhã e ia dormir às onze da noite. Mesmo assim, insistiu por quatro anos. “Aí, a prótese quebrou, eu não tinha como arrumar e pensei: ‘Quer saber? Na hora em que eu tiver condições de conquistar uma perna, vai ser uma prótese muito boa.”

Marinalva deu à luz o segundo filho, e depois de uma década, pôs um fim ao casamento e foi morar na casa de um irmão em Salto (SP). Ela chegou a ter dois empregos ao mesmo tempo, um em Itu e outro em Sorocaba. Suas noites de sono duravam menos de quatro horas. Para melhorar a vida profissional, fez três vestibulares em quatro anos (jornalismo, administração e psicologia) e foi aprovada nos três. Sem tempo para frequentar as aulas, desistiu dos estudos.

Durante um curso de assistente administrativa no SENAI, conheceu Edmar Wilson, técnico de atletismo que tem uma paralisia no braço esquerdo. Edmar insistiu: por que você não corre? “Eu pensava: esse cara é doido, mas ele dizia: ‘Mari, nos Estados Unidos, muitas mulheres disputam provas de muletas!’”. Até que, num domingo, ela se levantou cedo e, sem avisar (já tinha um novo marido e um terceiro filho), foi participar de uma corrida de 10 km em Itu. “Comecei a correr, fiz 3 km, ah, estou bem.” Duas adolescentes reduziram o ritmo para dar apoio e ajudá-la com a garrafa d’água. “Aquilo me estimulou tanto, achei tão bonita a atitude.”

Mari completou a prova em Itu e muitas outras depois. Aprendeu a confiar em seu potencial e começou a colecionar participações e medalhas em torneios de atletismo e provas de corrida. Em 2011, num evento no Parque do Ibirapuera, virou a recordista brasileira do salto em distância paradesportivo, com a marca de 2,47 m. No último dia de 2012, foi a primeira mulher a concluir a São Silvestre de muletas, percorrendo os 15 km da tradicional prova paulistana em 2h19. “Diziam que a Brigadeiro seria terrível, que tinha muita subida”, lembra ela, sobre o aclive da Avenida Brigadeiro Luís Antônio. “Eu poderia ter feito um tempo muito melhor se não tivesse me poupado tanto!”

Velejadora e modelo

O feito rendeu visibilidade e boas novas ao longo de 2013. Uma delas foi o convite para integrar o Time São Paulo Paralímpico, projeto reunindo paratletas de alta performance visando a preparação para os jogos de 2016, no Rio de Janeiro. Um único porém: a equipe de atletismo já estava preenchida e só havia vaga na vela adaptada, modalidade completamente nova para ela. Mari se mudou de Sorocaba para São Paulo e iniciou os treinos na Represa de Guarapiranga.

Naquele ano, ela começou também a “conquistar uma perna”, como dissera. Em meados de 2013, viajou à Califórnia com a expectativa de conseguir uma lâmina para prótese esportiva do Loma Linda University Medical Center, hospital universitário da cidade. “Cheguei de vestido, muletas e salto alto – salto 15! O médico comentou: ‘se ela consegue usar esse salto de muletas, não tem prótese que ela não consiga usar!’” Marinalva cativou a equipe médica de tal maneira que o hospital se mobilizou para presenteá-la com duas próteses. De uma empresa de Sorocaba, especializada no ramo, conseguiu uma com salto alto.

“Atleta não precisa estar sempre vestido de atleta. Sou vaidosa, adoro salto!” Após o acidente, ela temia nunca poder usá-los, mas tirou a dificuldade de letra. “Mesmo de muletas, ando que é uma beleza. Pode ter paralelepípedos, escada, e lá está a Mari de salto!” A vaidade se uniu à militância, e ela entrou no mundo da moda: fez fotos para um calendário com outras amputadas, participou de desfiles inclusivos para a Lado B, grife da fisioterapeuta Dariene Rodrigues, e embelezou a passarela com uma coleção do estilista Fernando Cozendey de peças para gente que foge dos padrões. Chegou até proposta de uma agência de modelos da Europa – mas aí ela priorizou o esporte, e disse “não”.

Desde 2015, Marinalva vive em Niterói, treinando na Baía de Guanabara, que receberá as provas de vela adaptada. Apenas o filho do meio foi com ela. Estar longe dos filhos é difícil, assim como a rotina de treinos, de terça a sábado. Sua dupla na vela é Bruno Landgraf, ex-goleiro do São Paulo que ficou tetraplégico em um acidente de carro. Em maio de 2015, eles enfrentaram seu primeiro grande teste juntos: ficaram em 15º lugar na classe Skud 18 em uma regata em Medemblik, na Holanda.

Aos 38 anos, prestes a realizar o sonho de representar o Brasil em 2016, Mari ainda é capaz de recordar o que sentiu há quase 25 anos, no momento em que deixou o hospital. Acomodada na cadeira de rodas, percebeu que olhava os outros de baixo para cima. “Quando você está de pé, você está na altura das pessoas. Na cadeira de rodas, sendo empurrada por alguém, lembro nitidamente de uma sensação de inferioridade. O choque de ver todo mundo me olhando, os olhares de pena, de tristeza.” Essa sensação nunca mais se repetiu. “Hoje, as pessoas me olham com admiração. Com alegria.”

 

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