Ele apostou em realidade virtual quando mal se falava nisso. Hoje, a UView360 vai transmitir das Olimpíadas

- 2 de agosto de 2016
A lenda do windsurf Robby Naish (acima, com Jason Polakow) foi o primeiro cliente de Charles como produtor de vídeos, antes de fundar a UView360.
A lenda do windsurf Robby Naish (acima, com Jason Polakow) foi o primeiro cliente de Charles como produtor de vídeos, antes de fundar a UView360.

Você sabe como são as corredeiras de água onde acontecem as provas de canoagem olímpica? Pois saiba que, ao som de riffs de guitarra e ouvindo o remo bater na água, você pode experimentar o que é estar dentro de uma canoa olímpica (é sério! clica aí…) durante 1 minuto e 30 segundos. A experiência é possível graças a uma parceria entre o COB e a UView360, empresa carioca que, há oito anos — uma eternidade, em se tratando de tecnologia e startups — percebeu que investir em vídeos feitos em 360 graus seria um bom negócio. Até chegar ao Time Brasil (canal oficial da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos), o caminho foi longo, passou por alguns de desertos e muitos murros n’água. Sempre com emoção.

O clipe de “O Lado Escuro da Lua”, do Capital Inicial, de 2012, foi gravado no Deserto do Atacama, no Chile. Naquela imensidão, os integrantes da equipe de filmagem (luz, som, assistentes de direção) muitas vezes precisaram andar mais de meia hora de carro para não aparecerem na cena que seria gravada a seguir. Não era possível ficar atrás das câmeras, pois o clipe estava sendo filmado em 360 graus — e, se tudo é mostrado, essa “coxia” simplesmente deixa de existir. “Tudo é novidade nesse tipo de produção, até para os próprios profissionais. Não dá para ter muito controle de enquadramento, de luz. Nós temos de fazer malabarismo”, conta Charles Boggiss, 37, um dos fundadores da UView360, empresa responsável pela produção do vídeo.

Se para os profissionais de vídeo em geral realizar filmes em 360 graus é uma demanda recente que requer aprendizado, para os sócios e funcionários da UView, que fica no Jardim Oceânico da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, esse foi um desafio que veio antes mesmo de o mercado se mostrar promissor. A empresa foi uma das primeiras a produzir conteúdo em realidade virtual no Brasil, há oito anos. Charles lembra:

“No começo, nem nós sabíamos o que seria possível fazer com a tecnologia 360 graus. Convencer os primeiros clientes, então, foi uma luta”

Para contar a história da UView e de como Charles precisou acreditar em sua ideia e esperar o mundo amadurecer para ela, é preciso voltar um pouco no tempo. Em 2000, ele era atleta de windsurf e morava no Havaí, nos Estados Unidos. Para melhorarem no esporte, Charles e os amigos filmavam uns aos outros na água. Ele era o responsável da turma por editar as filmagens. Certa vez, Charles mostrou um dos vídeos que editou para Robby Naish, lenda do windsurf, e ele se interessou em comprá-lo por cerca de 1 000 dólares. “A partir de então, percebi fazer vídeos de esportes podia ser um bom negócio”, conta.

O fundador da UView360 Charles Boggiss e sua sócia, Karina Firme, num evento de seu maior cliente, o Grupo Globo, este ano.

O fundador da UView360 Charles Boggiss e sua sócia, Karina Firme, num evento de seu maior cliente, o Grupo Globo, este ano.

A primeira incursão de Charles com filmes em 360 graus aconteceu quando ele já estava de volta ao Brasil, em 2008. “Eu estava obcecado com uma animação de fotos em 360 graus que havia visto e decidi fazer algo parecido. Fotografei paisagens desse jeito e em time-lapse e juntei o material para parecer um filme”, conta. Segundo ele, a confecção do vídeo foi demorada e a resolução das imagens utilizadas não era das melhores, mas o resultado foi recompensador. Dois anos depois, Charles viajou ao Canadá e adquiriu uma câmera que filmava em 360 graus – foi quando os experimentos começaram a ficar mais sérios.

A DUREZA DE INVESTIR NUMA TECNOLOGIA ANTES DELA CHEGAR

Durante meses, ele saiu de carro por bairros cariocas, como a Barra da Tijuca, com o objetivo de mapear a cidade em imagens 360. “Isso muitos antes de o Google Street View chegar ao Rio”, afirma. A ideia era produzir conteúdo para apresentar aos clientes em potencial, que buscava com um recorte estratégico:

“Sempre miramos nos clientes grandes, tentamos fazer projetos para o Grupo Globo antes de qualquer coisa. Não queríamos fazer festa de aniversário, nada disso”

No começo, o nome da empresa era Veja360. Isso só mudou no ano passado com a entrada de Karina Firme, 43, como sócia para ajudar na gestão. “Queríamos tornar o nome mais internacional”, conta ela. Segurar a onda enquanto a realidade virtual ainda não se confirmava como mercado real foi bem difícil. “Muitos clientes que recusaram nosso trabalho no começo batem na nossa porta hoje. Na época, eles não entendiam nossas propostas porque nunca tinham visto nada parecido”, conta Charles.

O bolso demorou a encher, mas o pioneirismo trouxe algo de valioso para a UView: experiência. “Estamos no mercado há mais tempo do que a maior parte dos concorrentes e sabemos o que dá certo e o que não dá simplesmente porque já fizemos de tudo”, conta o empreendedor, que segurou a onda como visionário durante anos, até o negócio vingar. Charles diz nunca ter perdido a confiança de que seu sonho era possível. “O que me motivava era seguir fazendo testes, ajudando a criar uma linguagem, convencendo empresas a apostarem no nosso trabalho”, conta.

SEM BANDA LARGA, SEM NEGÓCIO

Do começo da empresa para cá, muita coisa mudou. Segundo a Deloitte Global, o setor de realidade virtual deve faturar 1 bilhão de dólares em 2016 – e quase um terço das receitas deve vir da venda de conteúdo. Uma das mudanças que tornou o mercado possível foi na velocidade da internet. “No começo da empresa, até baixar um filme era demorado. Não era fácil convencer as pessoas de que a nossa tecnologia era possível”, conta Charles.

Outra barreira importante ruiu em abril deste ano, quando tanto o YouTube como o Facebook passaram a suportar imagens em 360 graus (hoje, repare, elas têm no canto uma imagenzinha com círculos sobrepostos). “Antes de o YouTube permitir a transmissão ao vivo de vídeos em 360 graus, tinhamos problemas porque, quando recebíamos muitos acessos, nosso servidor não aguentava”, afirma ele.

Hoje, a UView fornece tanto vídeos pré-produzidos quanto o serviço de transmissão de eventos ao vivo. A transmissão de um evento esportivo, por exemplo, com duração de 2h30, custa de 10 a 18 mil reais (fora o custo da banda de internet, que é por conta do cliente). Por sua vez, a gravação de um filme de 2 minutos em 360 graus fica entre 8 e 20 mil reais.

Alguns dos principais clientes da startup são o Grupo Globo, a empreendedora de shopping centers Multiplan, a montadora Hyundai e a fabricante de bebidas energéticas Red Bull. “Só para o Grupo Globo, fizemos desde prévias dos desfiles de todas as escolas de samba do Rio e de São Paulo para o G1 até pornô para o canal Sexy Hot”, diz Charles. Como produtora de vídeo e fornecedora de serviço de transmissão ao vivo em 360 graus, a UView espera faturar um pouco acima dos 500 000 reais do ano passado.

A UView360 produziu uma série de vídeos com Gabriel Medina para o Esporte Espetacular, da Rede Globo.

Vocação para imagens de ação: a UView360 produziu uma série de vídeos com Gabriel Medina para o Esporte Espetacular, da Rede Globo.

Um dos primeiros trabalhos da UView para um grande cliente foi um tour filmado pela Cidade do Rock, no Rock in Rio 2011. Alguns dos projetos mais recentes foram encomendados por companhias chinesas, russas e brasileiras com o propósito de mostrar um pouco do Rio de Janeiro em virtude das Olimpíadas. A startup também esteve à frente das primeiras experiências audiovisuais em 360 graus de eventos esportivos, como o Mundial de Surf, o Skate Bowl e o BMX Escadaria de Santos e uma série de filmagens com o surfista Gabriel Medina para o Esporte Espetacular. “Nossa especialidade, desde sempre, são os vídeos de esportes”, conta Charles. Nesse ínterim, a empresa produziu também um vídeo do desastre ambiental de Mariana.

O FUTURO, ENFIM, CHEGA

Uma das novidades da empresa é o desenvolvimento de um aplicativo que possibilita que o usuário assista a vídeos em 360 graus no smartphone mesmo que esteja offline. “Funciona como o Spotify, é possível baixar vídeos para ver depois”, afirma Charles. O app tem o mesmo nome da empresa, UView360. Charles e Karina, sua sócia, também querem passar a criar aplicativos personalizados para os clientes que encomendam vídeos. “Também conseguimos integrar o player de vídeos em 360 graus num app já existente se o cliente preferir”, diz Karina.

Para os sócios, boa parte do conteúdo consumido nos próximos anos deve ser influenciado pela realidade virtual. “Neste ano, fomos à NAB Show, uma feira anual de conteúdo que acontece em Las Vegas, e um dos pavilhões do evento era inteiramente dedicado à realidade virtual”, conta Karina. Segundo ela, os vídeos em 360 graus que mais fazem sucesso tanto no Brasil quanto no exterior são os que promovem as chamadas “experiências de primeira fila”. “É como se levássemos o público a um lugar privilegiado num show ou desfile, por exemplo”, afirma. Transportar o espectador para uma outra realidade é o futuro do entretenimento e um trunfo e tanto – especialmente para quem acreditou nisso antes dele chegar.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: UView360
  • O que faz: Vídeos em 360 graus pré-produzidos e transmitidos ao vivo
  • Sócio(s): Charles Boggiss e Karina Firme
  • Funcionários: 10
  • Sede: Rio de Janeiro
  • Início das atividades: 2008
  • Investimento inicial: NI
  • Faturamento: R$ 500.000 (em 2015)
  • Contato: (21) 97912-8666
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