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Engenheiros que criam sonhos: a Mobilis tem um mini carrinho, elétrico, nacional. E quer ganhar as ruas

- 22 de novembro de 2017
Os sócios da Mobilis: Marcos dal Moro, Paulo Zanetti, Thiago Hoeltgebaum e Mahatma Marostica.
Os sócios da Mobilis: Marcos dal Moro, Paulo Zanetti, Thiago Hoeltgebaum e Mahatma Marostica.

Pense num Smart Fortwo movido a eletricidade e mais barato que o carro da Mercedes-Benz. Assim é o Li, um dos primeiros veículos elétricos produzidos totalmente no Brasil, fabricado pela Mobilis, empresa de Florianópolis. Criada em 2013 por três engenheiros formados pela Universidade Federal de Santa Catarina, o objetivo da Mobilis é encontrar soluções inteligentes para a mobilidade urbana. “O próprio nome vem de um jogo com essas palavras”, diz um dos sócios, o engenheiro mecânico Mahatma Marostica, 33, que prossegue: “Buscar soluções de mobilidade é o nosso feijão com arroz. Nosso propósito é a mobilidade sustentável”.

Por isso, eletricidade em vez de gasolina. Por isso, um projeto com peças essencialmente nacionais. Por isso, um preço menos. E, também por tudo isso, eles se depararam com um desafio enorme: a indústria automotiva de larga escala. Além de ser um ambiente super competitivo — capaz de esmagar novatos com facilidade — há também a questão dos custos (que podem ser insignificantes para uma grande montadora, mas não para pequenas empresas) de se fazer, assim de cara, um carro para brigar com os grandões do mercado.

Batizado de Li, o modelo tem bateria de lítio e pode rodar em condomínios fechados e clubes. Uma versão com portas e maior velocidade (100km/h em vez de 40km/h) é o próximo passo.

Batizado de Li, o modelo já está no mercado e roda em condomínios fechados e clubes. Uma versão com portas e maior velocidade (100km/h em vez de 40km/h) é o próximo passo da Mobilis.

A legislação brasileira exige, por exemplo, que automóveis produzidos em larga escala tenham airbag e freio ABS (importantes para carros que partem das cidades para a estrada). Outra coisa curiosa a se pensar: portas e ar condicionado, requisitos básicos para qualquer veículo, encarecem demais o preço final. Não há escapatória: sem produzir em larga escala, fica impossível competir com as grandes montadoras – especialmente sem ter certeza de que o público está disposto a aderir à novidade.

O que fazer? Começar pequeno. Bem pequeno. E tudo bem. A solução encontrada pela Mobilis foi criar um “veículo de vizinhança”, praticamente um carrinho de golfe. Isso significa que, por ora, o Li pode circular somente em ambientes fechados, como campos de golfe, hotéis, indústrias e condomínios. Com velocidade máxima de 40 quilômetros por hora e 50 quilômetros de autonomia com uma carga de bateria elétrica de 6 horas, o modelo básico custa 50 mil reais. A diferença dele para os carrinhos similares do mercado, porém, é justamente ter sido pensado para uso comercial no futuro. A Mobilis já vendeu uma unidade do Li, e está com um pedido para entregar mais cinco.

“Os carrinhos vendidos no Brasil custam na faixa dos 43 mil reais, mas por serem importados perdem muito no pós-venda”, diz o outro sócio, o engenheiro eletricista Paulo Zanetti, 28. Enquanto os carrinhos de golfe usam pneus específicos e importados, que custam em média 600 reais a unidade, os pneus do Li são como os de carros de rua, vendidos no varejo por em média 150 reais. O mesmo vale para outras peças: 70% dos componentes do Li são fabricados no Brasil, o que também reduz o tempo de espera em caso de necessidade de reposição.

Os sócios dizem que na bateria o Li também sai na frente, usando a tecnologia de Lítio (daí o nome do modelo), que não exige manutenção e dura cerca de dez anos. As usadas em carrinhos de golfe são de chumbo ácido e exigem reposição de água semanal. “Nós melhoramos a oferta para uma demanda já existente, pois não há comparação técnica do Li com o que é vendido no mercado hoje. E fazemos isso com um preço bastante competitivo”, diz Paulo.

UM PEQUENO ABRE ALAS PARA UM OBJETIVO MAIOR

Mais que isso, para a Mobilis, o Li serve ao mesmo tempo para criar capital de giro para investir no objetivo final quanto para testar o nível de desejo e viabilidade do projeto. Mahatma fala dessa estratégia:

“Partimos do princípio de que podemos errar bastante, mas temos que errar barato. O veículo de vizinhança era o MVP para isso”

Para chegar a essa conclusão, ele conta, foi preciso muita pesquisa e aprender na raça algo que a faculdade de engenharia não os ensinou: como empreender e montar o próprio negócio.

Levou um ano para que Paulo, Mahatma e o terceiro sócio, o engenheiro mecânico Thiago Hoeltgebaum, 28, definissem a estratégia que seria adotada pela Mobilis. A história tem dois lados. De um, Paulo, recém-formado, e Thiago, cursando mestrado sempre na UFSC, planejavam criar um triciclo elétrico. De outro, Mahatma, que tinha experiência como gerente de produtos em uma montadora de Joinville (SC) e desejava criar um veículo compacto pensado para centros urbanos, por preços mais acessíveis que o Smart. Pelo que chamam de “rede UFSC”, os três se conheceram e decidiram unir forças. Passaram 2014 inteiro estudando o mercado e os atributos que o produto deveria ter antes de colocar as ideias no papel e começar a de fato prototipar o Li.

O período também foi crucial para fazer um pé de meia e conseguir bancar as despesas da empresa. Em 2016, com 150 mil reais de um investidor anjo e outros 150 mil reais de economias próprias dos três, os sócios largaram seus empregos e passaram a se dedicar integralmente à Mobilis. O orçamento foi usando no aluguel de um espaço, na contratação de quatro estagiários e nos gastos com o protótipo em si. “Sempre foi tudo bastante enxuto e buscamos fazer muito com pouco”, diz Paulo. A filosofia segue na montagem do próprio Li. A ideia é que seja possível montar 250 veículos por ano em um espaço de 230 metros quadrados, tamanho de uma concessionária. Thiago fala de sua transformação em empreendedor:

“Vindo da engenharia, tudo é muito novo. Tivemos que entender sobre leis fiscais, aprender a transmitir desejos de usuários em um projeto de veículo, e, mais que isso, a gerir pessoas”

A Mobilis começou com três pessoas e hoje tem 15. “Precisamos mostrar a todos que eles são parte desse sonho”, segue Thiago. Até para ajudar nesse sentido, o administrador Marcos dal Moro, 34, tornou-se sócio da startup em 2015 para trazer uma visão mais “humana” ao projeto dos três. Ele fala de sua missão específica, que poderia ser mais árdua e não é: “Vejo que mesmo sendo engenheiros eles conseguem motivar de uma forma natural, escutando nossas opiniões e levando para frente, em um ambiente descontraído que para mim era bastante incomum até então”.

HORA DE COLOCAR O SONHO NA RUA. FALTA MAIS UMA GRANINHA

A primeira etapa dos planos da Mobilis foi concluída. O Li está pronto para ser comercializado; aguarda somente novos investimentos para a produção em maior escala. A estimativa de Paulo é de que 300 mil reais sejam necessários para produzir 10 veículos de vizinhança e gerar capital de giro para o projeto final. “A maior parte do capital de risco já saiu do caminho, pois validamos a ideia de que muita gente teria interesse em comprar um veículo como o Li para uso nas cidades”, afirma Paulo. Agora, falta o pontapé para o objetivo final: colocar o Li nas ruas.

Em mais pesquisas realizadas pelos sócios para viabilizar a ideia, eles descobriram ser possível produzir veículos sem os requisitos de airbag e ABS, não tão essenciais para quem anda somente na cidade, proposta do Li — cabe ressaltar que as portas continuam fundamentais. Mas há um caminho: existe uma legislação que permite a produção de veículos em pequenas séries, de até 100 unidades por ano. Usando a mesma plataforma do Li, com inclusão de portas e ar condicionado e aumento da velocidade máxima para 100 quilômetros por hora, o novo modelo poderia ser comercializado por 60 mil reais.

Para produzir essa nova versão, porém, os sócios precisam de um novo pé de meia. As estimativas são de que seria necessário um investimento de 2,5 milhões de reais. Se alcançado, a projeção é de que pela primeira vez a empresa gere faturamento, com um potencial estimado de 5,4 milhões de reais no primeiro ano e 9,4 milhões de reais no ano seguinte.

Fisgados pelo empreendedorismo, os sócios não pensam em parar e têm mais projetos engavetados, como um patinete para ser usado como veículo de “última milha” (da casa para o metrô e vice-versa, por exemplo). Mas o sonho é maior que um patinete. “Queremos criar veículos de quatro lugares que possam ser usados como Uber ou táxi, ou como caminhoneta de entrega para dentro da cidade que não atrapalhe tanto o trânsito”, diz Thiago, e olha longe: “Espero que a gente se torne referência em mobilidade elétrica e sustentável, não necessariamente em veículos”. Para isso, eles estão se mexendo.

DRAFT CARD

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  • Projeto: Mobilis
  • O que faz: Carros elétricos
  • Sócio(s): Paulo Zanetti, Mahatma Marostica, Thiago Hoeltgebaum e Marcos dal Moro
  • Funcionários: 15 (incluindo os sócios)
  • Sede: Florianópolis
  • Início das atividades: 2014
  • Investimento inicial: R$ 300.000
  • Faturamento: R$ 50.000 (2017)
  • Contato: contato@mobilis.me e (48) 3024-3519
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