Espalhar a ideia da arte pública em BH: o objetivo na mira do Atentado Poético

- 27 de abril de 2017
Arte urbana: grafite no muro em frente à Fundação Torino Escola Internacional, obra de Clara Valente, Luis Matuto e Raquel Bolinho
Arte urbana: grafite no muro em frente à Fundação Torino Escola Internacional, obra de Clara Valente, Luis Matuto e Raquel Bolinho

 

 

O Atentado Poético começou com um grupo de alunos da Fundação Torino Escola Internacional de Belo Horizonte, inspirados no Book Crossing – o “abandono” de livros em pontos estratégicos da cidade. Desde 2003, entretanto, a intervenção foi se sofisticando e incluindo a produção de textos próprios, apresentações musicais, exposições e se transformando no que eles definem como “laboratório de produção e recepção de textos verbais e não verbais, caracterizando-se pela contínua experimentação de linguagens e pela busca de interação entre o teatro, a literatura, a música, as artes plásticas e a fotografia.” No dia 25 de março, o Atentado Poético “atacou” novamente. Nesta sua 14ª edição, o tema da vez foi a arte pública e, para isso, os alunos contaram com a parceria da quartoamado, galeria já conhecida por suas intervenções artísticas na cidade.

O time, que se preparou durante um mês, apresentou ao público o resultado dessas reflexões e atividades numa feira de arte urbana, com a presença da comunidade e de artistas convidados, como Clara Valente, Luis Matuto e Raquel Bolinho, que participaram da criação do grafite na foto em destaque. A arte está no muro do estacionamento em frente à escola, colorindo o dia de quem passa no local. “Ficou com uns 15 a 20 metros de largura por dois de altura”, diz o curador da quartoamado, Bernardo Biagioni.

A feira ocorreu no bairro Belvedere e, além da inauguração do painel de grafite, teve intervenções cênicas, espaço para doação e troca de livros e até de mudas e sementes, exposição e venda de obras de artistas convidados, lambes poéticos, biciRango e food trucks. O local escolhido foi a rua Jornalista Djalma Andrade. “O Belvedere é um espaço que não costuma ter muitas expressões artísticas”, analisa Bernardo. “Esta intervenção que fizemos foi uma oportunidade de realmente repensar o território. Muitas pessoas foram ao local por causa do evento”, comemora.

A professora da Fundação Torino e coordenadora do Atentado Poético, Daniela Mendes, calcula que, dentre alunos, artistas e público, cerca de 600 pessoas participaram da feira. “Foi um público acima do esperado. E só de fotos postadas no Instagram com a hashtag #atentadopoetico foram aproximadamente 500”, conta.

“No ano passado, trabalhamos o tema ‘A cidade que temos e a cidade que queremos’ e levamos para as ruas, em formato flashmob, o resultado de nossas reflexões”, relembra Daniela. “Desta vez, as ruas e o espaço público estão novamente inseridos, mas com um outro viés. Atentos às discussões que envolvem hoje a arte urbana, trouxemos a arte pública como eixo temático para a nossa 14ª edição do Atentado Poético”, conta a coordenadora.

“Encerramos esta edição muito felizes pois, mais uma vez, os alunos aderiram e se envolveram muito em todas as etapas da realização do projeto. Foi uma experiência transformadora. A arte pública não é um tema normalmente trabalhado nas escolas, embora seja uma das mais marcantes formas de expressão da contemporaneidade. Trazendo o tema para a discussão, geramos pensamento crítico e criativo e trabalhamos o olhar dos alunos para ler a cidade”, explica.

Os alunos se prepararam com seminários, bate-papos com artistas urbanos, pesquisadores, arquitetos e galeristas sobre temas como intervenções artísticas, agricultura urbana, origem da cultura hip hop, direito à cidade e outros. Também participaram de aulas e oficinas, incluindo grafite, estêncil e hand-lettering, com participação de artistas convidados.

Sarah Machado, de 15 anos, estuda na Fundação Torino desde a educação infantil e aprovou a experiência deste ano: “Já participei de três ou quatro Atentados. No ano passado e neste ano pude participar mais. O deste ano foi o que eu mais gostei”, diz, ela que agora está no 2º superiore, nível que equivale ao 1º ano do ensino médio na metodologia europeia usada pela escola. “Quando você começa uma intervenção, acaba atraindo a atenção das pessoas, às vezes mais do que a gente espera. Achei que foi bastante gente. Desta vez a gente trouxe a arte para mais perto, na rua da escola. Não vemos muita arte de rua no Belvedere. Isso trouxe vida para o bairro. Por que não fazer arte onde não costuma ter, né? O movimento foi grande, não só de pais e alunos, mas também de outras pessoas”, conta.

Ela elogia o modo como a preparação foi feita e reconhece que isso mudou seu modo de enxergar a arte. “A gente conheceu de verdade os artistas, fizemos preparação com eles. Falaram como é difícil e como funciona o trabalho. Com essas palestras e oficinas, a arte ficou mais palpável para nós. Antes era mais inacessível. Antes eu via uma pintura, um grafite, e era só uma mancha. Agora eu vejo o que tem por trás disso. Agora a gente anda de carro e eu fico procurando os bolinhos da Raquel pela cidade”, explica.

Matheus Barcellos, de 16 anos, também está no 2º Liceu e concorda com a Sarah que os organizadores acertaram no Atentado deste ano: “Geralmente o Atentado acontece em praças da cidade, mas este ano a organização escolheu trazê-lo para a região da escola. Usaram a área do estacionamento, o que permitiu uma exposição de vários tipos de trabalhos e artes. Teve foodtrucks, venda de obras de artistas convidados, artistas desenhando pessoas, intervenções ao vivo de teatro, execução do grafite no muro, uma intervenção do nosso professor de biologia, que usou um protótipo de fogão solar dele para fazer pipoca, eu toquei violão para minhas amigas cantarem… Enfim, a experiência foi outra, com a estrutura que a escola criou. Isso agradou e atraiu muita gente. Gostei mais”. Matheus estuda ali há nove anos e já participou de “cinco ou seis Atentados”.

É como eles mesmos costumam dizer: “em março, a Fundação Torino respira e pulsa arte”. As aulas ganham temáticas e contornos diferentes, os alunos articulam apresentações públicas, declamações poéticas, intervenções cênicas e se preparam para o encontro com a comunidade. “Acho que foi transformador, muito potente o que fizemos junto com a escola. É bem legal uma escola abrir essa reflexão e colocar os alunos em contato com a arte desta maneira. Os alunos se engajaram com o projeto, estavam ali porque queriam. Foi muito positivo e com certeza vai ter desdobramentos positivos com a turma e com a comunidade”, avalia Bernardo, parceiro da Fundação Torino nesta edição por meio do quartoamado.

 

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