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“Eu não pude hackear o tempo. Minha única saída foi seguir em frente”

- 16 de dezembro de 2016
Rodrigo Bardin conta o que aprendeu no hiato de dois anos — em que ficou aprisionado ao sonho de morar fora, mas não tinha visto — tentando hackear o tempo (foto: Olivier Ramirez).
Rodrigo Bardin conta o que aprendeu no hiato de dois anos — em que ficou aprisionado ao sonho de morar fora, mas não tinha visto — tentando hackear o tempo (foto: Olivier Ramirez).

 

por Rodrigo Bardin

Em tempos onde tudo parece ser “customizável”, “mexível”, “programável”, “transformavél”, uma das coisas mais importantes de nossas vidas definitivamente não é: o tempo. “O tempo marcha para frente, nunca para trás. Nunca fica parado.” Já parou pra pensar de verdade nisso? Falamos e falamos como o tempo passa rapidamente, mas não creio que saibamos o real significado do que isso representa de verdade. E é algo que tenho refletido sem parar no último ano.

Em maio de 2012, interrompi uma carreira para experimentar e, especialmente, viver e aprender uma nova cultura e novos métodos de trabalho na Hyper Island em Estocolmo, Suécia. Definitivamente, a experiência mais intensa da minha vida. Daquelas que mudam tudo e que tinha como objetivo abrir as portas do mundo e fazer com que a vida caminhasse do jeito que eu queria. Mas, por uma razão bastante estúpida, tornou-se uma experiência que me deixou preso em pensamentos, e até atitudes, por um bom tempo. Dois longos anos.

Processos de visto de trabalho na Europa são difíceis. Mas ficam ainda mais quando você não consegue ver nenhuma opção diferente daquela que planejou inicialmente. Após o término do meu programa na HI, eu tinha uma proposta de trabalho em uma agência em Berlim, na Alemanha. Mas isso não foi suficiente para o meu visto ser expedido, então tive que permanecer no Brasil.

Se não fosse o mundo, não seria nada. Esse pensamento me cegou e me impediu de enxergar a oportunidade de criar mudanças no país em que nasci. É um dos meus maiores fracassos

Mas é preciso entender como cheguei até aqui. Após cinco anos (de um total de nove no mercado financeiro), eu deixava a área de Marketing Institucional do Itaú para o curso em Estocolmo. Foi uma pausa, digamos, em uma carreira ascendente dentro do banco — havia sido promovido duas vezes em pouco mais de um ano e recebido prêmios por performance por dois anos consecutivos — para a realização de um tipo de sonho cultivado desde criança: viver fora do Brasil.

Há coisa melhor do que realizar um sonho? Ainda mais daqueles que temos quando ainda nem sabemos direito o que é o mundo e o que fazer nele?

Conheci a HI num período de férias em um almoço com André Matarazzo e Fernanda Jesus, fundadores da Grïngo. Era 2008, ano em que iniciei minha tardia faculdade aos 26 anos (até então, segui carreira sem formação), já trabalhava no Itaú, começava a procurar um apartamento para comprar e era isso. Mas, não, não podia ser isso! Nesse almoço, André contou de suas experiências fora do país, Suécia e Hyper Island. Contou que receberia dois interns (ou estagiários) na Grïngo vindos de lá para passar um tempo no Brasil como a parte final de seus cursos da escola sueca.

Depois desse almoço, foi como se tudo que eu estivesse fazendo ficasse em modo de espera, tomando um “snooze” na orelha por quatro anos. Queria me formar! É até estranho, pois nunca acreditei na forma de ensino das nossas instituições, ao menos da minha profissão. Fiz faculdade para cumprir tabela, mas felizmente lá conheci um tanto de gente incrível que está próxima a mim até hoje. E eu me formei. E eu fui promovido. E não era o bastante.

Aliado ao sonho, perdi o propósito de trabalhar onde estava. Não era por causa de dinheiro, não era por causa de reconhecimento. Era porque eu precisava ver outras coisas acontecendo, numa velocidade diferente. Não me entenda mal: a galera lá trabalha e trabalha muito (e bem). Mas era algo meu, interno.

A publicidade perdia o pouco de sentido que ainda havia pra mim. A recém-criada linha editorial de social media, da qual eu era um dos responsáveis, crescia e já começava a obter reconhecimento do mercado. Mas, ao meu ver, perdia relevância frente ao que acontecia com as pessoas (clientes) no dia a dia da relação com o banco. Claro, era um começo, mas tudo isso se juntou e formou a resposta: era hora! Eu não podia mais esperar. Aqui vale um agradecimento ao Eduardo “Dudex” Camargo, hoje Mutato, pelos grandes papos sobre a nova jornada.

Mais de 20 nacionalidades em Estocolmo, tudo era diferente. Pessoas de 20 e poucos anos, outras de 30 e tantos, 40. De Barcelona, Oslo, Copenhagen, Nova York, São Paulo, São Petesburgo, Cidade do Cabo e por aí vai

Dinâmicas de grupo como eu jamais havia visto. Escute, reflita, compartilhe. Loop. O frio chegou cedo, o pesadelo de encontrar uma residência veio junto (morei em cinco apartamentos diferentes em oito meses), o amor bateu a porta, o curso seguia e coisas eram feitas. Era possível fazer, acertar e errar. Claro, estávamos numa escola, mas como vocês devem saber, todos os módulos na HI estão vinculados a um brief real, com clientes reais.

Era o momento de testar em praticamente tudo. E tive uma certeza: o tal do clichê de “sair da zona de conforto” só se tornou clichê porque muitos dos que falaram disso jamais o fizeram. Desde fazer uma longa apresentação para uma grande audiência em inglês, explorar e trabalhar com diversos perfis e culturas, criar novas referências, a sensação no final do dia é incrível. Do mais básico ao mais complexo.

Depois de um pesadíssimo inverno e de uma escuridão assustadora e depressiva (sim, foi difícil pra c******!), chegava a tão aguardada hora de buscar pelo internship. Apontar para o mapa, lembrar do tanto de convidados que nos deram palestras e workshops ao longo do curso e dizer: para onde eu quero ir? Afinal, a Hyper Island já era, há muito tempo, reconhecida internacionalmente e abria muitas portas.

Curioso que a esta altura, janeiro de 2013, eu não tinha a menor ideia de para onde gostaria de ir ou em qual empresa queria fazer meu internship. Não sabia nem como começar meu portfolio. Era difícil, depois de tantos anos afastado do trabalho de UX e Design, fazer um portfolio que demonstrasse minha capacidade de estratégia digital, ou seja lá como eu poderia chamar a minha função.

Tive que voltar ao Brasil por três meses, e voei novamente para a Suécia para a semana de graduação. Nessa época, 90% dos alunos já haviam feito suas 15 semanas de internship e iriam apresentar seus aprendizados do período para a classe. Eu ainda estava na busca do meu lugar (havia decidido, pelo menos, que gostaria de ir para Berlim). Era ótimo estar naquele ambiente novamente, ouvindo aquele monte de línguas diferentes e junto com os rostos familiares daquela experiência única. Uns ao vivo, outros por Skype, todos contavam o quanto era difícil voltar para a realidade. Mesmo que gostassem do trabalho e estivessem felizes, muitos relatavam que era um pouco difícil tentar inserir as “ferramentas” que aprendemos na escola em um ambiente já consolidado de trabalho (reflexões, check-in/out, ideation etc). Ao final da semana, os últimos feedbacks, as últimas “energizers” e as últimas cervejas antes de todos seguirem suas vidas.

Após um mês e meio entre Suécia e Noruega, remontando o portfolio e tentando me “vender” melhor (sempre ouvi que não sou muito bom nisso), coloquei na cabeça que iria para a Alemanha bater na porta das agências. Ao fechar minha passagem, recebo um email. Uma agência sueca com escritório também em Berlim havia se interessado pelo meu trabalho. Logo depois, outro email, outra agência. Agora vai! Uma semana depois, eu tinha duas propostas. Uma não podia esperar eu voltar ao Brasil para pedir meu visto de trabalho. A outra topou. Foi aqui que as coisas começaram a dar um pouco errado.

Meu visto foi negado. Eu, como cidadão não-europeu, não podia entrar com um contrato de ‘internship’ na Alemanha. O mundo caiu!

Na verdade, o mundo se fechou. O Ministério do Trabalho da Alemanha tem suas regras com instituições de outros países e era isso. A agência retirou a oferta. E eu tinha que começar tudo de novo, riscando do mapa o lugar onde gostaria de estar. Novos emails, novas entrevistas, novas negativas por causa de visto. Estados Unidos, Austrália, Holanda. Um pedaço, uma folha de papel era a ponte entre meu sonho de conhecer o mundo e o de ficar por aqui. A que me era negada.

Decidi dar um tempo, olhar para outras coisas. Fui aprender a fazer comida japonesa, colocando em prática toda a paciência e calma que muita gente diz que possuo. Por dentro, eu queria explodir. Foi, sem dúvida alguma, o período mais frustrante da minha carreira e, mais ainda, da minha vida pessoal. Era difícil explicar, colocar pra fora quando amigos perguntavam. Foi, até agora, o ápice das minhas reflexões internas, da minha tal jornada de autoconhecimento.

A minha vontade de aprender, de fazer, de errar, de acertar, de jogar fora e começar de novo, de brindar o desfecho e comemorar o um novo “algo” que se inicia, tudo começava a ficar para trás. Eu não sentia interesse em voltar a trabalhar no mercado brasileiro, sentia que as coisas ainda estavam como quando fui embora.

Mesmo assim, após alguns meses de luta interna, aceitei uma proposta para trabalhar na Ana Couto Branding, em São Paulo. Queria saber como seria essa volta, caso ela tivesse que ser definitiva. Era, provavelmente, o projeto dos sonhos: inserir o “digital” no contexto de trabalho de branding em uma agência (e com a pessoa, Ana Couto) que fala disso há muito tempo, bem antes do termo virar moda. Permaneci lá por pouco tempo, pois cheguei a conclusão que não estava preparado para o retorno.

Minha cabeça não estava aqui. A minha referência, profissional e pessoal, continuava fora do país. O fato é que eu não consegui me readaptar ao mercado em que estive por toda a vida

Depois de um período experimentando o trabalho de freela, seja com agências ou com outros modelos, estou em uma nova aventura, pois as portas se abriram novamente, quatro anos depois daquele desembarque no aeroporto de Arlanda, em Estocolmo. Sei que muito depende de mim (e a ansiedade se manifesta intensamente aqui em relação ao que não posso controlar).

Muita coisa já mudou nesse período, mas o que permanece é a vontade de buscar alternativas, de estar curioso, de tentar, de abraçar o “porquê” das coisas, de olhar para o erro, ou mesmo fracasso, com a perspectiva de aprendizado ou de oportunidade. De imaginar o mundo, de fazê-lo ficar “pequeno”, sem barreiras e verdadeiramente melhor. Estou a procura de pessoas e empresas que compartilhem desse sentimento, desse propósito. O dinheiro vem depois, consequência e recompensa natural.

Eu não pude, infelizmente, hackear o tempo, e ele passou. Passou assustadoramente rápido!

Mas o aprendizado ficou e a jornada ainda não terminou. É tempo de continuar marchando, avante. Hoje, 28 de novembro de 2016, uma espera de dois anos chegou ao fim: me tornei um cidadão italiano e finalmente posso colocar o problema de visto de lado. Se você estiver lendo esse texto, provavelmente estarei pelo mundo procurando uma nova jornada. Não importa onde eu vá, a primeira coisa que desejo fazer é dar um belo mergulho na cultura local para entender os pontos positivos e negativos a partir da visão das pessoas que estão inseridas ali. Tentarei entender a sociedade e o que posso fazer por ela, seja como um side-project ou um trabalho full-time. Essa espera, esses dois anos de “querer o mundo” valerão a pena no final.

“O tempo marcha para frente, nunca para trás. E ele nunca para.” Você já parou para pensar nisso de verdade? É o que eu tenho feito por um bom tempo.

Saluto.

 

Rodrigo Bardin, 35, publicitário, escreve este artigo da Itália, depois de um grande encontro com Donna Maria, Signore Silvio, e sua família, grandes amigos que fez neste novo momento. Está de malas prontas para Berlim, onde dará um novo reboot da sua vida.

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