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“Existe hora certa para mudar tudo na vida? Só aos 38 eu chutei o pau da barraca. Foi a melhor coisa que fiz”

- 23 de junho de 2017
Existe idade certa para chutar o pau da barraca? Aos 38, Almir Fantin saiu do Brasil para estudar inglês. Ele não sabia que a maior lição seria sobre vulnerabilidade, compaixão e transformação.
Começar a vida significa fazer novas amizades. Aos 38, Almir Fantin saiu do Brasil para estudar inglês e acabou aprendendo muito mais sobre vulnerabilidade, compaixão e transformação.

 

por Almir Fantin

Sabe aquele momento em que você para e pensa: o que estou fazendo com a minha vida? Seu trabalho fica a cada dia mais chato, seu relacionamento beira o fim e seu corpo começa a dar sinais de que é preciso mudar algo? Foi o que aconteceu comigo. Fiquei doente, minha relação chegou ao fim e meu trabalho não me trazia mais nenhuma satisfação, tanto que acabou. Foi neste momento que decidi dar um basta em tudo o que estava acontecendo e buscar novos rumos.

Poucos dias após meu desligamento, comprei um pacote para estudar inglês no Canadá. Parece loucura, mas foi a melhor coisa que fiz na vida

O universo, porém, muitas vezes é ardiloso e coloca seus planos à prova. Alguns dias antes de embarcar, recebi uma proposta de uma grande empresa para assumir um projeto na minha área de atuação. Fiquei balançado, mas de alguma forma eu sabia que esta viagem seria muito importante para mim como profissional e — principalmente — como pessoa. Agradeci pela chance e fui extremamente sincero com as pessoas que me fizeram a proposta, dizendo que esta seria, talvez, minha única oportunidade de fazer esse intercâmbio. Eles entenderam e me incentivaram a ir, deixando as portas abertas caso eu voltasse.

Chegado o dia da minha viagem, deixei a cidade de São Paulo em janeiro, com temperatura acima dos 30°C, para desembarcar em Toronto com suas temperaturas negativas. Você sabe o que é sentir -27°C? Foi um choque térmico. E muito mais. Sendo muito franco, era disso que eu estava precisando. Se você busca por mudança, é preciso sair da zona de conforto e fazer diferente daquilo que está acostumado a fazer, pois somente assim conseguirá entender muitas coisas que durante todo esse tempo não era possível enxergar.

Para ter a experiência que eu realmente precisava, deixei de lado a opção de contratar um quarto de hotel ou o luxo de flat, eu queria conhecer diferentes culturas e contratei o chamado homestay. Minha aventura começa aqui. Homestay nada mais é do que uma casa de família (podendo ser nativos ou não) em que você loca um quarto para se hospedar e pode ter a opção de contratar também café da manhã e jantar, o que eu fiz.

A casa onde fiquei hospedado era de família oriunda das Filipinas, com uma cultura completamente diferente da nossa. Os desafios começaram aí. Quando você está acostumado a bons restaurantes, boas bebidas, e a escolher o que melhor lhe agrada, tudo fica fácil. Minha vida era assim em São Paulo. Era dela que eu estava precisando fugir. Só não sabia como seria o contraste de não ter poder de decisão sobre coisas aparentemente banais como, por exemplo, não saber o que será servido de comida no café da manhã ou no jantar.

Só quando fiquei à mercê da vontade alheia, sem poder de decisão, consegui perceber o quanto sou frágil

Parece besteira usar a palavra “frágil” numa situação como esta, mas com o passar dos dias, percebi que algo extremamente simples e cotidiano pode se tornar um desafio quando se trata de uma vivência com algo que jamais esteve próximo a mim, uma situação em que eu jamais me imaginei. Este era eu nos primeiros dias de Canadá. Cheguei nesta casa num sábado e, na segunda-feira, começavam as minhas aulas.

Tenho 38 anos eu já acumulei uma considerável bagagem de vida. Mesmo assim, o impacto ao entrar na escola de inglês e ver pessoas de diferentes países, reunidas com o mesmo propósito foi algo mais surpreendente do que eu poderia imaginar. Na sala havia gente muito jovem, entre 17 e 25 anos, mas também algumas pessoas mais sêniores, como era o meu caso.

Meu objetivo principal era dar um upgrade no inglês, porém, com o passar dos dias e com o contato diário com os estudantes, passei a ser constantemente procurado para conversar e aconselhar. Nessas situações ficou muito evidente para mim que a experiência de vida e todos os desafios que eu passei até os dias de hoje serviram para algo: eles podiam de alguma forma ajudar essas pessoas.

Eu vivo um contraste. Por um lado, estou longe da minha família e amigos, hospedado em uma casa completamente diferente das que já estive, com pessoas que muitas vezes nem olham na cara ou só estão lá para locar um quarto… Isso para não falar do frio e da nevasca que dificultava o acesso a certos locais que poderiam servir de distração. Viver assim é de deixar qualquer um maluco e prestes a desistir do seu objetivo.

Ao mesmo tempo, estar num ambiente tão desafiador me fez ter consciência de algo inesperado: minha capacidade de ajudar outras pessoas

Me fez perceber como era importante compartilhar as minhas experiências e tentar mostrar que tudo o que estava sendo vivido naquele momento por elas só ajudaria a torná-las pessoas melhores no futuro. Posso afirmar que esses momentos são que mais me impactaram e me deixaram realizado, promovendo a mudança que eu realmente vim buscar. Começar a vida significa, também, fazer novas amizades. Foram muitas e muitas histórias, lágrimas e horas ouvindo pessoas de diferentes países sobre a saudade que tinham de seus familiares, amigos, animais de estimação, comida etc.

Assumi diferentes papéis para ajudá-las, entre os principais o de pai e irmão mais velho. Estar numa posição como esta me levou a ter uma nova visão sobre como viver e como tirar proveito de cada situação que surge diariamente na minha própria vida. Durante todo esse período, estar longe das pessoas que realmente importam para mim (familiares, amigos etc) é uma das piores sensações que pude experimentar. Tive que encontrar forças para colocar de lado esse meu sentimento de carência e, ao mesmo tempo, ajudar esses estudantes a também encontrarem forças para permanecerem no Canadá e concluírem seus objetivos. Uma experiência que transforma qualquer pessoa que deixa de lado o preconceito e busca começar uma nova vida.

Fazer uma mudança radical como essa aos 38 anos pode soar tardio para alguns. Mas para mim foi perfeito e no momento certo. Não tenho do que me envergonhar

Tenho certeza que o olhar que tenho hoje sobre o que estou vivendo é completamente diferente do que eu teria se tivesse feito a mesma viagem antes dos 30 anos. Tudo isso me fez uma pessoa muito melhor pessoal e profissionalmente, abrindo a minha mente para novas ideias e para novos desafios.

Estar em um bom cargo numa empresa depende também da decisão da empresa em me manter ou não naquele local e posição. Estar vivendo uma nova vida ou uma nova experiência, depende única e exclusivamente de mim. Por isso, nunca é tarde para “chutar o pau da barraca” e buscar novas experiências. Me despeço com frase que considero fantástica: “Antes tarde do que mais tarde! O tempo não irá te esperar”.

 

 

 

Almir Fantin, 38, é formado em Administração e tem MBA em Comunicação e Marketing, foi engraxate quando criança e trabalhou como programador até conseguir o primeiro estágio numa empresa. Dali em diante, atuou em grandes corporações até alcançar o cargo de gestor de Marketing. E chutar o pau da barraca.  

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