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Felipe Matos deixa o programa Startup Brasil e conta o que aprendeu em dois anos trabalhando no governo

- 14 de abril de 2015
Felipe Matos ajudou a conceber o Startup Brasil, depois tornou-se diretor geral do programa federal.
Felipe Matos ajudou a conceber o Startup Brasil, depois tornou-se diretor geral do programa federal.

Mineiro de Belo Horizonte, Felipe Matos é um dos pioneiros na construção do ecossistema do empreendedorismo no Brasil. Ele acaba de deixar o Startup Brasil, o programa nacional de aceleração de startups de base tecnológica, do governo federal, e está de volta ao mercado atuando como como consultor e investidor na Startup Farm.

Felipe é daqueles que não pode não estar com a mão na massa, criando empresas, produtos, sistemas. Em 2000, aos 16 anos, lançou o primeiro aplicativo mobile da América Latina, o Girando. Em 2002, fez parte da fundação do Instituto Inovação, uma das primeiras aceleradoras do país. O terceiro round da série “empreender-acelerar-fomentar” viria em 2005, quando ajudou a fundar a Inventta, uma consultoria em inovação, além do fundo de investimento Inseed (que soma mais de 260 milhões de reais). Alguns anos depois, em 2010, já na aceleradora Startup Farm, ele fomentaria negócios como O Entregador e Easy Taxi. Em 2013, Felipe inauguraria uma nova frente de atuação ao assumir o posto de diretor de operações do Startup Brasil, o programa de fomento ao empreendedorismo de startups do Governo Federal.

O convite para trabalhar no setor público pegou Felipe no susto. Ele estava sabendo da iniciativa do governo de criar um programa de fomento ao empreendedorismo tecnológico e chegou, inclusive, a participar de uma reunião, ainda como agente do ecossistema, para conversar com algumas pessoas do governo e entender qual era o objetivo da iniciativa. Mas, até então, nem passava pela sua cabeça que ele poderia ser o gestor. Felipe dá risada quando conta que “alguns dias depois da reunião, meu telefone tocou. Era um dos diretores lá do Ministério da Ciência e Tecnologia perguntando se eu me interessaria em ser o diretor de operações do programa”.

UM DESAFIO MAIOR DO QUE EMPREENDER? ATUAR NO SETOR PÚBLICO

Já com a carreira consolidada no setor privado, Felipe se viu diante do desafio de introduzir no setor público brasileiro — notoriamente conhecido pela morosidade e pela burocracia — a agilidade e a criatividade necessárias para a inovação. Ele fala sobre a reflexão que a proposta o levou a fazer:

“Sempre fui uma dessas pessoas que reclama do governo e dos serviços oferecidos pelo setor público. Se eu dissesse não à Startup Brasil, perderia o direito de continuar reclamando”

O sim, no entanto, veio depois da garantia de que ele teria espaço para criar dentro da rígida estrutura governamental. “A primeira pergunta que eu fiz”, exemplifica Felipe, “foi se eu precisaria usar terno”. Não. Então tudo bem.

Na Startup Brasil, que ocupava 80% do seu tempo, seu trabalho era de COO, Chief Operating Officer, o head do programa. A cada ano, uma verba de 20 milhões de reais é injetada em 100 startups selecionadas, entre milhares de candidatas do mundo inteiro, através de parcerias com as melhores aceleradoras brasileiras. A Startup Brasil seleciona e qualifica essas aceleradoras, que então recebem um selo. Ao todo, 15 aceleradoras em sete estados já foram qualificadas.

Felipe Matos (de óculos, à frente) com participantes do Demo Day da Startup Brasil, ano passado.

Felipe Matos (de óculos, à frente) com participantes do Demo Day da Startup Brasil, ano passado.

Além disso, o programa qualifica também startups, que recebem até 200 mil reais em fomento, como bolsas do CNPq – na forma de uma carta que só podem acionar trabalhando com uma das aceleradoras pré-qualificadas. Novas turmas de 50 startups são selecionadas a cada seis meses, e o programa de aceleração dura um ano. A ideia é que os negócios depois virem empresas investidas por fundos de Venture Capital. Ou seja, o governo apadrinha projetos promissores por um ano para que depois eles consigam caminhar com as próprias pernas, tornando-se atraentes para investimentos privados.

A primeira turma de startups inaugurou o programa em setembro de 2013 e formou-se no fim do ano passado, com dois demo days em novembro de 2014 — um no Brasil e outro em São Francisco, nos Estados Unidos. A segunda turma vai se formar no meio deste ano e a terceira, no final de 2015. Entre as startups que já concluíram o processo de aceleração estão a Frutas em Casa – um modelo de compra de alimentos saudáveis por assinatura – e a Mobgeek – uma plataforma educacional com foco em mercado mobile.

MISSÃO CUMPRIDA, HORA DE VOLTAR ÀS ORIGENS

Com a missão de estabelecer o programa federal cumprida, Felipe, agora aos 31 anos, volta a por a mão na massa na aceleradora Startup Farm, da qual foi sócio sem funções executivas no período em que dirigiu o Startup Brasil (seu sócio Alan Leite tocava o dia a dia durante este período). A expertise da Startup Farm é o garimpo de novas iniciativas com modelo de negócio diferenciado. Mais de 130 empresas já passaram por lá.

Em 2014, eles investiram 2 milhões de reais em negócios como a Rede Inova (empresa de transações de crédito de celular) e o Up Points (tecnologia de reconhecimento de produtos no ponto de venda). “Trabalhamos num modelo diferenciado, de consultoria, capacitação e sponsorship, sem ficar com equity das empresas aceleradas”, diz Felipe. Um dos raros exemplos de empreendedores que reúnem experiência nos setores público e privado, ele compara ambos, em uma síntese:

“Inovar no poder público é difícil porque a inovação nesse ambiente é quase ilegal. Com dinheiro privado, você pode fazer tudo que não está proibido. Com dinheiro público, você não pode fazer nada que não esteja permitido”

Empreendedor desde sempre, sua relação com os computadores começou por volta dos 12 anos, na escola. Seus pais davam duro para que ele tivesse uma boa educação, mas a certa altura ficou difícil bancar a escola particular e Felipe foi estudar em um colégio público. No entanto, o que parecia um problema virou oportunidade: com a base de uma boa escola, suas notas subiram e ele tinha uma facilidade de aprender acima da média. Foi quando conheceu os laboratórios de informática do novo colégio, e os seus olhos brilharam. As aulas, ali, eram apenas para os mais velhos, mas ele tanto insistiu que conseguiu que abrissem uma exceção. Com tempo de sobra e a curiosidade que lhe é característica, em pouco tempo Felipe estava dando aulas de informática para os seus professores.

O empreendedor Felipe Matos

Felipe Matos, em 2007, e o carro que ele transformou em mídia, e pelo qual não precisou pagar um tostão.

Mais para a frente, já na faculdade de Administração na UFMG, ele resolveria seus problemas de deslocamento pela grande BH comprando um carro sem gastar um tostão, já dando mostras de sua criatividade para encontrar soluções. “Foi talvez o primeiro projeto de crowdfunding do Brasil”, conta, misturando orgulho e timidez. O Ford Fiesta dirigido por Felipe era um classificado ambulante, e cada um dos anunciantes pagou ao jovem proprietário pelo direito de ver suas marcas desfilarem na carroceria por seis meses.

Mas qual é o caminho para que histórias como a de Felipe se tornem mais comuns no Brasil? Ele tem um palpite:

“Dinheiro não falta, mas é preciso que o capital nacional tope correr mais riscos para aumentar o índice de inovação”

Muito mais do que um palpite, ele tem uma visão privilegiada da estrutura de novos negócios, aceleradoras e fundos de investimento do país. “Precisamos de mais anjos, mais aceleradoras, mais programas de aceleração.”

EIS UM RAIO-X DO NOSSO ECOSSISTEMA DA INOVAÇÃO

Hoje há no Brasil entre 30 e 50 aceleradoras. Há cinco anos só havia uma — a Aceleradora, fundada por Yuri Gitahy em 2008, em Belo Horizonte. O país tem 300 incubadoras e algo entre 50 e 70 fundos de investimento com características de Venture Capital. Os fundos que administram fortunas familiares (chamados de family offices) são entre 200 e 300, e a maioria não investe em startup. Também há os anjos e superanjos (investidores individuais), que aportam, respectivamente, até 500 mil e de 500 mil a 2 milhões de reais em novos negócios. Depois vem a faixa do seeding capital, dos VCs que investem em early stage, numa faixa de investimento de até 5 milhões de reais.

Seguindo a escalada de investimentos, encontramos os fundos de VC que não investem em seeding capital — preferem empresas que já passaram da fase do bootstrapping nas quais aportam entre 5 e 20 milhões de reais. Por fim, no topo da cadeia, estão os fundos de private equity, que investem acima de 50 milhões de reais (há cerca de 20 destes no país). Este é o panorama brasileiro dos novos investimentos, com alto potencial para ingressar de vez no setor de tecnologia.

Neste sentido, o Startup Brasil é estratégico, pois exibe para o mercado um portfólio atraente do que há de mais inovador acontecendo por aqui. Além disso, o programa incentiva uma cultura de negócios baseada na colaboração. Vale do Silício e Israel são exemplos do modo aberto e dinâmico como os negócios devem acontecer. Para Felipe, esse é o círculo virtuoso que devemos perseguir.

A legislação brasileira também é um empecilho conhecido: é difícil abrir e fechar empresas, é difícil investir em empresas. Isso desestimula muito o empreendimento. O empreendedor pode quebrar muito facilmente na pessoa física se o seu negócio não der certo. “O Simples é uma boa iniciativa mas ainda deixa muita gente de fora. É quase impossível não descumprir alguma regra no Brasil. É caro seguir a lei e pagar impostos no Brasil – você precisa de um contador para entender e de um despachante para interagir com a burocracia. É quase como se inovação fosse ilegal”, afirma Felipe.

Legislação favorável e capital ousado, porém, não serão suficientes sem a proliferação de protagonistas. A estrela do ecossistema é o empreendedor. Quanto a isso, Felipe é categórico ao afirmar a importância de uma nova educação: “O Brasil é uma das nações mais empreendedoras nas pesquisas que a gente vê. Precisamos potencializar isso através de um modelo de educação com as ferramentas e oportunidades que o empreendedor precisa. O ensino precisa ser mais baseado em projetos, em soluções de problemas reais da sociedade”. Otimista, ele conclui: “Se você olhar para uma criança, ela é essencialmente empreendedora, é curiosa, olha pro mundo e faz perguntas o tempo todo. O espírito empreendedor sempre existe”.

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