“Fui buscar muitas respostas no Caminho de Santiago. Tudo o que não encontrei”

- 12 de agosto de 2016
Registro de Gustavo feito em Hospital de Órbigo, na província espanhola de León, numa das etapas do Caminho de Santiago.
Registro de Gustavo feito em Hospital de Órbigo, na província espanhola de León, numa das etapas do Caminho de Santiago.

 

por Gustavo Tamborlim Simões

 

Não foi nada como imaginei.

Pelos últimos trinta dias eu vinha visualizando aquela cena: a praça lotada de gente, a Má correndo com o Rafa nos braços, e eu num misto de correr e de soltar a mochila tudo ao mesmo tempo, numa sincronia perfeita que terminava com os três se abraçando, os sinos tocando e as câmeras girando em volta de nós… ai, ai, o ego…

Mas, naquela manhã chuvosa de primeiro de maio, a praça da Catedral de Santiago de Compostela estava completamente vazia, a não ser pelos quatro cansados peregrinos que chegavam.

O Caminho de Santiago foi para mim o ápice de um longo período sabático. Trabalhei mais de doze anos de na indústria, em consultoria e no mercado financeiro. Pulei do alto do mundo corporativo, e sem paraquedas. Todos meus amigos, equipe, companheiros e pares tinham a certeza de que eu tinha um plano — mas eu não tinha. A única coisa que eu sabia era que aquela vida de trabalho-como-eu-conhecia não me servia mais.

A decisão de dar esse passo de fé foi muito difícil para mim, um engenheiro da Poli para quem a fé não era o skill mais forte, mas sim a previsão e o planejamento — eu sempre tinha planilhas de Excel pra calcular “qualquer” cenário possível para “tudo”.

Sair do mercado sem ter plano nem rumo era, definitivamente, algo muito novo e muito aterrorizante para mim

A partir dali, com muito custo, brigas e momentos de total desespero, deixei a vida acontecer: retiros na natureza, meditações, temporadas em comunidades e cursos com práticas e pontos de vistas completamente novos, mágicos e até “impossíveis” e “inviáveis” até que comecei a praticá-los. Tivemos um filho, aprendi a ser pai e a vivência da família se tornou também profunda e intensa. Saí de São Paulo e fui experienciar morar com a minha esposa e filho em uma chácara, e depois na Praia da Pipa (RN) e lá se foram dois anos de sabático.

Desde a minha saída do banco, eu tinha feito uma consultoria de RH e só. O trabalho, e me sentir realizado com ele, era o meu maior desafio e minha maior questão “existencial” naquele momento. Eu estava completamente perdido e a convivência constante com a minha família trazia ainda mais dúvidas: eu não conseguia encontrar uma solução viável para aquela equação. O que eu estava vivendo, aprendendo e realizando, fazia com que minha passagem pelo mundo corporativo parecesse algo de vidas passadas. E isso me deixava apavorado, pois eu não vislumbrava nenhum caminho possível para o trabalho.

Senti que era o momento de ficar sozinho e que o Caminho de Santiago seria perfeito para isso. Imaginava, no fundo, que lá eu encontraria o que estava procurando. Lá sob centenas de anos de caminhadas eu encontraria o meu caminho. Lá fora.

Saí do Brasil com a família rumo a Portugal, que seria nossa nova base durante a minha peregrinação. Após duas semanas, já com todos instalados, eu parti.

Numa madrugada fria de começo de primavera, deixei para trás minha esposa grávida de 1 mês e meu filho de 1 ano e 3 meses, que mal andava direito

Sim, eu sentia todo o peso da decisão, mas sabia que aquele tempo de separação seria muito bom para todos nós. Aquele momento me marcou profundamente, o rompimento foi forte e as lágrimas me acompanharam no taxi até o aeroporto.

Meu Caminho iria começar em Saint Jean Pied de Port, França. A primeira noite dormindo no albergue é algo muito engraçado. Os albergues oficiais do Caminho só recebem peregrinos com suas credenciais devidamente carimbadas. Mas existem muitas histórias de falsos caminhantes, que vão para aproveitar o baixo preço do pernoite e, quem sabe, roubar um peregrino descuidado. Então ninguém dormia, esperando quem iria atacar primeiro! Minha “vigília” durou uns 15 minutos e capotei… quando abri os olhos eram 5:30 da manhã, eu estava vivo e com todos os meus pertences. Que sorte!

Comecei ansiosamente o dia. Andei muito rápido para um peregrino que não tinha treinado nada. Dando inclusive pequenas corridas na descida dos Pirineus, esquecendo dos oito quilos de peso nas costas e dos 800 km que ainda teria à frente. Na hora não parecia nada de mais, estava “super fácil”. Cheguei no fim do dia a Roncesvalles completamente exausto. Tomei um banho “fervendo” (grande parte dos albergues oferecia duas modalidades de banho: fervendo ou congelando) e quando terminei comecei a sentir as primeiras dores. Ops… acho que a corridinha estava vindo cobrar a conta.

Os próximos dias foram de dores terríveis. Joelho, canelas e pés completamente doloridos e inchados. Eu parava a toda hora para tirar as botas. Mas não ia desistir, pois debaixo de alguma pedra daquele Caminho eu encontraria a minha resposta!

Conheci muita gente, de todos os cantos do mundo. Contava a minha história e todos achavam demais, maravilhoso e inspirador. Mas eu me sentia preso, trancado pelo lado de dentro de uma linda história. E continuava procurando a chave do lado de fora…

No início da segunda semana eu já começava a achar que a resposta talvez não estivesse ali. A dor era tanta que a cerveja dos bares pós caminhada e o vinho servido no jantar não me deixavam nada bêbado, e eu sou bem fraco pra bebida. Serviam como analgésico mas não conseguiam fazer nada com a saudade da família e nem com o desespero de não estar perto de uma resposta.

E foi, então, que percebi um padrão.

Todos os dias eu começava a caminhar sozinho e, depois de uns 40 minutos, já estava com seis ou sete pessoas compartilhando a peregrinação. Aquela caminhada em conjunto estava me afastando da meditação. Me afastando de estar comigo mesmo, de mergulhar no vazio, de estar com as minhas questões e da possibilidade de receber insights.

Comecei a sair bem mais cedo que os demais. E aí descobri um dos segredos do Caminho: estar completamente sozinho. Em silêncio. E que lugar lindo para se estar sozinho! As paisagens são maravilhosas, ainda mais inacreditáveis na primavera. E a cada dia da minha “caminhada meditativa” eu ia percebendo alguma coisa, algum ponto escondido dentro de mim que eu não tinha notado e que podia, agora, colocar luz, confrontar e questionar.

Na verdade, não há nada para se encontrar no Caminho de Santiago, a não ser estar com você mesmo. E esse foi o meu maior desafio

Maior que as dores e que as saudades. Estar somente comigo, por horas. Às vezes eu estava a 15 km de qualquer lugar e a única opção era continuar andando. Eu teria que andar essas duas ou mais horas sozinho e, dependendo da profundidade do que estava descobrindo, eu não queria estar tão perto de mim mesmo. Bem aos poucos fui consentindo esse espaço para estar comigo, poder me abrir e receber o que estivesse por vir.

Após as caminhadas, eu encontrava meus amigos peregrinos nas cidadezinhas. Foi conversando com um inglês, professor de escola Waldorf, que tive o meu insight. Senti um “chamado” para ensinar, para dar aula, para contribuir com o outro de alguma forma. Na hora a minha mente, que é tipo uma impressora 3D para transformar insights em ação, captou a mensagem e já brilhantemente definiu: “é isso! Vou ser professor de escola Waldorf!”. Hahaha… Nada contra, inclusive o meu filho Rafa estuda em escola Waldorf, mas essa definitivamente não é a minha praia.

Na catedral de Santiago, o reencontro com a esposa, Márcia, e o filho de 1 ano, Rafa.

Na Catedral de Santiago, o reencontro com a esposa, Márcia, e o filho de 1 ano, Rafa.

Os dias foram se desenrolando, experiências ricas e lindas, até chegar o meu último dia de caminhada, que foi bem curto, apenas 5 km até a Catedral de Santiago.

Cheguei na praça da igreja acompanhado de um holandês, um sueco e um neozelandês que também estava ansioso pelo meu encontro com minha família: ele estava me acompanhando pelos últimos 15 dias na expectativa do momento. Mas a praça estava vazia. Encontramos um outro peregrino para bater uma foto nossa e só.

Resolvi entrar na igreja, que parecia estar fechada àquela hora. Saindo das sombras de um dos pilares eu vi a Má, minha esposa, com o Rafa. Ele com cara de assustado falou “Papai…”. Eu fiquei paralisado… não conseguia fazer nada, simplesmente deixei a mochila cair e os abracei muito. Olhei para o Donald, o neozelandês, e vi que ele colocava para fora as lágrimas por mim. “Beautiful, beautiful!”, ele gritava. Agora, escrevendo e relembrando, estou chorando tudo o que não consegui fazer naquele dia!

O insight que peguei no Caminho foi se desenvolvendo por pouco mais de um ano.

Aprendi que fórmulas mágicas não existem e que o que serve para alguém, pode não servir para mim. Somos seres únicos

Aprendi que a verdadeira magia está em viver no fluxo, aproveitando a intuição como um guia e não como uma regra. Aquela conversa com o professor inglês foi preciosíssima. Me ajudou a definir os passos, os erros e os acertos, na direção do meu trabalho de professor, facilitador e coach e a achar o meu lugar nesse novo mundo que estou criando a cada momento.

Estou aprendendo a procurar menos fora, e a apontar menos para fora. Aprendo a olhar mais para dentro de mim, onde verdadeiramente estão as respostas para tudo.

 

Gustavo Tamborlim Simões, 37, é sócio-fundador do Be Project. Apaixonado pela família, por tecnologia e produtividade. É coach, facilitador e professor. Ajuda pessoas a fazerem as pazes com o tempo e a serem mais realizadas no trabalho.

Veja também:

“Meu sabático não foi nada do que eu fantasiei. Mudar nem sempre é fácil. E é melhor mesmo que seja assim”

- 17 de março de 2017
Marcelle Xavier tem 29 anos e conta como uma viagem a fez não apenas rever os próprios sonhos e fantasias, como perceber que a mudança que buscava é algo a se fazer todos os dias.

Comida Sustentável – ou como organizar a vida, em comunidade, e fazer algo que alimente o corpo e a alma

- 23 de fevereiro de 2017
O proposta do Comida Sustentável é que a vida também o seja (foto: Chris Cineviva).

Você já foi à Índia? Então vá!

- 13 de janeiro de 2017
"Chegar no Taj Mahal é um daqueles momentos em que respiramos fundo e ficamos alguns minutos em silêncio, simplesmente agradecendo por estar ali"

Draft ano 2 – A antiga Aceleratech agora é ACE: dobrou de tamanho e hoje faz transações milionárias…

- 13 de setembro de 2016
Pedro Waengertner conta como a antiga Aceleratech se transformou na ACE. A mudança ocorreu em apenas um ano.