Georgia, 19, quer mudar o mundo. Começou criando um diagnóstico mais barato da endometriose

- 27 de março de 2015
Georgia Sampaio
Esta é Georgia Sampaio. Ela quer mundar o mundo.

Se Georgia Gabriela Sampaio, de 19 anos, pudesse definir o ano que passou em poucas palavras, provavelmente diria que 2014 foi repleto de fortes emoções. Em outubro, a baiana, natural de Feira de Santana, foi uma das estudantes premiadas por um programa de ideias inovadoras da Universidade de Harvard, uma das mais conceituadas do mundo. No mês seguinte, apresentou seu projeto para vários pesquisadores no campus da faculdade nos Estados Unidos. Sua ideia é proporcionar um diagnóstico mais rápido da endometriose (complicação gerada quando células do endométrio, tecido que reveste o útero, migram para outros locais do corpo feminino), doença que aflige seis milhões de brasileiras e 180 milhões de mulheres no mundo.

Mas parece o fim, mas é só o começo. A jovem, filha de uma cabeleireira e de um dono de loja de materiais de construção, quer continuar voando alto. É o tipo de história que nos inspira. Georgia cresceu em um ambiente motivador e isso, segundo ela, fez a diferença. Desde cedo, foi encorajada pelos pais a explorar e a aprender coisas novas. Passava horas preenchendo palavras cruzadas, construindo carros de bonecas, montando ‘computadores’ de materiais recicláveis e aprendendo crochê. Entrou, logo cedo, em um grupo de estudos para se aperfeiçoar em leitura.

“Nunca passei mais de três anos numa só escola. Depois do ensino básico em escola pública, minha mãe resolveu conseguir bolsas de estudos em colégios particulares para mim. Deu certo. À medida que fui avançando de escola em escola, ia conseguindo um rendimento melhor. Consegui a maior bolsa, tanto em qualidade, quanto em valor, no segundo ano do colegial. Isso só foi possível porque juntei um boletim rico e muitas atividades extracurriculares durante a minha vida acadêmica”, conta.

Ela era figurinha marcada em diversas competições científicas, mas também se envolvia com esportes e artes no colégio. No fim de 2012, uma notícia triste a faria tomar contato com o que seria o seu objeto de pesquisa. Uma tia materna teve de retirar o útero após descobrir uma endometriose em estágio avançado, diagnosticada tarde demais. Na época, sem nem saber o que aquilo significava, Georgia não conseguiu entender o porquê de sua tia não perceber, antes, que algo estava errado com o seu corpo.

Georgia Sampaio em Harvard

Georgia com os amigos que fez no Village To Raise Children. A estudante loira ao lado dela é Raíssa Müller, brasileira que também venceu o concurso.

“Assim que soube do problema da minha tia, abri o Google, digitei o termo e passei horas pesquisando. Li sobre a gravidade da endometriose e a ocorrência sobre as populações menos favorecidas. Isso me levou a pensar em quantas milhões de mulheres também passavam pela mesma situação da minha tia. Contei a ideia de pesquisar isso para o meu professor de biologia e não parei desde então”, diz ela.

Georgia perceberia que a identificação da doença, principalmente nas pacientes com piores condições financeiras, era precária. Pesquisou, então, uma forma mais eficaz e barata de diagnosticar a endometriose. Para a estudante, a maneira como o exame de diagnóstico é feito hoje em dia é uma ode à exclusão.

“O diagnóstico é caro e ineficiente. É uma ultrassonografia, um exame de imagem no qual se analisa todo o corpo para procurar focos causados pelo tecido endometrial fora do lugar, onde não deveria estar. E o fato é que a endometriose demora para se desenvolver e, quando a mulher apresenta esse foco, é porque já estava doente há muito tempo. Então, se eu estou com endometriose e ainda não desenvolvi esse foco, não vou descobrir a doença pelo exame de imagem”, diz. E prossegue: “Os sintomas da endometriose são dor, sangramento intenso, infertilidade. Tudo facilmente ignorado porque você não percebe no dia-a-dia. Geralmente, quando você tem dor, você compra um remédio na farmácia e toma. Vai levando sem saber que tem a doença”.

Para a estudante, um diagnóstico barato serve para dar acessibilidade a pessoas que não podem pagar caro pelo exame de imagem, como sua tia. Pesquisando, descobriu que marcadores menos invasivos, além do exame de sangue, também podem indicar a doença, como o exame de urina ou da saliva. Os exames laboratoriais, segundo ela, procuram modificações biológicas, em vez de modificações visuais.

UMA MENINA DANDO IDEIAS NOVAS PARA MÉDICOS

O interesse de Georgia no assunto a aproximou de médicos e laboratórios brasileiros, mas sua pesquisa só receberia atenção em 2014, quando, através de uma reportagem publicada no site da Fundação Estudar, ela conheceu o Village To Raise a Child, programa de alunos e ex-alunos de Harvard que tem como objetivo colocar em foco projetos que impactem de forma positiva a comunidade em que estudantes do mundo inteiro estão inseridos. Georgia descobriu que fora aprovada quando uma das amigas a parabenizou pela conquista. Então era verdade:

“Ter sido selecionada por Harvard significa que finalmente eu estava sendo ouvida. Foi muito bom”

A estudante foi para os Estados Unidos em novembro de 2014. Segundo ela, a experiência em Harvard é intensa e muito humanizadora. “Chegando lá, você percebe que é um local realmente muito rico, com oportunidades infinitas. A grande diferença entre lá e aqui é a oportunidade real de fazer acontecer. O lugar é super bem equipado. Tem uma biblioteca gigante, com três andares subterrâneos e várias salas. Lá você não fica sem fazer um trabalho porque não tem como tirar a cópia de uma apostila”, conta. Entre os amigos que fez, está Raíssa Müller, brasileira que também venceu o concurso.

Georgia em mais uma palestra sobre seu projeto para diagnóstico da endometriose

Vida de palestrante: Georgia em mais uma exposição do seu projeto para diagnosticar endometriose de maneira mais barata.

Nos EUA, Georgia pôde conhecer mais pesquisadores e profissionais que se dedicam ao estudo da endometriose. Depois de ter contato com gente da área, ela já sabe o que mais quer: voltar para Harvard – e em breve! “Conheci o Marc Laufer, médico que está fazendo a mesma pesquisa que eu. Quero ficar lá e ter mais contato com pesquisadores dessa área. Sei que vai ser uma experiência muito rica. Quero aprender para poder trazer ao Brasil. Aqui nós até temos um médico de referência, o Doutor Maurício Abrão, mas ele só ensina na USP e é um ensino totalmente específico. Infelizmente, a gente não tem investimento, nem incentivo. Ir para lá e pesquisar com alguém com referência mundial, que pesquisa há anos e com todo o aporte que a faculdade oferece é meu objetivo”, conta.

Currículo para entrar numa das melhores faculdades do mundo Georgia tem. A estudante tem um histórico repleto de aceitações. No segundo ano do colégio, prestou vestibular para Engenharia da Computação pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) e passou. Também prestou Engenharia Civil pela mesma faculdade e foi aprovada. No mesmo ano, ainda prestou vestibular para Engenharia Elétrica pela UFRJ e passou. Não assumiu nenhuma das vagas porque tem sonhos ainda maiores.

“Acabei de me mudar para Fortaleza para fazer um curso voltado para o vestibular do ITA/IME. Vim para cá aprimorar meus conhecimentos de Matemática, Física e Química. Caso seja aceita em uma universidade americana, estarei treinando e me preparando para as aulas do curso de Engenharia. Se não for aceita, estarei preparada para cursar outros vestibulares no Brasil”, diz ela. Sim. E será só o começo.

 

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