Giral: quatro amigos queriam mudar o mundo. Agora ajudam grandes empresas a fazer isso

- 2 de setembro de 2014
Em uma comunidade de Sergipe, a Giral organizou a produção artesanal de castanhas de caju
Em uma comunidade de Sergipe, a Giral organizou a produção artesanal de castanhas de caju

Quando começou a estudar Farmácia e Bioquímica na USP de Ribeirão Preto, onde morava, Mateus Mendonça vislumbrava trabalhar com plantas medicinais. Ou, talvez, inseminação artificial de gado. Hoje, aos 33, ele atua num laboratório um pouco diferente: a Giral Viveiro de Projetos, consultoria de estratégias e gestão de investimentos sociais públicos e, cada vez mais, privados.

Clientes como Ambev, Walmart, Diageo e Grupo Votorantin procuram a Giral, de Mateus, para saberem quais projetos de sustentabilidade e responsabilidade social apoiar. Buscam, também, instrumentos e garantias de que o dinheiro investido provocará efeitos práticos, mensuráveis, e visíveis a todos os envolvidos. A Giral os ajuda desde o planejamento estratégico das ações (geralmente pequenos negócios comunitários ou atividades envolvendo reciclagem), até a implementação e o relacionamento com as comunidades impactadas.

“Com a Biologia, aprendi a ter uma visão de organização, desde o nível molecular até a biosfera. A compreender sistemas. Quando ouço alguém de comunicação falando de sustentabilidade, de visão sistêmica, isso é algo que fui treinado para ter”, diz Mateus, sócio e responsável por novas parcerias da Giral. Em um mesmo mês, ele viaja até um arquipélago no Amapá para ver um projeto de gestão comunitária de recursos naturais e, em seguida, vai a Buenos Aires entender como a cidade lida com o descarte de lixo. Tudo para conhecer novos sistemas e pensar em como transformar cenários e realidades de forma sustentável — inclusive financeiramente.

Mateus - Giral

Mateus e Renata Amaral, voluntária em um programa de reciclagem com gestão da Giral: com a mão na massa

COMO TUDO COMEÇOU

A Giral nasceu em 2004, praticamente sem capital financeiro — o que havia era a vontade de três amigos de faculdade em compartilhar conhecimento acadêmico com organizações sociais. Carolina Rolim, Fernando Assad e Diogo Vallim tinham trabalhado juntos em uma consultoria de gestão de projetos e decidiram criar a Giral. O nome é uma corruptela de “jirau”, espécie de apoio de palafita em que ribeirinhos plantam ervas no quintal. A ideia é essa: apoiar e cultivar alguma coisa até que ela possa se sustentar.

Carol, Fernando e Diogo começaram a empresa ajudando ONGs a estruturarem e apresentarem seus projetos em editais públicos. Não cobravam nada por isso. Uma vez contemplada, a ONG, em contrapartida, teria a Giral como parceira na implantação das estratégias desenhadas. Quando um desses projetos virou, os primeiros 40 mil reais em caixa sustentaram a formalização da empresa.

Mateus acompanhou o processo de perto. Ele tinha se mudado para São Paulo e dividia a casa com Carol, sócia-fundadora da Giral. Naquele momento, em 2004, uma vaga de estágio na Natura o aguardava na capital paulista. “Na faculdade eu sempre fui do movimento estudantil. Quando cheguei na Natura, a sustentabilidade estava nascendo lá dentro. Nosso desafio no laboratório era substituir matérias primas não-renováveis por ingredientes vindos da floresta, como o óleo de palma. Me apaixonei pelo mundo da sustentabilidade”, conta ele.

Estimulado a se desenvolver dentro da Natura, três anos depois ele deixou o laboratório e foi para a área de embalagens – a empresa queria não apenas usar material reciclado, mas também saber de onde ele estava vindo. Quando foi conhecer a realidade dos catadores e a rotina nos lixões, Mateus teve um outro estalo. “Me encantei pelo desafio do resíduo, que é simbólico para o tema da sustentabilidade e serve como cenário para novos negócios”, diz ele. “Hoje temos uma política nacional de resíduos sólidos, mas na época as tendências se desenhavam no marco regulatório. Tínhamos gente trabalhando no lixo em condições precárias. Aí, eu vi missão e mercado. No lixão, era possível unir o conhecimento de estratégia com o trabalho de sustentabilidade.”

Lixo - Giral

Trabalhando com resíduos, Mateus encontrou visão de mercado e propósito

QUANDO PERDER O EMPREGO É UMA ÓTIMA NOTÍCIA

A crise financeira mundial de 2008 obrigou a Natura a engavetar projetos de sustentabilidade e isso foi transformador — para Mateus e para a Giral. “Eu estava tão apaixonado, vendo tanta oportunidade, que não ia ficar esperando. Saí da Natura para estruturar um empreendimento de consultoria em reciclagem. Queria aproximar as cooperativas das empresas, ao redor do tema dos resíduos”, lembra ele.

Neste momento, Mateus saiu da Natura e se tornou sócio da Giral. A partir dali, a empresa passaria a atender também iniciativas de investimento social privado. “Eu tinha muita experiência em inovação, em planejamento estratégico dentro das empresas, além de ter isso de pisar no barro. Trago para a Giral essa visão de como transformar as estratégias de sustentabilidade das empresas em realidade”, diz ele. “Passamos  a ser esse elo entre a iniciativa privada e o setor social.” A Votorantim é um cliente dessa nova fase.

Com o tempo, as empresas perceberam que a Giral tinha um papel essencial em seus projetos de reciclagem. Um valor que ia desde a sensibilidade de entender demanda do catador e das comunidades até o conhecimento de gestão estratégica e indicadores de resultados dos investimentos sociais

Desde o fim de 2010, o Instituto Votorantim e o BNDES mantêm uma parceria técnica e financeira, com atividades em 25 municípios do Brasil. A Giral foi uma das empresas que integrou o time de campo do programa ReDes, gerenciando o território sergipano e o Sertão Mineiro.

“Em Carrilho, no Sergipe, ajudamos a montar uma pequena usina cooperativa de beneficiamento de castanha de caju. Estruturamos o plano de negócios e a comunicação do projeto Itacastanha, que era um coletivo de mulheres trabalhando em situação muito precária”, conta Mateus. Outro exemplo do trabalho é de Curvelo, Minas Gerais. “Desde a escolha das máquinas de que precisariam, nós ajudamos a desenhar o projeto de uma cooperativa de catadores, para que pudessem receber o investimento do programa ReDes.”

Com o tempo, as empresas perceberam que a Giral tinha um papel essencial nesses projetos. Um valor que incluía a sensibilidade de entender as demandas do catador e das comunidades, que passava pelo conhecimento de gestão estratégica, das ferramentas e dos indicadores de resultados nos investimentos sociais. “Buscamos produzir relatórios inovadores, que mostrem como um investimento privado impacta no aumento de renda, por indivíduo, em uma comunidade. Indicadores que mostrem que se trata de um investimento positivo, e não de uma doação assistencialista”, diz Mateus.

O tempo e a experiência de Mateus no lixão, com os pés no barro, também colaborou para a Giral se tornar referência em projetos envolvendo reciclagem. “Nossa área de resíduos foi ficando redonda. Criamos uma metodologia e temos uma frente de trabalho focada nisso, trabalhando com gestão, produção de indicadores e acompanhamento de resultados – essa é a nossa essência”, diz ele.

Reciclagem - Giral

Em Curvelo, no sertão de Minas, uma cooperativa com gestão da Giral

SEDE NOVA, CRESCIMENTO E ESTÍMULO A OUTROS NEGÓCIOS SOCIAIS

A lei que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos foi assinada em 2010 e, ainda hoje, os municípios brasileiros não conseguiram se adequar totalmente às suas exigências. Mas muitas transformações já começaram, principalmente dentro das empresas geradoras de resíduos. A nova legislação chama de logística reversa o conjunto de ações necessárias para que os resíduos sólidos possam ser reaproveitados em outros ciclos de produção da indústria, ou seja, a reciclagem financiada pela iniciativa privada. Um nicho de mercado vislumbrado lá atrás, e que hoje representa 80% do faturamento da empresa, segundo Mateus.

A Giral faz a gestão de projetos de reciclagem de grandes empresas, como o Ambev Recicla, o Glass is Good, da Diageo, e programas semelhantes da Ducoco e do Walmart. “É sempre uma gestão focada no relacionamento com a cooperativa. Trazemos a cooperativa para dentro do projeto, orientamos o investimento e ajudamos a fazer a melhor gestão.” O Sebrae e a própria Natura também são clientes da casa. Após uma década de atividades, este ano a Giral projeta um faturamento de 3,5 milhões de reais.

Ao longo dos anos, a empresa aprimorou sua essência e cresceu fisicamente. No começo, existia apenas na cabeça dos três fundadores. Passou a funcionar em um escritório pequeno na Vila Madalena, depois se mudaram para uma casa maior, no mesmo bairro. Agora, acabam de alugar um espaço com 250 metros quadrados e três andares de escritório.

As paredes são de vidro e eles derrubaram as divisórias para que tudo seja visível da rua. No lugar das vagas em frente ao imóvel, haverá um parklet e a cada semana um Food Truck diferente será convidado a estacionar por ali. “Não vai ter vaga para carro. Estamos a 10 minutos do metrô. Queremos que o cliente use o transporte público”, diz Mateus. Eles também querem fazer da rua Laboriosa, onde estão, a primeira rua Lixo Zero da cidade.

Giral - Vila Madalena

Primeiras fotos do novo escritório da Giral, na Vila Madalena

A nova sede também irá abrigar outras empresas sociais e vai ampliar a rede de pessoas ao redor da Giral. “Hoje, vemos uma demanda por relações de trabalho mais flexíveis. Tínhamos amigos precisando de espaço para seus projetos e percebemos a riqueza que isso trazia para o nosso horizonte. Quando convidamos novas pessoas para dividir o espaço, descobrimos novas relações interessantes pra gente também”, conta ele.

Essas novas relações são o que Mateus chama de Viveiro, um desdobramento natural da Giral. “Vivemos em uma bolha, perto de gente que entende a linguagem da sustentabilidade. Queremos furar essa bolha e entrar como investidores, no risco, em novos negócios sociais”, diz.

O dinheiro pode vir da própria Giral: a empresa tem um fundo de investimento específico para novas ideias. “Parte do nosso faturamento, 1,5%, é reservada para isso”, afirma ele. E segue falando de novas ideias e desafios. “No Brasil tem muito projeto bom, muita gente boa querendo fazer coisas interessantes, mas que não sabe contar bem a história, fazer um pitch interessante, estruturar um bom plano de negócios. Por que não montar um laboratório para isso?” Uma boa pergunta para a qual o próprio  Mateus e a Giral estão produzindo uma ótima resposta.

 

draft card giral ok

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