Por trás do avestruz da Gloops está um pai que queria que a filha se orgulhasse do seu emprego

- 25 de abril de 2017
Gustavo Siemsen criou a Gloops para vender sucos gaseificados e sem açúcar, em vez de refrigerantes (foto: Kiko Ferrite).
Gustavo Siemsen criou a Gloops para vender sucos gaseificados e sem açúcar, em vez de refrigerantes (foto: Kiko Ferrite).

Não é um refrigerante. Também não é só um suco. É uma bebida gaseificada. Mas como botar na cabeça do consumidor que “suco gaseificado” não é refri? Por isso, a Gloops achou mais fácil simplificar e — mesmo que sua bebida tenha 80% de suco, água, nenhum tipo de conservante e seja adoçada apenas com o açúcar (frutose) das próprias frutas — é na sessão de refrigerantes dos supermercados Pão de Açúcar, Carrefour e Hirota, que se encontram as garrafinhas de 269 ml com 0 simpático avestruz mascote da marca.

A Gloops tem o desafio de juntar palavras aparentemente antagônicas: refrigerante + saudável.

A Gloops tem o desafio de juntar palavras aparentemente antagônicas: refrigerante + saudável.

Esta é a história de um produto não óbvio e das dificuldades que os seus criadores tiveram, e têm, para colocá-lo no mercado. No caso, no supermercado mesmo, já que esta é uma das maiores conquistas da marca: desde o final de 2016, os produtos Gloops finalmente entraram nas prateleiras. Gustavo Siemsen, 48, diz que “se cansa só de lembrar” a batalha que foi. Ele e os sócios tiveram de fazer incontáveis reuniões com representantes das grandes redes de supermercado até que elas topassem dar uma chance ao novo produto.

Desde pequeno, Gustavo foi acostumado a ter cuidados e buscar uma alimentação saudável, algo diferente do que se via antigamente (lembremos que as crianças dos anos 1970 ingeriam comida enlatada, sucos artificiais etc). Já formado em administração de empresas, foi trabalhar no marketing da Elma Chips. Anos depois, acabou indo parar o marketing da PepsiCo. Lá tomou gosto pela indústria alimentícia e pelo trabalho direcionado a bebidas. Um dia a sua filha, que tinha então quatro anos, perguntou: “Papai, o que você faz no trabalho?”. Ele contou, mas depois parou para pensar na parte ética do que fazia e acabou não dormindo aquela noite. Passou a questionar se estava certo vender refrigerantes, “especialmente para o público infantil”. Ele conta:

“Me veio a vontade de poder dizer à minha filha: ‘Olha, o papai faz uma coisa saudável, que faz bem às pessoas’. Esse foi o início de tudo”

A vontade de ter um negócio próprio ficou anotada na cabeça. E Gustavo foi convidado para trabalhar no Grupo Jereissatti, como responsável pela administração do Shopping Iguatemi, em 2008. Lá, percebeu o crescimento das empresas que trabalhavam com alimentação saudável e passou a fazer pesquisas de mercado para saber como poderia empreender no segmento. Tudo isso em jornada dupla, sem deixar o emprego, trabalhando nas noites de semana e nos finais de semana também.

Escolheu fazer uma lanchonete, “um fast-food saudável” onde as pessoas poderiam comer apenas um snack, sem consumir alimentos gordurosos. Lá, ele produziria os próprios refrigerantes, saudáveis, na frente do consumidor, para ter a certeza de que ali só havia suco das frutas. “Eu queria uma ideia que fosse escalável, com potencial de ser algo grande. Então, logo pensei em um modelo que pudesse ser franqueado, que pudesse crescer nacionalmente e se possível até internacionalmente”, conta. Já fora do Grupo Jereissatti, Gustavo decidiu bancar sozinho o primeiro ano de seu novo negócio e nele investiu todas as suas economias. “Caí de cabeça mesmo.” Era hora, então, de desenvolver o tal suco-refrigerante que ele sonhara.

GLOOPS VEM DE ‘GLUP’, DA MAGALI

Gustavo diz que sempre teve clara a vontade de criar um produto que tivesse possibilidades de crescimento. Isso requeria que a marca tivesse uma identidade visual forte. O nome, conta, veio da Magali, personagem da icônica da Turma da Mônica: “Foi muito brainstorm. Eu pegava minhas filhas, primos, a criançada e começava a brincar com alternativas de nomes. Sabe quando a Magali come uma coisa e aparece o ‘glupt’? Parti daí, fui adaptando e virou Gloops”. O nome o agradou, também, por não ser identificável só em uma língua, o que facilita uma possível carreira internacional.

Já o avestruz com cara de entediado, conta, nasceu da sua experiência com marketing e por saber que uma marca precisa de uma imagem diferente para se estabelecer no mercado. “Por que na nossa embalagem não tem nada relacionado a fruta, se nosso produto tem 80% de suco de fruta? Porque na gondola de suco o que mais tem é foto fruta, em produtos com 10%, 20%, 30% de fruta”, diz. Tudo foi pensado. E não ficou barato: só na identidade visual, Gustavo diz ter gasto o valor de um carro popular. Já no registro de marca, mais 10 mil reais. Ele já tinha quase tudo, faltava o suco.

FAZER O IMPOSSÍVEL, BORA

“A primeira coisa que escutei, antes mesmo de abrir a lanchonete, foi que era impossível, que não dava para gaseificar suco”, conta ele, sobre a resposta recorrente que recebeu de seus contatos, de técnicos e conhecidos da indústria de refrigerantes para saber se era possível fazer o tal suco. Teimoso, Gustavo decidiu colocar a mão na massa. Comprou inicialmente uma máquina de refrigerantes, aquelas de lanchonete que tiram o refrigerante na hora, e tentou adaptá-la. Não deu, então ele passou para uma chopeira para continuar os testes. Foi com o pessoal da cerveja artesanal que conseguiu, enfim, fazer a coisa andar:

“Quando cheguei no pessoal da cerveja artesanal, abriu-se um novo mundo. Era o espírito empreendedor, bem diferente do ‘não dá, não dá, não dá’  corporativo”

Ele conta que o “pessoal da cerveja” de certa forma comprou o desafio com ele, que precisava desenvolver algumas peças específicas para o processamento do suco das frutas. “Os caras me ajudaram a fazer a peça do jeito que eu queria”, diz.

Gustavo (ao centro) e parte da equipe da Gloops.

Gustavo (ao centro) e parte da equipe da Gloops.

Mas o processo é lento. E empreender também dói. Gustavo viu-se gastando tempo construindo a máquina que produziria os primeiros sucos da Gloops, com testes falhando e com todas as economias investidas em uma coisa que parecia não dar certo, e teve que enfrentar o desânimo e as críticas. Ele conta que até sua mulher chegou a duvidar. Mas Gustavo insistiu, entre obcecado e confiante: “No final a gente fez as adaptações e deu certo”.

Em 2012 nasceu finalmente a Gloops: uma lanchonete que funcionava dentro de uma academia de ginástica e fabricava um suco gaseificado de mesmo nome. A lanchonete ia bem e os sucos começaram a fazer sucesso, com alunos e clientes querendo consumir o produto também fora dali. Gustavo percebeu que seu negócio tinha o potencial que ele sonhara. Assim, em paralelo, mantinha conversas e prospecções em busca de investidores para tornar a marca Gloops um produto escalável. Ele aproveita para dar uma dica para futuros empreendedores:

“O que mais tem valor é você comprovar a sua ideia na prática e mostrar isso para investidores, funcionários, sócios. Uma coisa é um plano de negócios no papel. Outra é uma fila de clientes pagando pelo seu produto”

Isso Gustavo tinha. E foi de olho nesses clientes que os investidores recém chegados ao negócio convenceram Gustavo a apostar só no refrigerante natural — e deixar a lanchonete para trás. Ele ponderou, mas logo topou. E o Gloops “refri” passou a trilhar sua carreira solo, em 2015.

SUPERA-SE UM PROBLEMA, APARECE OUTRO

Viriam em seguida novas barreiras. O primeiro lote dos sucos Gloops foi produzido na cozinha do escritório onde até hoje funciona a sede da empresa, na Vila Olímpia, em São Paulo (na época, eles dividiam o espaço com um escritório de advocacia). Neste início a bebida não era pasteurizada e vinha em embalagem pet, o que trazia problemas: além de ter apenas três meses de validade, precisava ficar refrigerado durante todo o processo, sob risco de estragar. Isso impedia que as lanchonetes, restaurantes, mercearias e pequenos mercados fizessem estoque. E também deixava a operação ainda mais cara, pois a distribuição era feita com caminhões refrigerados e com estoque refrigerado. E agora?

A esta altura, Gustavo tinha um novo sócio, Ricardo Carneiro e juntos eles encararam a solução inescapável: era preciso mudar de embalagem. Ir para a de vidro ou para a latinha de alumínio, já que ambas podem passar pelo processo de pasteurização (que consiste em esquentar a bebida até que chegue em um certo grau e esfriá-la novamente, matando assim as bactérias e fazendo o prazo de validade ir a até um ano). Assim eles fizeram.

Gustavo conta um caso que parece anedota, mas é real. Ele e o sócio buscavam uma empresa que pudesse se associar à Gloops para produzir os sucos em escala (a produção é terceirizada). Mas não conseguiam ser atendidos, nem por telefone, menos ainda marcar uma conversa pessoalmente. Seguiam nesse impasse e, por sorte, tinham conseguido recentemente vender os sucos Gloops no complexo gastronômico Eataly, que também fica na Vila Olímpia, bem próximo ao escritório deles. Um dia, o tal empresário que os ignorava foi jantar lá, encontrou o Gloops, provou e aprovou. Só então marcou a reunião.

Agora, com uma escala maior, era preciso deixar de comercializar alguns sabores, mais trabalhosos e demorados de produzir, para que a operação não ficasse prejudicada. Gustavo conta que escolheu manter apenas três: Framboesa com Limão Siciliano, Guaraná e Citrus — este último, uma mistura de suco de maçã, laranja, pomelo e limão, que entrou na nova fase da empresa.

HORA DE EXPANDIR

O atual desafio da marca é expandir, ainda mais. Uma das barreiras neste momento é o preço. Enquanto refrigerantes conhecidos ficam custam cerca de 3 reais. O Gloops sai a 5,95 reais (preço no Pão de Açúcar) e, em alguns restaurantes, o valor sobe para 9 reais (preço da Casa do Porco). Comparado aos sucos naturais, o Gloops já é mais competitivo. Gustavo conta que umas de suas inspirações como empresa é a Do Bem, que começou pequena e hoje faz parte da Ambev.

Ele fala sobre o preço: “A gente compara o nosso produto a um suco integral, que tem um preço muito parecido. O desafio é explicar ao consumidor que o Gloops não é apenas um refrigerante. Ele substitui o consumo do refrigerante, mas tem muito mais valores a agregar”. Gustavo também conta que começa a ter os primeiros concorrentes. “Surgiu um refrigerante artesanal, mas que tem pouca concentração de suco, cerca de 20% e, além disso, eles usam açúcar”. Ele diz que também há uma marca de refrigerante orgânico, que se diferencia do refri normal por não ter conservantes e sódio, “mas o restante, é tudo igual”. A seu ver o Gloops está em vantagem.

Ele diz que os planos da marca são expandir e, também, criar novos produtos, no ramo das bebidas. Gustavo projeta um faturamento de 3 milhões de reais para este ano. Mas aquele desafio anterior, que deu início a tudo, parece ter mesmo ficado para trás. No meio da entrevista, o seu telefone toca, ele pede licença e é possível ouvir uma voz infantil falando: “Oi, papai!”. Era uma de duas filhas, só dando um alô no meio da tarde para saber se estava tudo bem. Está, filha.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Gloops
  • O que faz: Suco gaseificado
  • Sócio(s): Gustavo Siemsen e Ricardo Carneiro e três sócios investidores
  • Funcionários: 8 (incluindo os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: NI
  • Faturamento: R$ 3 milhões (estimativa para 2017)
  • Contato: (11) 2609-1763 ou por e-mail no contato@gloops.com.br
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