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A GOMA completa um ano de vida como referência no empreendedorismo em rede

- 26 de setembro de 2014
A turma da GOMA e o conceito de empreendimento em rede: um por todos e todos por um
A turma da GOMA e o conceito de empreendimento em rede: um por todos e todos por um

Vinicius de Paula Machado, 33, foi professor de ioga por 13 anos. Fez Direito na Universidade Cândido Mendes e Marketing na Univercidade, ambas no Rio, sem concluir nenhuma.

Todo carioca é um orador nato. Mas Vinicius fala extra bem. (E, como se sabe, no Rio é êxtra e não éxtra.) Da mesma forma, todo participante da Nova Economia articula muito bem os conceitos que aplica à prática do empreendimento. Mas em Vinicius essa fluidez jorra de modo um tantinho mais caudaloso do que a média.

Foi como professor de ioga que Vinicius começou a perceber o descasamento entre vida profissional e felicidade. “Eu trabalhava com executivos e enxergava dois grupos de pessoas: quem cuida bem de si mesmo e quem privilegia o bolso em detrimento da saúde física e mental”, diz ele. “Via como as pessoas viviam vidas infelizes, que não desejavam. E como somatizavam isso. Aprendi ali o impacto causado na vida de uma pessoa pelo simples cagaço de fazer o que gosta”.

Vinicius tem um filho, Tomás, de 8 anos – uma responsabilidade que tem o poder de acomodar muita gente. Em Vinicius, a paternidade parece ter tido efeito contrário. “Essa minha busca por construir um mundo novo é por ele também”, diz ele.

A GOMA é uma associação em que todos tem que botar a mão na massa - e também, às vezes, no martelo, no pincel e no formão

A GOMA é uma associação em que todos tem que botar a mão na massa – e também, às vezes, no martelo, no pincel e no formão

A GERAÇÃO HUB RIO

Quando estava pensando em abrir sua própria empresa de ioga, em 2010, Vinicius recebeu um convite para ajudar a montar o Hub Rio – uma franquia do Impact Hub na cidade maravilhosa. O Impact Hub, presente em 54 cidades, e com mais de 7 000 membros nos seis continentes, se define como “uma rede de colaboradores com foco em realizar um impacto positivo no mundo”.

A ideia original do Hub Rio não se realizou – virar um espaço de coworking. Hoje é um grupo no Facebook. Mas as quase 40 pessoas que se juntaram ao redor daquela iniciativa formaram uma rede. Ao longo de 2010 eles se encontravam em Botafogo, no Instituto Pares, a cada 15 dias. “Nós fomos percebendo que não queríamos administrar um escritório virtual, um lugar – nosso foco era a conexão entre as pessoas”, diz Vinicius.

Esse processo de descoberta e de construção de uma rede de talentos e do trabalho colaborativo aconteceu ao longo de dois anos. E mudou para sempre a vida de Vinicius. Em 2012, ele fez o curso de Empreendedorismo Criativo, na Perestroika, com Augusto Gutierrez, co-fundador do Coletivo Espiral, que trabalha com processos de inovação social, aprendizagem em rede, facilitação de processos, gestão da inteligência coletiva e inovação em negócios.

Em seguida, Vinicius participou da primeira turma da Pipa, aceleradora fundada por Dhaval Chadha e Florencia Estrade, com Ursulla Araújo, 33, que trabalha com gestão do conhecimento e processos participativos, e que viria a ser sua sócia em mais de um empreendimento.

Marcos Salles, 28, Vinicius de Paula Machado, 33, e Ursulla Araújo, 31: sócios da Carioteca e cofundadores da GOMA

Marcos Salles, 28, Vinicius de Paula Machado, 33, e Ursulla Araújo, 33: sócios da Carioteca e cofundadores da GOMA

Foi nesse momento, no segundo semestre de 2012, que começou a surgir a ideia da GOMA, que Vinicius define como “uma conjunção de redes”. Vinicius cruzou com o pessoal da MateriaBrasil, empresa de consultoria e de fabricação de produtos com materiais sustentáveis, formada pela fusão da Fibra com a Sistema Ambiental, duas empresas com trajetórias de inovação no campo da sustentabilidade. A MateriaBrasil define assim sua missão: “mostrar que é possível acolher novas maneiras de produção e consumo que priorizem a biodiversidade e o equilíbrio de ecossistemas”.

A MateriaBrasil, tocada por Bruno Temer, 33, Manuela Yamata, 25, Pedro Themotheo, 31, Anne Mello, 28, Thiago Maia, 33, Thiago Vedova, 33, e Bernardo Ferracioli, 31, estava naquele momento ampliando seu escopo de atuação da manufatura para consultoria. E levando a oficina do casarão que ocupava, na zona portuária do Rio, para um sítio, no interior fluminense. Com espaço sobrando na sede, a MateriaBrasil incubou outras empresas, como TerraVixta, que produz brindes com materiais sustentáveis; a Zerezes, marca de óculos produzidos a partir de materiais como um “compósito feito da união da serragem com uma resina de base vegetal”; e a Zebu, empresa de “mídias sustentáveis”, que desenvolve planos de comunicação, imprime cartões de visita em casca de bambu e faz mídia outdoor com plantas. A MateriaBrasil acolheu essas empresas sem virar sócia dessas, apenas dividindo o endereço e trabalhando junto, de modo integrado e colaborativo.

“A gente curtiu muito esse modelo, sem a contrapartida de ficar com ações da empresa incubada”, diz Vinicius. “Então partimos para a construção de um condomínio de instituições. Encontramos em abril de 2013 com umas 40 pessoas. E começamos ali a desenhar a GOMA.”

SURGE A GOMA, SINÔNIMO DE COLA, CIMENTO E REJUNTE…

Em 4 outubro de 2013, a GOMA foi oficializada como uma associação, com registro e estatuto. E nasceu com a missão de desenvolver um ecossistema empreendedor ao seu redor. “O nome seria ‘Mosaico’”, diz Vinicius. “Mas descobrimos que esse era também o nome de um sistema de monitoramento da Abin – a Agência Brasileira de Inteligência, ligada à presidência da República. Então ficamos com GOMA, que remete a cimento, cola, rejunte”.

A GOMA se apresenta como “uma associação interdisciplinar de empreendedorismo em rede, com foco em inovação social, economia criativa e design sustentável” e é hoje composta por 25 negócios, reunindo 70 pessoas colaborando entre si no mesmo endereço. O trabalho é participativo já na reforma da sede carioca – que foi recentemente ampliada para três casarões, perfazendo juntos 750 metros quadrados. A GOMA levantou 250 mil reais com os associados para a reforma e todo mundo foi convidado a por a mão na massa – e também no reboco, na pintura e no acabamento.

Cocriação na GOMA: pensar junto é melhor do que pensar sozinho, em turma dá para realizar mais do que individualmente

Cocriação na GOMA: pensar junto é melhor do que pensar sozinho, em turma dá para realizar mais do que individualmente etc.

Se a GOMA não é uma aceleradora, porque não fica com uma parte das empresas que abriga, ela também não é um espaço de coworking – porque não lucra com o aluguel dos espaços. A GOMA, de fato, não tem fins lucrativos. Seu modelo de negócios visa a autossuficiência, num modelo de empreendimento social. A diretoria da GOMA – Ursulla Araújo, da Carioteca, é a presidente, Bernardo Ferracioli, da MateriaBrasil e Marcos Salles, também da Carioteca, são os diretores – não é remunerada. E a GOMA tem apenas dois funcionários administrativos.

Além da MateriaBrasil, fazem parte da GOMA empresas como o Estúdio Guanabara, de arquitetura e urbanismo, de André Daemon, Danilo Filgueiras, Luisa Bogossian e Thiago José Barros, que se define como “um coletivo que busca por meio de processos colaborativos, investigar, projetar e construir metodologias, objetos, edifícios e cidades”.

Ou a Imagine, de Eduardo Strucchi e Pedro Sol, que atua “na construção de soluções criativas que facilitam os processos comunicativos e educativos dos clientes”, por meio de ferramentas multimídia como cinema, design, fotografia, programação web, pesquisa, literatura e projetos culturais.

E a própria Carioteca, de Vinicius, Ursulla e do advogado Marcos Salles, 28. Formada em novembro de 2013, a Carioteca se define como “uma empresa de fomento à expansão do comportamento colaborativo e da inteligência de redes”.

“Queremos empoderar grupos a desenvolverem novos projetos por meio de processos colaborativos. A gente faz facilitação e metodologia da gestão do trabalho participativo, desenvolvimento de liderança circular e de liderança circunstancial”, diz Vinicius. “A Carioteca gere a assimetria de informação em ambientes descentralizados e desierarquizados. Estamos interessados na reforma das relações nos espaços de trabalho – e fora deles também”.

Os três casarões da GOMA,  na zona portuária do Rio, somam 750 metros quadrados de espaço criativo

Os três casarões da GOMA, na zona portuária do Rio, somam 750 metros quadrados de espaço criativo

ENTRA E SAI DE STARTUPS CRIATIVAS

Algumas empresas já saíram da GOMA. A Maloca Querida, de Leila Leme, Denise Assumpção e Francine Albernaz, por exemplo, um coletivo de arquitetos que transforma móveis velhos e sobras de reformas em objetos de arte e design, está saindo da associação agora. E sempre há espaço para um novo residente. A GOMA, que ainda está experimentando seu modelo de incubação não-formal, está para fazer uma nova chamada oficial para empresas.

“Achávamos que 70 pessoas eram o número máximo que podíamos comportar, mas estamos revendo essa premissa. Percebemos que, com um esquema presencial rotativo, cabe mais gente”, diz Vinicius.

Todas as competências e talentos são bem-vindos na GOMA. Mas um dos critérios de escolha para novos integrantes é a complementariedade de saberes. “A GOMA é um laboratório de desenvolvimento pessoal e de negócios incrível. Então o diálogo é fundamental, assim como saber sentar em círculo”, diz Vinicius. “A gente faz uma ‘reunião de pulso’ toda sexta. Aí discutimos finanças, comunicação, infraestrutura. É a hora de acharmos um consenso entre 25 empresas parceiras com visões naturalmente distintas. Às vezes mandar tomar no cu faz parte desse processo.”

“A GOMA é um laboratório de desenvolvimento pessoal e de negócios incrível. Então o diálogo é fundamental, assim como saber sentar em círculo. E às vezes mandar tomar no cu faz parte desse processo.”

Hoje cada associado da GOMA paga 645 reais por mês para ter seu negócio ali dentro. O residente tem direito à estrutura, ao “hardware”: escritório, internet, café, banheiro. Mas o mais importante, segundo Vinicius, é o acesso à rede, ao “software”, estar conectado ao ecossistema e interagindo diariamente com aquele somatório de expertises.

“Na Copa, um contrato com a FIFA, para a produção de brindes, que era inicialmente de 50 mil reais, virou um negócio de 500 mil reais – porque a entrega cresceu e o briefing foi ampliado com a participação da Zebu, da TerraVixta e da MateriaBrasil.

Marcos, diretor da GOMA, estima que o faturamento somado dos associados feche 2014 em algum ponto entre 5 e 10 milhões de reais. Ele e Vinicius sonham com o próximo passo, que é sistematizar a experiência da GOMA, como uma espécie de software livre de economia colaborativa e de negócios sociais, capaz de espalhar a experiência do empreendedorismo em rede para o resto do país.

Parece que cimento, cola e rejunte não vão faltar.

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