História de um renascimento. Agora, a recicladora WiseWaste tem fábrica própria e um novo nome: Boomera

- 19 de julho de 2017
Luiz Butti, que desistiu da aposentadoria para empreender na Boomera, ao lado do fundador Guilherme Brammer.
Luiz Butti, que desistiu da aposentadoria para empreender na Boomera, ao lado do fundador Guilherme Brammer.

A WiseWaste nasceu em 2012 com a meta de desenvolver produtos a partir dos mais incomuns materiais reaproveitados (incomuns mesmo, incluindo fraldas e cápsula plástica de café). Desde então parece que o foco na logística reversa é uma das poucas coisas que não mudou na empresa, que passou por transformações importantes, incluindo a dinâmica societária, a operação, a estrutura que sextuplicou de tamanho e, enfim o nome: a startup se rebatizou de Boomera. É uma junção das palavras de origem aborígene bumerangue, que vai e vem, com woomera, que significa alavanca. Tudo para mostrar a valorização dos ciclos que a empresa tanto preza: a economia circular.

A história da então WiseWaste saiu no Draft em 2014 (clique na imagem para ler).

A história da então WiseWaste foi publicada no Draft em 2014 (clique na imagem para ler a reportagem).

Quem conta a ideia por trás do novo nome e toda a evolução desde a última conversa com o Draft, em 2014, é Guilherme Brammer, 40, fundador que segue à frente do negócio, mas agora com Luiz Butti, 57, como sócio desde o fim de 2016, com 20% de participação.

Está tudo igual, mas diferente. A parceria começou em meados do ano passado mesmo, quando Butti se aposentou depois de uma longa trajetória por cargos de prestígio no mundo corporativo. “Ele queria investir em startups e ficar na vida mansa, mas começou a nos ajudar em alguns projetos e entrou de cabeça”, conta Guilherme, sem qualquer vergonha de assumir que virou os planos do então futuro sócio de cabeça para baixo.

Não tinha hora mais adequada para Butti chegar. No começo de 2016 a WiseWaste traçou o objetivo de ter uma fábrica, como Guilherme conta: “Nós sempre desenvolvemos a patente das nossas soluções de reciclagem, fazíamos toda a gestão, mas a produção era terceirizada. Com isso, os clientes nos viam como um intermediário, não como o fornecedor. Verticalizar era uma necessidade”. Enquanto tocava a produção com um parceiro em Barueri (na Grande São Paulo), com toda a estrutura arrendada, ele saiu atrás de fazer a planta (fábrica) própria virar realidade. Chegou até a viajar para a China em busca de máquinas e equipamentos para isso, mas acontece que uma possibilidade melhor surgiu antes de qualquer coisa avançar por este caminho.

Foi qunado a A Bemis, uma gigante do setor de embalagens, colocou à venda a sua operação em Cambé, no Paraná, que inclui a estrutura produtiva da Lonas Carreteiro e ainda uma área de reciclagem. Guilherme conta:

“Sou uma startup e nunca achei que tivesse bala para um investimento desses, mas aconteceu de a gente querer comprar bem quando eles queriam vender”

Ele não revela o valor do acordo, mas afirma que o aporte foi feito com capital próprio e deve se pagar em até um ano e meio. Assim, as chaves para a planta vieram para as mãos da então WiseWaste em maio deste ano. Nada mal para um startup.

O processo todo, diz Guilherme, foi amplamente apoiado na experiência do novo sócio, que é engenheiro de produção com grande conhecimento em operações. “Com a sociedade, ele toca essa parte e me deixa livre para olhar para os outros lados. Ele, que queria desacelerar, está empolgado, com cabeça de startup. É difícil tirá-lo da fábrica”, conta. Ele ouviu do filho de Butti, que também é engenheiro e trabalha na Boomera, que o pai está mudado, envolto por uma aura de jovialidade surpreendente para alguém que caminhava rumo à aposentadoria. “Ele veio me agradecer. Isso sim é reconhecimento. Vale mais do que qualquer vitória no negócio.”

O QUE FAZER COM UMA FÁBRICA DE LONAS?

A compra da fábrica em Cambé fez a Boomera saltar dos 30 funcionários que tinha até então para 120. Os planos são ambiciosos para os 36 mil metros quadrados da unidade, que tem capacidade para produzir 200 toneladas de lona por mês. O faturamento da empresa deve saltar para polpudos 100 milhões de reais até 2020. “É engraçado porque lona, a princípio, era um produto que não tinha nada a ver com a gente, mas agora tem tudo. Queremos desenvolver um modelo de aluguel, em que os transportadores usam o material durante a colheita da safra e nos devolvem para reformar depois”, diz. Como não poderia deixar de ser, Guilherme pretende desenvolver um conceito de reciclagem para o produto, fechando o ciclo ao transformar lona em resina plástica para fazer outros itens mais tarde.

No caminho inverso, na estrutura de reciclagem o empreendedor percebe espaço para transformar outros resíduos na matéria-prima para fazer as tais lonas. É o conceito que Guilherme tanto defende colocado em prática. Ele conta que seu foco é “levar soluções circulares para mercados lineares”, e dá um exemplo:

“O problema do plástico não é o material, mas o fato de usarmos ele errado. Ele é algo para fazer bens duráveis, não descartáveis”

Segundo ele, este conceito tende a crescer no Brasil com a política de descarte de resíduos, que coloca na mão das fabricantes a responsabilidade por dar o destino correto ao lixo gerado pelos seus produtos. Para isso, a empresa é procurada por grandes companhias e tem entre suas soluções uma patente para a reciclagem de fraldas, material responsável por 5% dos resíduos gerados no Brasil, de acordo com as contas de Guilherme. “Fizemos um projeto piloto em que coletávamos fraldas sujas em creches, transformávamos em resina que depois virava um cesto usado justamente para a coleta das fraldas.” Com os testes concluídos, o plano é atrair o financiamento de grandes fabricantes de fraldas para escalar o projeto.

Ao adquirir a fábrica, a startup saltou de dezenas para uma centena de funcionários: boa hora para implantar, também, uma nova cultura.

Ao comprar a estrutura da fábrica, a startup também saltou de 30 para 160 de funcionários: boa hora para implantar uma nova cultura.

A empresa também encarou o desafio de criar uma solução de reciclagem para cápsulas plásticas de café, a pedido da Dolce Gusto. “Eles têm uma fábrica sustentável em Minas Gerais e queriam um projeto de logística reversa que estivesse dentro deste conceito”, conta. A Boomera fez o desenvolvimento técnico de uma resina feita a partir dos resíduos. O insumo se transforma em produtos para a própria marca, como porta-cápsulas. Desenharam ainda o modelo para recolher o material: já são 27 pontos de coleta no Brasil e a ideia é ampliar.

A gama de clientes para estes grandes projetos que envolvem logística reversa e pesquisa e desenvolvimento já soma mais de 40 grandes nomes, como Unilever, Natura e Procter & Gamble. Enquanto isso, a empresa fortalece ainda a rede de clientes que compram e revendem os produtos feitos a partir de resinas recicladas. Aí o perfil é diferente, com grandes atacadistas, como a Leroy Merlin.

TROPEÇAR E LEVANTAR

A ampliação da empresa com a compra da fábrica foi um desfecho positivo para a crise de identidade que a Boomera enfrentou ao longo de 2015. Não era por falta de cliente. O desafio era essencialmente o oposto, como resume Guilherme: “Nós não sabíamos dizer não”. Segundo ele, as empresas chegavam com os mais diversos problemas ligados à sustentabilidade e eles abraçavam, ainda que não tivesse nada a ver com o negócio:

”Simplesmente não tínhamos as competências certas e virou uma bagunça, fizemos um monte de entregas ruins”

Depois de lidar com algumas indigestas reclamações dos clientes, Guilherme decidiu colocar a casa em ordem. Contratou um consultor para desenhar os limites do empreendimento. “Paramos de nos perder na ânsia do crescimento e voltamos ao nosso prumo com clareza dos problemas que a gente resolve.” Enquanto os negócios se ajustavam surgiu uma nova oportunidade: a empresa foi convidada para participar do programa de aceleração Braskem Labs.

Por lá tiveram acesso a pelo menos 30 mentores. Esse grupo levou clareza e ajudou a Boomera no processo de aquisição da fábrica. “A gente se apaixona pelo negócio e quer fazer tudo sozinho, mas vi ali que tem gente de fora que pode te ajudar a enxergar outras coisas, a desenhar estratégia. Gostaria de ter sido mais aberto, de ter procurado mentores antes. Com certeza teríamos crescimento mais rápido”, diz.

JÁ QUE A CRISE ERA DE IDENTIDADE, POR QUE NÃO MUDAR O NOME?

No caso da Boomera, a crise não matou o negócio, mas certamente o deixou mais forte. Guilherme coroa a evolução dos últimos anos ao reestruturar o modo de trabalhar da empresa. “Compramos a fábrica e eu não quero simplesmente impor a cultura da WiseWaste ali, quero construir uma nova cultura, como Boomera”, conta. Por isso, diz, mudar o nome foi tão importante. Para lapidar esta nova fórmula, o primeiro passo foi derrubar a hierarquia e ouvir os funcionários da fábrica.

Ele perguntou a cada um deles o que a empresa tinha de bom e eles não queriam perder e ainda qual outro sonho eles gostariam de realizar no ambiente de trabalho, onde estavam as oportunidades para melhorar. Este é um dos grandes ensinamentos da trajetória de empreendedor, diz Guilherme. “Lá no começo o que me apaixonava era o desafio técnico. Agora a minha motivação vem das pessoas”, conta, enfatizando o valor que dá para cada um que está ali, sonhando junto o sonho que, lá atrás, era só dele. “É daí que nascem os melhores resultados.”

Com a estrutura robusta dentro de casa, ele pretende internacionalizar o negócio a partir de 2018. Hoje a empresa já vende alguns produtos feitos com as resinas de descarte a outros países, mas o objetivo é levar o modelo de negócio, o desenvolvimento da solução de reciclagem, para clientes de outros países. O plano é começar pela América Latina, caminho mais natural, mas a ideia é chegar longe: “Gosto muito da Europa. Eles têm o conceito de economia circular muito mais fortalecido. Quero estar nos lugares vanguardistas”.

Entre os desafios técnicos, um dos próximos alvos da Boomera está no setor têxtil, em que a empresa começa a colocar os pés por meio de uma parceria com a marca carioca Reserva, com quem pretende desenvolver conceito de reaproveitamento de resíduos de tecidos. Parece que Guilherme mordeu a língua lá atrás: uma startup tem, sim, bala para fazer muita coisa.

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