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Início, meio e fim: a história da Casa Samambaia e a experiência de empreender quase só com paixão

- 23 de novembro de 2017
Ciça, Paula e Ana Rosa, no quintal da Casa Samambaia, um negócio que trouxe muito mais alegria do que lucro, embora não tenha dado prejuízo (foto: Marcos Vilas Boas).
Ciça, Paula e Ana, no quintal da Casa Samambaia, um negócio que trouxe muito mais alegria do que lucro, embora não tenha dado prejuízo (foto: Marcos Vilas Boas).

Em 2013, as amigas Ciça Pinheiro, 41, Ana Sardenberg, 36, e Paula Carvalho, 42, resolveram alugar uma casa antiga e bucólica na Vila Madalena, em São Paulo, e transformá-la em um laboratório de ideias, experimentações e encontros. Nascia a Casa Samambaia, empreendimento que encerrou suas atividades no dia 18 de novembro com uma edição especial do seu principal projeto: a Feira & Café, com pequenos produtores artesanais, comidinhas gostosas e um jardim para as pessoas se encontrarem e conversarem. “Um ciclo se fechou”, dizem as sócias.

Apesar da melancolia de colocar um ponto final em um empreendimento feito com muito tesão, as três não se sentem fracassadas e levam os ensinamentos de terem conseguido sustentar um negócio com qualidades de sonho para muito empreendedor: feito com prazer, sem operar no vermelho, sem colocar dinheiro do próprio bolso para mantê-lo — mas também sem ganhar dinheiro com ele.

Ciça é diretora de comunicação na Editora Todavia. Antes, foi diretora criativa na Trip, onde conheceu Ana (produtora de cinema) e Paula (diretora de arte), que também trabalharam lá. Quando as três decidiram alugar o imóvel, quatro anos atrás, não tinham ideia do que fazer ali. Elas amavam a casa e queriam transformá-la no “negócio ideal”. Essa foi a lógica. Durante a festa de despedida do antigo morador e proprietário (que é o marido da Paula), as três resolveram alugar o espaço. “Aquela festa fez a gente entender que aquele espaço tinha um potencial de receber e juntar pessoas”, conta Paula. E assim fizeram. “Eu me recordo que, no dia seguinte, liguei pra elas para confirmar se a gente tinha feito isso mesmo”, lembra Ana. Foi tudo sem planejamento, movido por uma vontade de fazer daquela casa um lugar de criação e encontro.

NÃO HAVIA BUSINESS PLAN. SÓ VONTADE DE FAZER ALGO LEGAL

Com um investimento inicial de 12 mil reais, elas fizeram uma pequena reforma e começaram a pensar em como aquele lugar poderia funcionar. Com muitos amigos vivendo um momento de inquietação, não querendo apenas trabalhar, mas também produzir algo de forma mais artesanal (soa familiar?), elas chegaram ao formato da Feira & Café, que foi o principal projeto da Casa Samambaia. “Convidamos esses amigos para expor e vender seus produtos na casa e deu muito certo. Saímos eufóricas e seguimos com edições mensais. Com o tempo, as pessoas começaram nos procurar para participar”, diz Ciça.

Em quatro anos, em média de 250 pessoas passaram pela casa a cada edição da feira, que tinha, no máximo, 13 expositores. Cada um pagava uma taxa de 100 reais para participar, mais uma colaboração de 20% sobre as vendas. “Sempre tivemos a preocupação de cobrar dos expositores o valor mínimo para a feira acontecer. E isso nos atrapalhou a ganhar dinheiro. Mas a gente entendia que se cobrasse muito mais, o produtor teria que aumentar demais o preço final e o produto teria um valor surreal para o consumidor”, diz Paula, e segue com uma reflexão que é a mágica e também o maior desafio de negócios feitos dessa forma:

“Queríamos que fizesse sentido para todo mundo. Mas percebemos que essa é uma equação muito difícil”

A Feira & Café foi o carro chefe, mas a casa recebeu outros formatos de evento, criados por elas. Os principais foram o “Salão de Desenho Anônimo”, um evento onde os ilustradores levavam suas obras que estavam na gaveta, sem assinatura, e todas eram vendidas pelo mesmo preço; “A Ocupação”, quando artistas usavam a casa para expor e vender suas obras por cerca de dois ou três dias; e o “Acadêmicos da Samambaia”, um espaço para apresentar de forma resumida e acessível duas teses de mestrado ou doutorado que tivessem alguma relação entre si, seguida por um bate papo sobre o tema (este último, criado em parceria com a designer Mariana Bernd). Nestes formatos, a remuneração vinha de uma porcentagem sobre as vendas, com exceção do “Acadêmicos da Samambaia”, que era totalmente gratuito. Nenhum deles gerou lucro. A receita mensal da casa ficava entre 12 mil e 15 mil reais, enquanto o custo fixo ficava entre 6 mil e 7 mil por mês.

O "Salão de Desenho Anônimo" foi um dos formatos de eventos criados na Casa Samambaia.

O “Salão de Desenho Anônimo” foi um dos formatos de eventos criados na Casa Samambaia.

Elas chegaram a fazer duas festas de casamento, mas desistiram de abrir o espaço para esse tipo de evento, por mais que pudesse ser lucrativo, porque tiveram problemas com um vizinho. Até hoje, elas recebem e-mails de gente querendo fazer festas na casa, mas recusam. “Entendemos que não iríamos conviver bem com o incômodo dos outros”, diz Paula.

MARCAS GRANDES AJUDARAM A PAGAR A CONTA DOS PROJETOS DO CORAÇÃO

Elas tinham um lugar incrível, tinham uma demanda razoável, e queriam manter aquilo fluindo. Aos poucos, a forma encontrada para continuar fazendo os projetos que elas amavam foi passar a alugar a casa para reuniões, workshops e cursos, além de aproveitar a beleza do lugar para ser usado como locação para filmagens e fotografias editoriais e publicitárias. Foi um bom acerto.

A frente do imóvel da Casa Samambaia: simplicidade é um conceito que elas preservaram em toda a jornada.

A frente do imóvel da Casa Samambaia: simplicidade é um conceito que elas preservaram em toda a jornada.

Grandes empresas, como Natura, Google, Facebook, Nestlé, Santander e Nike alugaram o imóvel para aquelas reuniões “que saíssem do ambiente corporativo” — e isso era tudo o que a Casa Samambaia oferecia. A tabela de preços variava de acordo com a finalidade. “Reuniões, palestras e workshops de empresas tinha um valor cheio. Para ONGs e cursos, o preço era em média 30% menor. E existia uma outra tabela para locação de fotos e filmagens”, conta Paula.

Esses aluguéis se tornaram a parte mais lucrativa do negócio, sem deixar de lado a preocupação de manter uma relação com a proposta despretensiosa da Casa Samambaia. “Quem quer ar condicionado, luxo e gente servindo não vai se identificar com uma casa em que a gente pede pra deixar a chave debaixo do tapete”, diz Paula. “Quando a gente via que a pessoa precisava de uma estrutura, não tinha como fingir que a casa daria conta daquilo”, completa Ciça. Isso tem a ver com a identidade do negócio, que elas fizeram questão de preservar em todos os projetos – inclusive nos aluguéis. Ciça resume: “Nunca abrimos mão de nada do nosso conceito para lucrar mais. A gente não conseguia”.

COMO É VIVER O FIM DE UM NEGÓCIO DOS SONHOS

Todo Plano B tem uma hora em que ou vira Plano A… ou acaba. E a Samambaia acabou. Os sinais do fim começaram há cerca de um ano, quando o movimento da feira diminuiu (de 250 pessoas, em média, passou para 150). Junto disso, a procura pelos aluguéis também caiu um pouco e as sócias contam que, com isso, a energia para pensar em novos projetos também ficou mais baixa. Paula fala de como a decisão de fechar as portas se construiu:

“Tivemos algumas reuniões até chegarmos à decisão final. Não foi fácil. Tudo de legal que tínhamos vivido dificultava uma decisão que já estava no ar”

Ela prossegue: “Durante esses quatro anos, tivemos um lugar onde aconteceram projetos que adoramos ter feito, conhecemos pessoas incríveis, nos testamos e aprendemos várias coisas. Com a crise, a explosão de lugares e formatos que se assemelhavam aos que fazíamos, além de aspectos pessoais da vida de cada uma, achamos que era o momento de acabar uma história para dar espaço a outras”.

O que sempre moveu o trabalho das três sócias foi o prazer de juntar as pessoas em projetos que elas adoravam fazer. Mas chegou um momento em que os projetos precisavam ser repensados. E, aí, faltou energia. “Enquanto a curva do aprendizado e do prazer estava crescendo, a gente estava feliz mesmo sem o lucro”, diz Ciça. “Mas teve um momento em que essa curva começou a mudar. O que era especial começou a ter em vários lugares e aquilo parou de ser desafiador”, completa Paula. Era hora de repensar os projetos. De admitir que o Plano B não se tornaria Plano A.

Registro da última feira realizada na Casa Samambaia, depois de quatro anos de atividades.

Quintal, bananeiras e público à vontade na última feira realizada na Casa Samambaia, depois de quatro anos de atividades.

Chegar ao fim nunca é fácil, mas este é também um momento muito rico se o empreendedor souber revisitar os próprios passos e ver onde poderia ter agido diferente. Elas acreditam que erraram em alguns pontos, por exemplo: ao terem ficado muito no plano da experiência, por não terem feito um planejamento do negócio e também por certa falta de organização — que existia justamente porque a Casa Samambaia nunca foi a principal atividade de nenhuma das três sócias.

“A feira nunca teve data fixa. A gente podia ligar para as pessoas em cima da hora que elas estavam prontas para participar. Quando muitas feiras surgiram na cidade, isso mudou e ficou mais difícil. A nossa desorganização estava atrapalhando a nossa vida”, diz Paula, e prossegue: “A gente não quis determinar que a feira fosse sempre no primeiro sábado do mês, por exemplo, porque poderíamos perder uma grande oportunidade de ganhar dinheiro com os nossos trabalhos”.

Apesar da frustração e de certa melancolia pelo fim, não há sensação de fracasso. “Existe um componente emocional muito forte nesse negócio e por isso não dá para olhar para ele e dizer que não foi um sucesso. É um lugar que a gente queria construir com todos os nossos ideais”, diz Ana, e prossegue: “A gente fez escolhas muito nobres ali e isso me deixa orgulhosa”. Por tudo isso, as três consideram a Casa Samambaia um case de sucesso.

CASA DE FERREIRO, ESPETO DE PAU

Um sucesso agridoce, talvez, por não ter conseguido solucionar a maior equação a que se propunha: equilibrar os ideais (como preço justo, valorização dos produtores e artistas, não cobrar valores exorbitantes dos consumidores, não descaracterizar o clima descontraído e rústico da casa) com a lucratividade. “Não achamos uma maneira de ganhar dinheiro sem comprometer tudo isso”, diz Paula. “Sempre quisemos que fosse um negócio lucrativo, mas nunca quisemos abrir mão dos ideais para isso”, completa Ciça.

O fato de não terem se atirado de cabeça, deixado seus outros trabalhos para se dedicar apenas à Casa Samambaia, também pesou. Elas contam que nunca sentiram que era a hora de dar o grande salto. Ciça fala sobre isso:

“A frustração que fica é que não conseguimos fazer para nós mesmas o que fazemos tão bem para os outros. Somos da comunicação e, em quatro anos, não tivemos site nem cartão de visita”

Por outro lado, seguir a intuição e abrir espaço livre para testarem o que quisessem elas consideram que foi o grande acerto da Casa Samambaia. “Foi uma oportunidade de vida poder experimentar. Sabe essa coisa de ter dinheiro pra fazer o que você quer? A gente viveu um pouquinho isso. A gente tinha o dinheiro para sobreviver, correu atrás e deixou esse espaço livre para experimentar uma coisa ou outra. A minha frustração é não ter conseguido fazer isso e ganhar dinheiro. Mas não ficamos muito longe disso”, diz Paula, que continua com o imóvel na família e espera ver novos projetos surgirem por lá. “Se o espaço continuar, o projeto Samambaia pode voltar com algo novo. Mas, por enquanto, está adormecido.” Até rebrotar.