“Já criei tanta empresa que hoje não tenho mais essa gana de ser empreendedor e ter lucro com startup”

- 24 de outubro de 2016
Com 26 anos de internet, Edney Souza – o InterNey – abriu e fechou empresas, foi um dos “reis da blogosfera” e hoje quer trabalhar sozinho e perseguir a sua própria ideia de sucesso.
Com 26 anos de internet, Edney Souza – o InterNey – abriu e fechou empresas, foi um dos “reis da blogosfera” e hoje quer trabalhar sozinho e perseguir a sua própria ideia de sucesso.

Há uma década, Edney Souza, 40, – mais conhecido como “InterNey” web afora – já era considerado umas das 10 celebridades da internet brasileira. Bem antes da era dos youtubers, dos influenciadores, nômades digitais etc. Quando trabalhar com internet de forma independente ainda era um mistério para a maioria das pessoas. Hoje, o cara mantém a sua relevância na InterNey, oferecendo consultoria de marketing de conteúdo, mentoria, sendo curador de eventos, dando aulas de pós-graduação. A lista é grande, mas para quem sempre foi um “fuçador profissional” do mundo digital, ela faz todo sentido.

O plano nunca foi se tornar uma autoridade. “Eu fui reagindo às coisas que foram acontecendo”, ele diz. “Eu era rato de biblioteca, do tempo em que as pessoas xerocavam a revista Bizz para ler letra de música. Aí, comecei a pensar que o conteúdo de papel já era, porque quando todo mundo tivesse internet, estaria tudo ali”. Ele tinha razão. E o mercado editorial seria só um dos que sentiram os efeitos.

Edney começou a programar aos 13 anos e chegou a trabalhar como desenvolvedor de softwares corporativos. Em 1996, começou a criar sites, e a primeira experiência foi a sua própria página. “Comecei a falar com o usuário final, ensinar como instalar antivírus, fazer backup. Aí começaram a aparecer as novidades na internet, tipo o ICQ, eu explicava como baixar e usar. Eu gostava de explicar para as pessoas como usar a tecnologia”, ele conta.

Quando o blog se tornou uma ferramenta mais popular, Edney passou a explicar a seus leitores como eles poderiam fazer os seus próprios blogs. É importante lembrar que as ferramentas eram mais primitivas naquela época. Os comentários não eram nativos, por exemplo. O usuário tinha que instalar, entender de códigos HTML para inserir imagens, links etc. Em 2001, depois de mudar para um servidor dedicado, a conta já não fechava mais.

Na época em que tinha muito tráfego no seu site, Edney gastava mais de 5 mil reais – o equivalente a 10 mil reais hoje em dia – por mês para mantê-lo no ar, que pesavam no seu salário de analista de sistemas. Daí em diante, a evolução foi rápida. “Comecei a pensar em como poderia ganhar algum dinheiro com isso. Em 2004, eu já ganhava mais com publicidade do que com meu salário de gerente de sistemas. Em 2005, criei coragem e larguei a carreira de 15 anos tecnologia”, conta.

COMO ERA VIVER DE INTERNET HÁ UMA DÉCADA?

Depois de um mês trabalhando com internet em casa, Edney foi descrito por um jornalista como o primeiro “problogger” (blogueiro profissional) brasileiro. “Eu dava entrevista todo dia, depois toda semana, todo mês, e até hoje as pessoas me procuram por isso”, afirma.

Foi aproveitando esse frisson que ele criou o InterNey blogs, em 2007, um portal de blogs onde os autores escreviam, ele instalava as tecnologias de publicidade, fazia a otimização de SEO, e todos rachavam a grana – 80% para quem escrevia e 20% para ele.

Neste primeiro empreendimento, os amigos e parceiros Ian Black (do grupo New Vegas), o consultor Alexandre Inagaki e André Rosa (o Marmota) fizeram parte da força-tarefa. Poucos meses depois, o iG fechou um contrato eles – e conseguiu ultrapassar outros portais graças à audiência extra trazida pelo InterNey blogs. Mas isso não fez Edney se acomodar. Pelo contrário, ele passou a olhar o que rolava fora do Brasil, onde muitas pessoas começavam a ser vistas como cocriadoras de conteúdo para marcas. Ele lembra:

“Eu achava muito pobre os blogueiros daqui fazerem só publieditorial e ponto. Não tinha esse conceito de influenciador, do cara que saiu do zero para uma audiência”

Esse foi o primeiro impulso para ele começar a oferecer consultoria para empresas trabalharem com influenciadores. A oferta chamou a atenção de algumas empresas, como a RMA Comunicação, e dessa parceria surgiu a agência Polvora!, uma das primeiras do país focadas em mídias sociais.

Edney Souza, o InterNey, começou a programar aos 13, teve blog, teve agência de blogs, teve agência digital, hoje é professor e consultor.

Edney Souza, o InterNey, começou a programar aos 13, teve blog, teve agência de blogs, teve agência digital, hoje é professor e consultor.

Mas o que Edney queria mesmo era explorar branded content. (Veja só, isso lá em 2008, quando essa expressão ainda era desconhecida por muitos profissionais da comunicação). “Os investidores não acreditavam nisso, queriam que eu replicasse o modelo do InterNey. Então saí do negócio e fui para a boo-box, onde eu já era conselheiro e acabei virando sócio (mas nunca realizei as minhas ações). Fiquei lá até 2012 e desanimei um pouco. Foi bem na época do meu divórcio. Então vendi minha parte da Polvora! e fui trabalhar de forma independente como consultor”, diz.

O SEU SUCESSO É VOCÊ QUEM DETERMINA

“Nasci na periferia, estudei em colégio público, mas tive uma educação muito boa. O meu modelo era trabalhar numa metalúrgica por 20 anos e me aposentar”, conta Edney. Uma vez que passou a trabalhar com internet, ele diz ter se sentido empurrado para o universo de startups e IPOs, porque era o que o mercado dizia que era sucesso. Mas, ao longo do tempo, percebeu que a ideia não colava. Ele fala a respeito:

“Sucesso não precisa ser ganhar Cannes. Para mim, é trabalhar sozinho, viajar”

Ele prossegue: “Tem uma parcela da sociedade que não precisa se preocupar com dinheiro, mas lida com ele como se fosse oxigênio. Não é por aí.” Ao contrário de muitos empreendedores seriais que buscam uma evolução (em termos de lucro) no seu currículo, Edney diz ter outras ambições. Hoje, ele trabalha sozinho pela liberdade: “Já criei tanta empresa que hoje não tenho tanto essa gana de ser empreendedor e ter lucro com startup”.

Foi essa liberdade, aliás, que permitiu que ele prolongasse a sua entrevista com o Draft, concedida por Skype, do conforto da sua casa, para ir além da sua trajetória e falar do que ele vê como positivo e negativo no mercado de comunicação atual e quais são suas maiores previsões para o futuro. A seguir, alguns dos tópicos mais interessantes da nossa conversa:

A tecnologia do futuro
“Tenho um otimismo grande em relação à realidade mista, que é um conceito que os acadêmicos usam. É o que o Pokémon Go oferece. Ela adiciona uma outra camada à realidade natural, de tijolo e cimento, deixa mais interessante. Mas não cria inteligência necessariamente, como a realidade aumentada, que te dá superpoderes, como o de calcular o fator FPS de protetor solar que você precisa usar baseada na intensidade dos raios UV, por exemplo”

Dilemas do marketing digital
“O que acontece no mercado de marketing de conteúdo é o cara dizer que é especialista em marketing digital, que faz tudo muito bem, que é growth hacker. Mas ele já lançou uma campanha, lidou com pessoas, fez ajustes, conseguiu gerar retorno para empresas? A maldição que o mercado de marketing herdou do mercado de tecnologia são as certificações. Se dizer um ‘profissional certificado’ do Google, Facebook, mas não ter experiência prática”

Relevância online
“Antigamente, você virava influenciador por acidente, hoje não dá. A cada ano, a produção de conteúdo na internet vai se tornar mais competitiva, porque existe mais pluralidade. E isso dilui a receita das empresas entre os criadores de blogs, canais de Youtube, Instagram, Facebook. A oportunidade que vejo é a criação de conteúdos especializados, que vão atender uma audiência de um assunto específico. Nesse cenário, vão surgir um monte de microinfluenciadores, mas pouquíssimos vão gerar receita direta de publicidade, enquanto outros vão remunerar a sua reputação de outras maneiras”

Remuneração de influenciadores digitais
“Da forma que o mercado é estruturado, você que tem que ter uma agência. Eu, como produtor de conteúdo, posso viver de mecenato (de apadrinhamento), de financiamento coletivo (para projetos específicos). Se tenho reputação no segmento, posso ter um e-commerce de produtos relacionados, vender consultoria na minha área, posso vender conteúdo para empresas”

Futuro do mercado de comunicação
“Os grandes grupos de comunicação estão comprando as pequenas agências de performance, o que é um modelo viável ainda, talvez o único, porque fica caro ter um time de especialistas. Não sei se a publicidade tem muito futuro, para ser bem sincero. Porque para comprar mídia no Google, Linkedin e no Facebook, você negocia direto com eles. Existe cada vez menos necessidade de intermediários. Para mim, o branded content é o que mais se parece com o futuro”

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