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“Já pensou que a volta do conservadorismo pode ser um indicador de impacto das lutas sociais?”

- 5 de setembro de 2016
Renata Truzzi faz uma reflexão sobre as lutas sociais: "O feminismo precisa de homens para ser efetivo no longo prazo. Os movimentos LGBT precisam de heteros para ter resultado. Os negros precisam de brancos para lutar com eles e por eles. Os imigrantes precisam dos nativos. Os pobres precisam dos ricos. O setor público precisa do privado e vice versa".
Renata Truzzi faz uma reflexão sobre as lutas sociais: "O feminismo precisa de homens para ser efetivo no longo prazo. Os movimentos LGBT precisam de heteros para ter resultado. Os negros precisam de brancos para lutar com eles e por eles. Os imigrantes precisam dos nativos. Os pobres precisam dos ricos. O setor público precisa do privado e vice versa".

 

por Renata Truzzi

Minha proposta é essa mesmo: Que tal comemorarmos a volta do conservadorismo como um indicador de impacto de nossas lutas sociais e de diretos humanos das últimas décadas?

Mas, calma: por favor leia o que tenho a dizer até o fim antes de me xingar!

Talvez a atual sensação da volta da força do conservadorismo mundial e tudo o que vem geralmente atrelado a ele — homofobia, machismo, intolerância, misoginia, xenofobia, preconceito dentre outros horrores, — possa ser, lá no fundo, uma boa notícia.

Sei que sou otimista perigosa daquela que pode ficar cega aos fatos ao querer enxergar o outro lado das coisas. Mas sinto que tudo o que vivemos hoje pode ser uma reação aos bons resultados que temos atingido em nossas ações pelas causas que militamos contra os movimentos listados acima.

Será que o sucesso de nossas lutas tem sido tão grande assim? Espero que sim. Prefiro pensar que sim. O mundo de hoje é diverso. E viva a diversidade!

Diversidade é algo lindo de se ver, mas incomoda

Essa reflexão brotou em mim depois de eu participar de um evento de dois dias, em São Paulo, no qual discutimos negócios de impacto social, novas modalidades de investimentos para esses negócios, avaliação e mensuração de impacto, comunicação para o impacto, oportunidades e desafios, tecnologia, dentre outras temáticas, assinou-se parceria com o Governo Federal pela Força Tarefa de Finanças Sociais e fizemos muito networking do bem.

O fato é que, se pararmos para pensar, ainda temos um longo caminho a percorrer. São inúmeras as causas pelas quais lutamos diariamente, mas vou me concentrar na que mais me comove atualmente: a equidade de gêneros.

Ainda temos que colocar luz ao fato de que não encontramos muitas mulheres entre os palestrantes dos nossos eventos (não por falta de esforço dos realizadores) e não encontramos muitas mulheres entre os empreendedores de impacto. Por quê? Talvez porque também não encontremos muitas mulheres como investidoras de impacto, nem entre os cargos de liderança ou Conselho das principais organizações de nosso país, ou no Congresso Nacional. Mas por que, se há pelo menos 30 anos lutamos lindamente por essas questões de inclusão e equidade?

Substitua a palavra mulher no parágrafo acima por alguma minoria ou grupo marginalizado e as sentenças ainda serão verdadeiras. São tantas causas sociais e, felizmente, tanta gente lutando por elas que não entendo porque em 2016 ainda nos fazemos essas perguntas. Ou outra pior: por que a volta do conservadorismo inconsequente e retrógrado?

Talvez porque a educação que tivemos nos levou a esse status quo e somente daqui duas ou três gerações esses frutos poderão ser colhidos. Não é raro perceber que nossas famílias ou nossos melhores amigos não entendem nossas causas.

Não é raro ter que traduzir nossas mensagens para sermos entendidos. Às vezes dá preguiça, vontade de se isolar do mundo, “ir morar numa ilha deserta”. A maioria dos que lutam pelas causas sociais e ambientais, pelos direitos humanos, o faz há muito tempo, praticamente desde que se conhece por gente. E ver movimentos contrários voltarem tão forte (vide Trump, Brexit, Bolsonaros, Felicianos e afins) dá mesmo depressão, vontade de sumir ou de desistir. Mas, como eu disse, não podemos!

Temos que conseguir levar o nosso olhar a uma nova perspectiva. Temos que nos colocar num lugar a partir do qual a gente possa crer que tudo isso nada mais é uma re-ação perante o sucesso de nossos passos. É dolorido passar por isso, mas temos que enfrentar e acreditar que se vencermos mais essa estaremos muito mais fortes e possivelmente promovendo uma grande e legítima transformação social. Por um mundo mais justo, com mais empatia, com mais amor, no qual possamos realmente viver e não apenas sobreviver.

Em nossa mesa temática sobre igualdade de gêneros concluímos que seria melhor falarmos de equidade de gêneros.

Não somos, homens e mulheres, iguais, nem nunca seremos. E isso não é um problema. O problema é não conseguirmos nos respeitar uns aos outros

O problema é ainda termos que pensar em ações para incluir a mulher (ou o negro, ou o pobre ou o imigrante) no mercado, caso contrário, somos todos invisíveis. O problema é nos sentirmos impotentes nessas lutas após décadas de esforço e muito trabalho. O problema é acharmos que somente mulheres devem lutar pelas mulheres, ou que somente negros devem lutar pelos negros e assim por diante.

Há tanto o que ser feito que não podemos nem pensar em parar. Temos que ampliar nossas lutas e trazer mais gente para elas. O feminismo precisa de homens para ser efetivo no longo prazo. Os movimentos LGBT precisam de heteros para ter resultado. Os negros precisam de brancos para lutar com eles e por eles. Os imigrantes precisam dos nativos. Os pobres precisam dos ricos. O setor público precisa do privado e vice versa.

Caso contrário, estaremos apenas enfatizando os problemas e aumentando a exclusão de cada minoria. Já chegamos muito longe, mas precisamos de muito mais gente conosco em nossas causas. Em vez de desistir agora, vamos nos fortalecer e reconhecer nossas conquistas. Nossas conquistas incomodam, tiram as pessoas de sua zona de conforto, preocupam aqueles que não conseguem se colocar no lugar do outro, dão medo àqueles que preferem continuar na sua doce e segura ignorância.

Topa entrar para essas lutas e, assim, focarmos nossas energias na beleza e riqueza da diversidade? Um mundo mais diverso será mais bonito, mais interessante, mais leve e mais rico. Sim, mais rico em todos os sentidos.

Sem ignorar as dores que esse movimento nos traz, que tal comemorarmos a volta do conservadorismo como um indicador de impacto de nossas lutas sociais e de diretos humanos das últimas décadas? Ao reconhecermos isso, teremos a inspiração necessária para prosseguir.

 

Renata Truzzi, 39, é diretora executiva e responsável pelo portfolio de negócios sociais da NESsT no Brasil. Também membro do comitê executivo da ANDE no Brasil, do Conselho consultivo da Retalhar e do Conselho da Captamos.

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