Leiturinha: uma empresa que faz curadoria de livros infantis, entregues em casa para os pequenos leitores

- 23 de novembro de 2015
Guilherme Martins, sócio da Leiturinha, e sua filha, Valentina, na sala de casa, com os livros recebidos por ela.
Guilherme Martins, sócio da Leiturinha, e sua filha, Valentina, na sala de casa, com os livros recebidos por ela.

Uma criança de 9 anos recebe um livro em casa, em um pacote colorido e cheiroso, em nome dela. O livro é uma surpresa. Foi escolhido e embalado com cuidado. Dentro, uma cartinha. Essa é a proposta do Leiturinha, clube de assinatura de livros infantis criado por Guilherme Martins, 37, Luiz Castilho, 34, e Rodolfo Reis, 34.

Guilherme percorreu um longo caminho até chegar ao Leiturinha. Assim como seus sócios, se formou em engenharia na Unicamp. Depois da faculdade, passou um ano na Europa estudando e, quando voltou, não foi trabalhar na área de formação. Ficou um ano exercendo diferentes funções na implantação da TIM no Brasil, apesar do cargo de analista de planejamento. Em seguida, deixou o emprego para trabalhar na empresa da família, de distribuição de benefícios de RH. Fez carreira na área de tecnologia e chegou a ter um time de 60 pessoas. Foi quando resolveu um MBA na FGV/SP, na área de TI. Lá, conheceu Rodolfo.

“Nos conhecemos e sempre mantivemos contato. Nos encontrávamos para conversar sobre empreendedorismo. No fim de 2013, o Rodolfo me procurou com a ideia de explorarmos o mercado infantil na parte de literatura. Nós dois estávamos casados, com filhos pequenos, essa foi a inspiração inicial para o negócio”, conta Guilherme.

Antes de a ideia surgir, um pouco mais cedo em 2013, a empresa da família de Guilherme havia sido vendida. Apesar de seguir como VP de tecnologia, a vontade de empreender algo próprio estava cada vez mais latente. Foi quando vontade e oportunidade se encontraram. Rodolfo apresentou a Guilherme um outro amigo, Luiz, e os três começaram a desenvolver melhor a proposta.

UMA IDEIA DE NEGÓCIO TESTADA, ANTES, ENTRE AMIGOS

“A gente começou sem o compromisso de ter que dar certo. Todos tinham empregos paralelos. Isso foi importante, porque tornou tudo mais prazeroso”, conta Guilherme. Desde o início, a ideia dos sócios era encantar as crianças e, com isso, incentivar a leitura. “A gente prestou muita atenção nos pequenos detalhes. Queríamos que os pais se encantassem com o encantamento das crianças ao receberem os livros.”

Pensaram então em como envolver as crianças no processo de recebimento e leitura do livro selecionado: personagens, embalagem em papel reciclado, cheirinho, processo manual de empacotamento e o nome da criança no pacote. O próximo passo foi testar a ideia com os amigos ao redor. “Nessa hora, a gente estava pensando no conceito, não no business plan”, diz Guilherme.

Todo mês, a criança assinante da Leiturinha recebe pelo correio um pacote personalizado com um novo livro.

Todo mês, a criança assinante da Leiturinha recebe pelo correio um pacote personalizado com um ou dois livros novos, selecionados por uma equipe de psicólogos e pedagogos.

 

 

Os amigos com filhos aprovaram a ideia, que se materializou em maio de 2014, quando o site entrou no ar. O investimento inicial no negócio foi de 900 mil reais, angariados entre os sócios. Nascia o Leiturinha, clube de assinatura de livros infantis que hoje tem mais de 9 mil assinantes por todo o Brasil.

O funcionamento é simples. O assinante escolhe entre dois planos de assinatura: de um livro por mês (por 34,90 reais) ou dois livros mensais (por 54,90), para crianças de até 10 anos de idade. Os planos têm duração mínima de três meses. Também é possível enviar de presente o “Gift”, um pacote com dois livros, por 69,90 reais. O frete tem valor fixo para todo o Brasil: 9 reais.

Além do cuidado com a embalagem, outro diferencial é que todos os livros são selecionados por uma equipe de psicólogos e pedagogos — e enviados para as crianças com uma cartinha aos pais, contendo explicações e instruções  de como melhor empregar aquela leitura e os temas específicos abordados. Guilherme fala dessa relação:

“Não temos como clientes um tipo específico de pais. São pais que se preocupam com a educação dos filhos e querem que eles cresçam lendo bastante, só isso”

Logo depois do lançamento, os sócios notaram reação positiva da maioria das pessoas e uma grande empatia pelo negócio. “As pessoas valorizaram a ideia. Dava para ver que a gente tinha desenvolvido tudo como se fosse para nossos próprios filhos”, diz o empreendedor. Ao mesmo tempo, muitas questionaram o valor dos planos, o que levou os sócios a tentarem esclarecer com muito afinco a proposta de valor por detrás do Clube.

DESAFIOS: DEFENDER A PROPOSTA DE VALOR E LIDAR COM A LOGÍSTICA

Guilherme conta que, uma dia, viu nas redes sociais o comentário de uma moça sobre o Leiturinhas. Ela dizia que com cinquenta reais poderia levar a filha para passear, comprar três livros e ainda pipoca. “Fiz questão de responder e explicar que o nosso valor era muito maior, intangível. Fazemos um trabalho de curadoria e envolvimento das crianças e dos pais com o processo de leitura”, conta ele. Este é apenas um exemplo de como é valioso estar atento a tudo para que uma boa ideia não se transforme num mau negócio.

Os sócios aproveitaram os feedbacks nesse sentido e lançaram, em fevereiro deste ano, o aplicativo Leiturinha Digital. Instalado em tablets ou smartphones, dá acesso a um acervo de mais de 600 e-books infantis, vídeos de contação de histórias e clips de música da banda Pequeno Cidadão. A assinatura do serviço digital custa 12,90 por mês.

A ideia dos sócios era, além de expandir o serviço para o mundo digital, aumentar o valor percebido para os assinantes do Clube, que ganharam acesso gratuito ao material online. “Não dá para brigar com o feedback das pessoas. Os comentários nas redes sociais é o que eu tenho de mais valioso”, diz Guilherme. A aposta indica que o caminho era bom: enquanto há 9 000 assinantes do Clube Leiturinhas por correio, o serviço digital possui hoje 11 ooo usuários.

Com o tempo e o crescimento do negócio, outros problemas operacionais começaram a surgir, enre eles a dificuldade de emissão e pagamento de boletos, a logística de empacotamento e distribuição, planejamento de compra de livros, a relação com as editoras e, até mesmo, a dificuldade de acompanhar os vários feedbacks emitidos por usuários nas redes.

Guilherme diz que, nessas horas, a divisão clara de tarefas entre os três ajuda muito. “O Luiz lida com a parte operacional, eu com estratégia e posicionamento e o Rodolfo com marketing”, diz. Ter a estrutura física e a equipe toda em Poços de Calda também é um fator positivo, fazendo com que todo o custo da operação fique menor.

ALÉM DE UM BOM NEGÓCIO, HÁ A NECESSIDADE DE UM RECORTE SOCIAL

Hoje, o Leiturinha entrega livros em 1 800 cidades por todo o Brasil. “Dois terços da base de cidades é do interior, muitos lugares que não têm livrarias de qualidade”, diz  Guilherme.

Para os sócios, uma das coisas mais importantes do negócio é dar acesso à leitura para crianças que não têm. Foi o que impulsionou o surgimento do Amigos da Leiturinha, a parte social do negócio, que estimula e recebe doação de livros infantis que são selecionados e curados pela equipe e doados à instituições diversas. Além de doações, as pessoas podem ajudar custeando a logística de deslocamento dos livros doados.

Os livros da Leiturinha são recomendados para crianças de até 10 anos.

Os livros da Leiturinha são recomendados para crianças de até 10 anos.

Quando questionado sobre a maior mudança que o negócio trouxe na sua vida, Guilherme fala sobre os benefícios de se expor em um empreendimento próprio. “Não existe argumento contra a leitura. É muito recompensador ver que conseguimos estruturar algo próprio, que gera um impacto positivo e que tem um mundo de possibilidades pela frente”, diz.

Este ano o faturamento será de 2,2 milhões de reais, e a projeção para 2016 é chegar os 6 milhões. Guilherme e os sócios acreditam ter ainda muita história para contar. Em um mundo cada vez mais digital, é bom ver que a relação com os livros físicos ainda pode ser um bom negócio, além de ser apaixonante, estimulando a criatividade das crianças e o vínculo entre pais e filhos.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Leiturinhas
  • O que faz: Clube de assinatura de livros infantis e acervo digital de vídeos e e-books
  • Sócio(s): Guilherme Martins, Rodolfo Reis e Luiz Castilho
  • Funcionários: 18
  • Sede: Poços de Caldas (MG)
  • Início das atividades: maio de 2014
  • Investimento inicial: R$ 900.000
  • Faturamento: R$ 2,2 milhões (previsão para este ano)
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