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“Meu mercado estava em crise. Não fiquei parado esperando ele morrer”

- 9 de agosto de 2016
Guilber tem 32 anos. Antes de ser fotógrafo, foi faxineiro, pedreiro, garçom. Hoje ele empreende na Bufalos TV.
Guilber tem 32 anos. Antes de ser fotógrafo, foi faxineiro, pedreiro, garçom. Hoje ele empreende na Bufalos TV.
por Guilber Hidaka

“Estamos crescendo”, anunciei à minha, até então, pequena equipe há pouco mais de um ano. Obviamente que esta era (e ainda é) uma notícia ótima. Até porque continuamos crescendo. Mas se pensarmos por um lado mais racional da coisa, é fácil entender que o crescimento, por si só, não é apenas uma grande notícia. É algo extremamente desafiador.

Tudo começou na primeira década dos anos 2000, quando eu era fotógrafo. Era algo que eu queria há muito tempo: ser fotógrafo em revista automotiva, pois sempre fui muito fã de carro. Mas, dentro de mim, antes mesmo de querer fotografar, sempre mantive um sonho de empreender.

Trabalhando para as principais revistas do setor, aprendi muito, viajei muito e, uns anos depois, já me sentia realizado. Ainda assim, sempre tive um “incômodo”, uma vontade de ter meu próprio projeto. Transitando entre as redações, eu ficava muito interessado em saber quem eram os donos dos títulos e seus objetivos com aquelas publicações. Era algo me cativava.

Fotografando, eu passava muito tempo na rua e, conversando com as pessoas do meio, percebi que o mercado de revista impressa estava caminhando para uma grande crise — hoje já em fase mais aguda. Senti isso na pele com o meu próprio rendimento começando a cair. É óbvio que eu, como freelancer, não pude esperar para ver no que ia dar.

Nesta época, eu usava uma câmera, a Canon 5D, um dos primeiros equipamentos profissionais que, além de fotos, fazia vídeos com qualidade muito próxima às câmeras de cinema, entregando uma fotografia muito superior às de broadcast, que são essas de grande porte, usadas na TV. Vi ali uma grande oportunidade, afinal eu tinha a ferramenta em mãos e já estava nas pautas.

Ao migrar da fotografia para o vídeo eu não apenas salvava a minha pele: era a grande oportunidade da minha vida, a chance de eu criar meu próprio projeto

Resolvi, então, criar um canal de Youtube com um amigo, já pensando em ter minha marca, em mostrar meu trabalho para as empresas, usando o espaço do canal apenas como uma vitrine — enquanto outros estavam tentando rentabilizar com views. No fundo, o que eu já queria mesmo era ser como o Google, e não só trazer mais receita para eles.

Não demorou muito. Começamos a postar os primeiros trabalhos e já chamamos a  atenção do mercado automotivo, que estava precisando de uma reciclagem. Desde essa época, meu objetivo era contar boas histórias, até então com a fotografia, mas a partir daquele momento com vídeos — editoriais ou publicitários.

Logo conquistei os primeiros clientes, como o Webmotors, um dos maiores canais automotivos do país (que está até hoje conosco), e consegui algum investimento para pensar em abrir minha própria empresa. Comprei um ônibus ano 1989, onde montamos nosso primeiro “QG”. Nesta época, além do meu amigo, eu já tinha uma jornalista e um editor de vídeo me ajudando. Praticamente tudo o que eu ganhava ia para o projeto, pois eu tinha a intuição que o negócio ia crescer. Caí de cabeça

A coisa foi rápida. No ano seguinte, eu já tinha mais dois funcionários e trocamos o ônibus por uma loja de shopping, de 70 m². Lá, satisfeito, eu quis fazer tudo o que tinha vontade: uma linha de roupa, um coworking, um café (…). Tudo com a marca Bufalos, nome escolhido justamente para não ter conexão só com o mercado de carros. Eu queria ter uma marca de tudo que pudesse vir pela frente.

De repente, percebi que certas coisas não eram prioridade, por mais que eu quisesse muito. Às vezes, é preciso abrir mão de umas vontades e focar no que é importante

Por isso tirei o pé de alguns projetos (como a loja, o coworking e o café), que pretendo me dedicar futuramente, para focar no que realmente era mais importante: organizar a casa e investir em produção de conteúdo.

Na loja, a Bufalos ficou até 2015, que foi um ano bom para o nosso negócio, mesmo em tempos de crise. Acredito que esse sucesso esteja totalmente ligado à oportunidade que enxergamos: atuar em um “subnicho” de mercado, produzindo vídeos de alta qualidade, mas com uma equipe enxuta, tornando o produto final viável para clientes com budget reduzido.

Sinto que muitas empresas de conteúdo deixaram de acreditar em seu poder de contar histórias de maneira atraente, e talvez nesse ponto a gente tenha se destacado. No ano passado, crescemos mais que 100%, conseguimos aumentar faturamento, assim como nossa a equipe (hoje somos 17 pessoas). Aí surgiram mais algumas dificuldades, ou melhor, desafios.

Como crescer tão rápido, de forma organizada em todas as áreas, algumas delas que nem existiam? Como encontrar pessoas? Nem sempre um profissional com experiência vai se adaptar à nossa cultura. E como gerenciar essa galera?

Como cuidar da parte financeira e burocrática?  Como manter a motivação da equipe? Tive que aprender na marra

Nunca fui o melhor dos alunos na escola, mas nesses três anos como empreendedor acho que fiz “muitas faculdades” (de finanças, marketing, gestão, de tudo ao mesmo tempo). Hoje busco o primeiro sonho de sempre, que é ter uma grande marca com nosso nome. Meu desafio maior é gerir um time jovem, de modo que eles fiquem no mesmo estado de espírito que eu, produzindo conteúdo, viajando, conhecendo boas histórias a serem contadas.

Eu, que nunca trabalhei em empresa grande, agora sei que mesmo uma pequena empresa, com 17 pessoas, precisa ter regras. Nós desde sempre testamos tudo: se deu errado, na semana seguinte, mudamos a regra. Ainda assim, o meu grande desafio, hoje, é criar essas novas regras.

Fico me pensando, por exemplo, como o Google cresceu “tão rapidamente” e continuou com sua cultura de inovação? Quais são as regras lá? Ao mesmo tempo, sei que as regras que eles criaram funcionam lá, e não aqui necessariamente. Ouço muito que cada startup funciona de um jeito, e acredito nisso. Hoje, para uma pessoa entrar no nosso time, é preciso ter um sonho claro na cabeça e estar disposta a aprender uma nova cultura.

Com medo de tirar o tesão das pessoas, relutei em aceitar que era preciso ter regras. Mas foi inevitável

Não gostamos de hierarquias engessadas, mas a solução que encontrei foi passar a dividir as responsabilidades com todos do nosso time. Todos criam as regras, e eu participo, seguindo à risca o que foi estabelecido.

Nosso projeto hoje funciona gerando conteúdo para as marcas, que é de onde vem todo nosso capital. Na fase atual, 70% dessa renda é reinvestida em conteúdos próprios, nas ideias que nascem aqui. Essas duas “rodas” são movidas pela nossa paixão por contar grandes histórias. Para nós, a engrenagem que criamos, a nossa cultura, está diretamente ligada à motivação de realizar sonhos e projetos pessoais rentáveis. E também ao nosso jeito de trabalhar: ora eu sou líder de projeto, ora sou o assistente de produção.

Além disso, tento trazer para cá essa certeza que tenho de que é possível fazer e viver do que se gosta. Eu sempre tive um sonho de ir atrás de lugares abandonados pelo mundo, então fizemos disso um projeto de conteúdo. Assim como os sonhos de outras pessoas do time também podem se transformar em projetos. Já viajamos para Ucrânia, para a Argentina, fomos ao Japão, à Europa, em busca de cidades abandonadas. No segundo semestre, nossa ideia é oferecer esse conteúdo para TVs ou marcas interessadas.

Outro projeto é sobre inovação, outro assunto que gostamos muito. Estamos mandando os jovens aqui de dentro para conhecer outros jovens empreendedores pelo mundo. Acabamos de voltar do Vale do Silício, onde conhecemos os caras que estão começando seus projetos de garagem. Relatamos tudo a partir de uma visão bem brasileira, bem tropical. Essa equipe seguirá viagem pelo resto do mundo para, também no segundo semestre, termos um novo projeto para oferecer ao mercado.

Já estou vivendo um sonho. Se vai dar certo? Não sei, mas sinto muito prazer nisso, mesmo com todas as dificuldades

Afinal, tudo é um risco, somos muito jovens como empresa, e é muito fácil não dar certo, pois o mercado é rápido e exigente.

O que busco como empreendedor é manter todo mundo no mesmo estado de espírito, de maneira que todos possam trabalhar com o que realmente gostam e que tenham a oportunidade de rentabilizar seus sonhos individuais. Afinal, ganhar dinheiro fazendo o que gosta não é sorte, é uma escolha!

 

Guilber Hidaka, 32, é fundador da BufalosTV. Formado em Propaganda e Marketing, trabalhou como estoquista e garçom na juventude. Antes de ser assistente de fotógrafo, fez intercâmbio no Canadá e lá foi pedreiro e faxineiro. Atuou como fotógrafo freelancer das principais revistas automotivas do país.

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