Ver mais mulheres em cima de pranchas de surf é a missão e o negócio da Longarina

- 12 de junho de 2015
Vem pra água, mulherada! Este é o lema, e o propósito, da Longarina.
Vem pra água, mulherada! Este é o lema, e o propósito, da Longarina. Acima, viagem a Ubatuba, SP. (foto Barbara LamasSalty Shots).

Se o mundo dos esportes já é tradicionalmente mais masculino, no surf e nos esportes de prancha a hegemonia da testosterona chega a ser ainda maior. Mas isso não impediu as amigas Vanessa Bertelli, 29, Mari Duvekot, 28, e Cris Brosso, 27, de buscarem um lugarzinho ensolarado na areia dessa praia. Cientes dos desafios de ser mulher em cima de uma prancha, elas criaram a Longarina, um site que é uma plataforma para encorajar outras garotas a se arriscarem no esporte, buscando a união da teoria (os conteúdo on-line) com a experiência off-line (viagens e eventos produzidos pela empresa), em um modelo de negócios que, aos poucos, vai se solidificando.

Essa história começou lá atrás, na adolescência de Vanessa, quando ela soube que um amigo de seu pai estava se desfazendo de várias pranchas de surfe. Foi assim, aos 15 anos e sem nenhuma experiência no esporte, que ela ganhou sua primeira prancha. Na mesma época, começou a namorar um garoto que surfava e começou a sentir o que é ser mulher e estar sobre uma prancha, no mar. “Eu era muito carente da parte técnica, então ficava de ouvido nas conversas dos meninos, tentando participar das rodas ali na areia. E sempre tinha essa vontade de estar com outras garotas e ter um grupo, assim como os meninos tinham o grupo deles”, conta. Durante algum tempo, ela sofreu meio sozinha, achando que era a única garota da praia querendo surfar. Só que não era.

Se não fosse pela internet, talvez Vanessa nunca tivesse descoberto a amizade da Mari e da Cris. As três se conheceram por meio de um blog em que várias outras garotas escreviam sobre suas experiências nas pranchas. Ali ficou claro que o interesse feminino por esses esportes existe e não é pequeno: simplesmente faltava o espaço pra que ele se manifestasse. A amizade floresceu na internet, com cada vez mais textos produzidos por elas para o blog, e também no mundo off-line, com encontros das três paulistanas no litoral e nas pistas de skate da capital.

Do blog para a Longarina foi um pulo: em 2013, nascia a página no Facebook, que hoje tem 35 mil curtidas. A página cresceu rápido graças ao know-how de Vanessa, que formou-se em Administração e sempre trabalhou com marketing em redes sociais. Formada em Gestão Ambiental e Engenharia Ambiental, Cris fica na linha de frente do surfe, enquanto a turismóloga Mari se concentra no skate, trazendo notícias e experiências sobre a cena paulistana do esporte.

Em janeiro de 2014 a fanpage se transformou em site. Até aí, o projeto ainda era sobre três garotas interessadas em falar sobre surfe, bodyboard e skate. Mas o que elas queriam mesmo era fazer com que um encontro virtual com as leitoras se transformasse em uma experiência indescritível tão legal quando ficar em pé em cima de uma prancha de surf pela primeira vez. “Nossa missão sempre foi ir além do online”, conta Vanessa.

E O HOBBY, DE REPENTE, DÁ SINAIS DE QUE PODE VIRAR UM NEGÓCIO

No começo de 2014, um anúncio na página convidava as leitoras para um bate volta que aconteceria em uma terça-feira às 5 da manhã. Elas surfariam no Guarujá (litoral de SP), descendo com os carros das três, e voltariam à capital paulista por volta das 9 e meia da manhã. Seria a primeira experiência da Longarina dentro da água. “Apareceram cinco interessadas! Foi incrível reunir garotas que não se conheciam! Pensamos, ‘poxa, isso dá certo, vamos investir?’. E aí começamos a estruturar as viagens pensando em rentabilizá-las”. Assim, o hobby e o sonho das três amigas começava a se tornar um negócio.

O produto da Longarina figura naquele tipo de turismo que vai além do destino: o valor está na experiência. As viagens começaram a ser filmadas para o site, e contavam com professor de surfe, preparador físico, van e toda a logística necessária. Com o sucesso, algumas marcas começaram a oferecer produtos para vincular às viagens. Vanessa sabe do valor de proporcionar experiências únicas para o cliente: “A Longarina faz isso, então as empresas querem se vincular a nós”.

Para a Longarina, a mulher não precisa ser modelo nem capa de revista para brincar de surf.

Para a Longarina, a mulher não precisa ser modelo para brincar de surf: é só querer (foto Barbara Lamas-Salty Shots).

Por enquanto uma marca de xampu e outra de barra de cereais doaram produtos nas viagens da Longarina. As sócias ainda estão estudando as possibilidades de fazer com que essas parcerias sejam lucrativas, e o mais provável é que as marcas interessadas se tornem patrocinadoras dos encontros. Também no sentido de rentabilizar a Longarina, Vanessa, Mari e Cris estão estudando parcerias com agências de turismo, para que estas assumam a logística das viagens e o trio possa concentrar esforços na experiência do surfe e no marketing.

Outra possibilidade que as amigas estudam é a criação de um guia de serviços, que em um segundo momento poderá funcionar como um mural de anúncios pagos. A Longarina não tem acessos na casa de milhão, como as empresas com as quais Vanessa está acostumada a trabalhar em agências, mas pouco a pouco elas foram compreendendo que algumas empresas podem ter mais interesse em conversar com um público relativamente pequeno, mas com um perfil altamente específico, do que mandar uma mensagem para zilhões de destinatários, dos quais só uma pequena porcentagem realmente tem potencial para se vincular com o produto.

O maior interesse das sócias, por enquanto, é fortalecer a marca e criar uma relação verdadeira e coerente com o público que compartilha seus valores. Um bom faturamento, elas acreditam, será a consequência natural da boa gestão desse capital. A rentabilização da empreitada, portanto, está sendo estudado com muita cautela pois, como elas dizem, fazer com que a Longarina seja um negócio rentável é um sonho que não pode comprometer a missão de colocar mais mulheres nas pranchas.

PROSPERAR ONDE OS OUTROS NÃO ESTÃO OLHANDO

Nesse sentido, elas vêm aumentando consistentemente o público da Longarina. O site já foi acessado por mais de 60 mil pessoas, com média de 3500 visualizações por mês. Os 35 mil seguidores do Facebook garantem um alcance de 400 mil pessoas para as postagens da página, e tanto no site quanto na rede social a mulherada é responsável por 60% desses números (cifra que dá um caldo em quem ainda credita que elas não têm interesse pelas pranchas). O crescimento não é por acaso. Na verdade, o pioneirismo da Longarina está em olhar com carinho e atenção para um público que normalmente é ignorado pelo ecossistema do surfe.

Num dos encontros promovidos pela empresa: assistência e incentivo para a experiência de surfar.

Num dos encontros promovidos pela empresa: assistência e incentivo para a experiência de surfar.

O surf está em ascensão no Brasil. Em 2014, Gabriel Medina fez história ao se tornar o primeiro brasileiro campeão mundial de surf. Sua impressionante trajetória vinha trazendo o esporte para os holofotes já há alguns anos, mas com a vitória o assunto explodiu. “Só que, de novo, as mulheres ficaram de fora”, diz Vanessa. A cena feminina é tão árida que Silvana Lima, possivelmente a maior surfista brasileira de todos os tempos, perdeu seu patrocínio e teve que criar, em 2014, um projeto de crowdfunding para continuar brigando por títulos.

Em abril deste ano, mais uma prova de que o mercado do surf ainda está de portas fechadas para as mulheres: o anúncio do retorno do Super Surfe (circuito nacional de surfe profissional) ao Brasil sacramentou a volta por cima do esporte mas, nesta edição, não haverá disputas femininas. Enquanto os donos do pedaço seguem fechando portas para as mulheres, a Longarina surfa na brecha. Vanessa comenta:

“As mulheres já surfavam na Polinésia, na origem do esporte. Mas existe, nos canais especializados, o estereótipo da surfista linda e gostosa. Nem todo mundo se identifica com isso e o mercado está falhando em perceber esse descontentamento”

Sabendo disso, a Longarina também se preocupa em apresentar seu conteúdo de maneira que contemple a diversidade estética (mulher tem barriga, tem celulite, ora ora), para desconstruir a ideia de que o surfe só é permitido para modelos e capas de revista. Nesse sentido, a empresa também está alinhada com as novas estratégias de marketing que querem conversar com a mulher real. Vanessa cita o case da campanha pela real beleza, da marca Dove, e o vídeo da marca Always sobre empoderamento feminino, para mostrar como algumas empresas já estão remodelando suas estratégias de marketing.

É nessa onda, de um marketing voltado para uma mulher diversa e real, que a Longarina vem surfando. E o vento parece estar soprando a seu favor. Se o empoderamento feminino já virou tendência de mercado, as três sócias encontraram na paixão pela prancha um terreno ainda inexplorado para fazer do sonho um negócio. O que elas mais querem? “Mostrar que o surfe é pra todas”, diz Vanessa. “Outro dia recebemos um email de uma garota dizendo: ‘tenho um sonho de surfar, mas eu sou gordinha, tenho vergonha de estar na água. O que é que eu faço?'”. A resposta do trio Longarina foi irrecusável: “Vem com a gente!”.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Longarina
  • O que faz: Produz conteúdos e organiza viagens de surf para mulheres
  • Sócio(s): Cristiane Brosso, Mari Duvekot e Vanessa Bertelli
  • Funcionários: 3 (as sócias)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: julho de 2013
  • Investimento inicial: NI
  • Faturamento: NI
  • Contato: longarinacontato@gmail.com
Veja também:

Sobreviver ao 11 de setembro foi transformador: ela mudou de vida e criou o primeiro jornal infantil do Brasil

- 16 de agosto de 2017
Stéphanie Habrich estava no World Trade Center quando as torres foram derrubadas. A tragédia foi o início de uma mudança em sua vida — que culminou na criação do Joca, um jornal que educa crianças.

O Razões para Acreditar fala dos prós e contras de ter se aproximado de empresas para conseguir se bancar

- 14 de agosto de 2017
Vicente, fundador do Razões para Acreditar, conseguiu há apenas 2 anos tornar seu projeto financeiramente sustentável.

Quando seu projeto é sua vida, uma hora é preciso separar as coisas. Caio Dib conta como está fazendo

- 7 de agosto de 2017
Educação se faz em círculo. Caio em um workshop da Caindo no Brasil, na escola UniÍtalo, em abril deste ano.

“A corrupção vai acabar muito mais rápido do que a maioria de brasileiros pensa. É preciso ter fé”

- 3 de agosto de 2017
Para Peter Kronstrøm, as "ovelhas negras" devem assumir a liderança para que as empresas se mantenham relevantes no futuro.