Na Risü, reverter compras em doações é um negócio sustentável que fortalece causas sociais

- 6 de março de 2017
Com 4,5 mil reais de capital, Lucas Borges, Rodrigo Franzot e Francis Andrade e Matheus Godinho (ausente na foto) criaram um site para transformar compras online em doações.
Com 4,5 mil reais de capital, Lucas Borges, Rodrigo Franzot, Matheus Godinho e Francis Andrade (ausente na foto) criaram um site para transformar compras online em doações.

Criada há dois anos, em Belo Horizonte, a Risü (que em latim significa “sorriso”) se propõe a ser um “shopping do bem”, uma plataforma na qual o consumidor pode transformar suas compras em doações para ONGs. O projeto é dos mineiros Lucas Borges, Rodrigo Franzot e Francis Andrade, todos de 30 anos, e Matheus Godinho, 19, que pesquisaram players internacionais da Europa e dos Estados Unidos para lançar a sua versão do negócio. Depois de um investimento próprio de 4,5 mil reais, dois programas de aceleração e alguns ajustes no percurso, hoje eles estão focados no crescimento da empresa e há uma fila de espera para ONGs participarem do sistema.

Cada transação na Risü acontece no sistema cashforward (dinheiro passado adiante). Isso significa que parte da comissão que as lojas parceiras pagam à empresa é repassada para instituições. Para os sócios, a vantagem do modelo é a experiência de solidariedade proporcionada ao consumidor no ato da compra de um produto ou serviço. Matheus conta desconhecia outras empresas com o mesmo modelo no Brasil, no entanto o Polen tinha uma proposta semelhante, só que funcionava em formato de plugin para o usuário instalar no navegador antes de fazer compras online.

O valor da comissão de vendas repassado pelos e-commerces para a Risü pode variar de 1% a 7,5%. Desse total, a startup destina metade para as ONGs. A contribuição pode parecer pouca à primeira vista, mas Matheus diz que cada real faz diferença para a captação das instituições: “Temos ONGs de apoio a animais que alimentam um cachorro com um real por dia, por exemplo”. Nesse caso, toda ajuda é bem-vinda. 

Se no início, a ideia era entender o que a empresa poderia fazer por elas, a fórmula parece ter sido descoberta, segundo o sócio:

“Há um ano e meio, estávamos com duas ONGs de Minas Gerais. Agora, há instituições de quase todo o Brasil e uma fila de espera enorme”

Como todo empreendedor, eles tiveram de correr riscos quando decidiram abrir a empresa. Quase todos se conheciam desde a infância e resolveram largar empregos estáveis em busca do sonho do negócio de impacto social. Rodrigo deixou um escritório de advocacia, Lucas o departamento comercial da Qualicorp e Francis a área financeira da ArcelorMittal. Já o último integrante do quarteto, Matheus, formado em Engenharia da Computação, havia acabado de voltar de um período de estudo em Londres quando começou na Risü como estagiário. Mas como em startups o tempo corre acelerado, em menos de seis meses ele foi convidado a se juntar à sociedade.

INVESTIMENTO ENXUTO E ACELERAÇÕES IMPULSIONARAM O NEGÓCIO

Do investimento inicial na plataforma no primeiro ano, o quarteto conseguiu reverter 1,5 mil reais das compras em doações. O esforço para fazer o negócio render garantiu uma vaga no processo de aceleração do StartUp Chile, apenas sete meses depois da empresa abrir as portas. Durante o processo, além de obterem mentoria, os empreendedores captaram 120 mil reais. Esse foi primeiro aporte para a Risü crescer.

Assim que deixaram o programa do governo chileno, em 2016, a empresa engatou outra iniciativa, desta vez com o SEED, do governo mineiro, onde levantou mais 88 mil reais. “Ao longo desses dois programas, nós atingimos nosso ponto de equilíbrio. Agora estamos focados 100% na empresa para atingir escala e outros mercados”, diz Matheus.

Como nem tudo são flores no caminho de quem empreende, Matheus fala de quando a empresa errou, ainda no final de 2015, ao realizar uma campanha de divulgação com influenciadores digitais: “Buscamos cerca de 15 blogueiras para divulgar a nossa marca. Despendemos tempo e dinheiro na ação. Elas realmente tinham uma comunicação muito boa, mas o público não era o nosso. A gente identificou isso muito rápido e a campanha foi interrompida na metade”.

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Parte das compras no site são direcionadas a causas que o próprio consumidor escolhe, como proteção animal e saúde.

Os sócios contam que ficaram com o pé atrás de buscar outros influenciadores depois do episódio. Mas, no ano passado, tiveram uma surpresa: uma publicidade espontânea da modelo Yasmin Brunet no seu perfil no Snapchat, com um tutorial em vídeo de como usar a Risü. Em apenas um dia, surgiram mil cadastros novos.

AS DOAÇÕES SE MULTIPLICARAM E AS CAUSAS GANHARAM FORÇA

Hoje, a expectativa das ONGs para fazer parte da plataforma é grande. Os clientes que compram pela Risü podem escolher entre 29 instituições e diversas causas para apoiarem com suas compras, como proteção animal, educação e saúde. Entre elas, estão organizações como a Quatro Patinhas, Mano Down e a Casa do Zezinho. Algumas chegam a contar com até 4 mil apoiadores apenas pelo site de compras. De acordo com Matheus, a fila de espera para entrar no sistema já alcança outras 500 organizações.

No entanto, ele conta que o time mantém a calma, porque quer ajudar organizações sérias, e por isso precisa conhecer o trabalho de cada uma. Esse controle é feito por meio de uma curadoria, para filtrar casos de envolvimento em escândalos, o perfil dos presidentes e toda a idoneidade do trabalho realizado pela ONG.

O número de lojas interessadas em participar da plataforma também cresce a cada dia, mas para ser uma loja parceira os empreendedores dizem que o produto precisa ter conexão com a proposta da startup. Atualmente são 250 e-commerces, dos mais variados estilos, de programas de antivírus a lojas de departamento. São marcas como Renner, Tam, Sephora e Extra, que buscam o apelo social e sustentável da Risü e ainda fornecem cupons de descontos para incentivar ainda mais o engajamento dos clientes nas compras pelo site.

QUANDO A META É O IMPACTO SOCIAL, A MOTIVAÇÃO SE RENOVA

Entre erros e acertos, a busca dos sócios por resultados é constante. O impacto causado por cada compra é o que dá sentido ao trabalho dos sócios e faz com que mais pessoas procurem o site, segundo eles. Hoje, a plataforma tem 30 mil usuários, que reverteram 60 mil reais em doações em 2016 – um crescimento de 1 400% em relação ao ano anterior. Com essa verba repassada às organizações, os fundadores da Risü dizem que foi possível alimentar 1 462 animais abandonados, ajudar 130 crianças com câncer, apadrinhar 1 026 crianças carentes, apoiar 1 949 crianças em esportes e criar seis bibliotecas em comunidades.

Em 2016, a startup foi reconhecida pelo modelo de impacto social

O time de fundadores, com Francis Andrade (centro), no Banko Challenge.

O reconhecimento pelas ações vem na mesma proporção. A empresa ganhou, no ano passado, o Prêmio Laureate Brasil de Jovem Empreendedores Sociais, foi eleita pelo Baanko Challenge a startup com maior impacto social de Minas Gerais e avaliada como uma das cinco startups com o modelo de negócio mais sustentável do país pela Sustainable Brands. Mas os empreendedores querem mais. Para 2017, a meta é que o valor arrecadado em doações atinja a marca dos 500 mil reais.

Para influenciar os e-commerces a terem mais consciência da importância de ter uma marca sustentável e estimular mais clientes a reverterem suas compras, os sócios ainda desenvolveram um plugin, o MemoRisü, que avisa o usuário que ele está navegando em uma loja parceira e também pode ser personalizado para cada e-commerce com um relatório anual de informações de tráfego e de como o valor despendido em sua loja está se convertendo em apoio para as ONGs.

A internacionalização também está nos planos, conta Matheus:

“Vamos investir fora do país em breve. Mas o mercado de doações no Brasil ainda é muito grande. Queremos dominar essa área, que cresce a cada dia por aqui”

Outra proposta é passar a atender projetos e movimentos sociais. Atualmente, a Risü tem parceria apenas com ONGs registradas, mas os sonhos continuam surgindo.

“Só ficarei realizado quando conseguirmos mudar nem que seja 10% do mundo. Ainda não fizemos nem 1% disso, mas estamos caminhando”, diz Matheus. Para ele, Lucas, Francis e Rodrigo, não é preciso tempo nem muito dinheiro extra para que as pessoas se engajem socialmente. Basta um clique e uma compra consciente.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Risü
  • O que faz: Transforma parte do valor de compras online em doações para ONGs
  • Sócio(s): Francis Andrade, Lucas Borges Matheus Godinho e Rodrigo Franzot
  • Funcionários: 6
  • Sede: Belo Horizonte (MG)
  • Início das atividades: Março de 2015
  • Investimento inicial: R$ 4.500
  • Faturamento: NI
  • Contato: risu@risu.com.br
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