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“Não existe futuro, apenas um eterno transformar-se”

- 22 de setembro de 2017
No Canadá, a jornalista Renata Reps deixou de ser jornalista para se tornar outra coisa... E aprendeu que a vida vem em estações muito bem definidas. Acima, no verão.
No Canadá, a jornalista Renata Reps deixou de ser jornalista para se tornar outra coisa... E aprendeu que a vida vem em estações muito bem definidas. Acima, no calor do verão.

 

por Renata Reps

Poucas coisas me atormentam e me excitam mais no mundo do que recomeçar. Vira e mexe, eu me pego pensando: quantas vidas a gente consegue viver em uma mesma vida? A minha facilidade (relativa) de colocar as coisas na mala, embalar os quadros, organizar a mudança e partir me faz na verdade admirar as pessoas que conseguem ficar. Muita gente me acha corajosa de jogar tudo – tudo o quê? – para o alto e ir viver do desconhecido. Para mim, isto é apenas uma estratégia de sobrevivência: eu nunca aprendi, de fato, a ficar.

Há um ano, então, fiz novamente as bagagens para o que para mim sempre é o começo de uma nova aventura: meu novo porto, Montréal. Deixei minha cidade natal, Brasília, para onde acabei voltando depois de idas e vindas por um período que durou dois anos. De novo, saí de perto da minha família e dos amigos de infância. Deixei um trabalho estável numa empresa que me dava o salário e benefícios mais incríveis que eu provavelmente jamais terei. Larguei a calma, a estabilidade e os caminhos seguros de acolhimento que só a nossa cidade materna consegue oferecer.

Desde que saí de Brasília, cinco bebês de amigas próximas já nasceram. Estou naquela fase dos trinta e poucos onde as coisas parecem tomar rumos mais certeiros para uma maioria

Eu, por outro lado, troquei o trabalho das 10h às 19h por uma profissão que nunca imaginei ter, em um lugar onde não sonhei estar desde pequenininha. E foi assim, mais ou menos por acaso, que ingressei em um programa de doutorado em Comunicação e Arte na Universidade de Montréal.

No Canadá, outono é outono. Um passeio no Jardim Botânico da cidade de Montréal ensina isso.

No Canadá, outono é outono. Um passeio no Jardim Botânico da cidade de Montréal ensina isso.

É engraçado como o Canadá não faz parte do imaginário turístico dos brasileiros. Segundo a Destination Canada, agência de promoção do turismo canadense, 31 mil brasileiros visitaram o país como turistas em 2015; por outro lado, como informa a Agência Canadense de Imigração, Refúgio e Cidadania, 92 mil brasileiros pediram um visto de residência temporária para o país em 2016.

Fico sempre impressionada de ver como as pessoas são capazes de embarcar nos programas de imigração oficiais do governo e trocar Brasil por Canadá assim, de um dia para o outro, e, frequentemente, de forma definitiva. É que esses dois quase vizinhos americanos têm, na verdade, muito pouco em comum.

Minha experiência de vida em Paris, onde morei entre 2011 e 2013 para fazer um mestrado em Indústrias Criativas, me preparou mal para a vida em Montréal. A capital francesa é um xodó dos brasileiros, e eu ouvia nosso sotaque nas ruas praticamente todos os dias. Grande parte dos franceses que conheci por lá daria tudo para passear nas areias de Copacabana ou comer um acarajé no Pelourinho. Aqui, apesar do continente compartilhado, a distância é muito maior.

Nenhum dos meus amigos canadenses conhece caipirinha ou cachaça, e a maioria nunca ouviu falar em feijoada ou coxinha

Musicalmente, é a mesma coisa: até agora, só conheci um bar que faz uma roda de choro uma vez por mês. Para a maioria dos canadenses do meu círculo, o Brasil não representa o sonho de consumo a que eu estava acostumada. O charminho de dizer que sou brasileira e esperar grandes sorrisos de fascínio não funciona por aqui, lugar em que eu me senti, pela primeira vez de verdade, uma latino-americana.

Também não posso dizer que tenha feito uma extensiva pesquisa sobre a cultura do Québec (província onde fica Montréal) antes de vir para ficar – por pelo menos quatro anos, em todo caso. Cheguei a pensar que, pela realidade francófona, haveria mais semelhanças do que diferenças com o que eu já conhecia. Mas o Québec tem muito mais de Estados Unidos do que de França; usa-se muito carro como meio de transporte principal, as pessoas viajam pouquíssimo de trem.

Não existem aéreas low cost no país, então é caro percorrer sua imensidão; ao contrário de muitos países europeus, os serviços de telefonia móvel custam muito, e a internet nunca é ilimitada. A arquitetura de Montréal é jovem, tendo o ápice do desenvolvimento urbano da cidade ocorrido na década de 1970, o que gera uma paisagem formada basicamente de edifícios de concreto retangulares. O inverno dura seis meses, então todas as construções da cidade se fazem no verão, o que torna Montréal um grande canteiro de obras nos meses mais agradáveis do ano.

Digo que descobri que sou latina pois, aqui, eles realmente (mesmo!) não são latinos

Nada de dois beijinhos em quem você acabou de conhecer, e ainda estou tentando me acostumar à ideia de que abraços apertados são raros até para quem é muito próximo. Como única cidade verdadeiramente bilíngue do país, Montréal se divide em dois mundos muito mais separados do que imaginei: o que fala inglês e o que fala francês. Esses universos, repartidos fisicamente nos lados oeste e leste da cidade, são extremamente diversos e complexos, com discrepâncias históricas profundas. Por outro lado, não é difícil estar em uma festa no lado anglófono na cidade e ver, em uma roda de cinco pessoas, três falando em inglês, os outros dois respondendo em francês no mesmo tom e fluência, e todo mundo se entendendo perfeitamente. Como se fosse a coisa mais comum do mundo.

E o inverno não é pouco. Acima, Renata no parque Père-Marquette, em Montréal.

E o inverno não é pouco. Acima, Renata no parque Père-Marquette, em Montréal.

Em um país de grandes espaços e poucas pessoas, as fronteiras pessoais de cada um são extremamente reivindicadas. Não se vê muitas multidões por aqui. Isso não significa, no entanto, que não exista um enorme calor humano: fui mais bem recebida por aqui do que em qualquer outro lugar.

Os québécois, canadenses originários do Québec, são gentis e sorridentes. A cordialidade se expande para todas as esferas de uma sociedade em que a solidariedade se manifesta das mais diferentes formas. Trabalho voluntário, por exemplo, é quase uma obrigação: raras são as pessoas que não investem seu tempo na comunidade e voluntariado é dado fundamental nos currículos para vagas de emprego.

Em uma sociedade tão essencialmente constituída por imigrantes, ninguém vai zombar do seu sotaque de estrangeiro. Inclusive, eles vão preferir sorrir e fingir entender o que você disse do que te fazer passar pelo constrangimento de ser incompreensível.

Em Montréal, eu virei pesquisadora. Consegui convencer meu orientador que meu projeto era interessante e ele angariou bolsas que cobriram o valor inteiro da minha escolaridade sem que eu precise desembolsar um tostão. Detalhe: ele nunca tinha ouvido falar de mim na vida, e eu cedo entendi que, no Canadá, as pessoas confiam em você de primeira, e só fazem diferente se você mostrar que não merece o crédito. O universo dos altos estudos se mostrou um desafio à parte: muita reflexão, muita introspecção, muitas e muitas horas de leitura.

Tive que aprender, a duras penas, que nesta empreitada eu não estarei rodeada de gente o tempo todo como sempre estive

Entre dezembro e março, as portas das casas se fecham, as pessoas se recolhem e ninguém consegue permanecer mais de vinte minutos em um ambiente aberto. Passar a reconhecer no inverno um período frutífero de descobertas e trabalho intenso em vez de uma fase dolorosa de solidão leva tempo – principalmente quando, nas redes sociais, é carnaval no Brasil e na Europa faz 15 graus.

Mas neste país de tantas distâncias e, ao mesmo tempo, tanto aconchego, eu não poderia encontrar ambiente mais propício para aprender. É um privilégio indescritível poder estudar tantas teorias que eu sempre quis entender e que, às vezes, falam diretamente comigo e com mais ninguém. Seria impensável, há dois anos, que eu estivesse hoje dividindo meu tempo entre demandas de bolsa, candidaturas para vagas de auxiliar de pesquisa, redação de artigos e conferências no exterior.

Eu também jamais acreditaria que estaria me preparando para o desafio de dar aula em outra língua com o eterno temor que os alunos da graduação descubram que eu sou, na verdade, uma grande fraude e não faço a menor ideia do que estou falando. Mas me conforto no fato de que eles são canadenses, e já me provaram que serão, antes de qualquer coisa, gentis comigo. Porque estrangeiros fazem parte de seus quotidianos desde que são crianças, e mais da metade dos professores do meu departamento não tem o francês como primeira língua.

Este ambiente de tanta diversidade dá lugar a um palco de trocas sem precedentes, onde a impressão é de que todo mundo pode achar o seu lugar. Nada está pronto e definido, e as ruas desgastadas pelas tempestades de neve serão reconstruídas no verão ano após ano após ano. Em Montréal, eu consegui me livrar pela primeira vez de uma ansiedade que me acompanhou em São Paulo, no Rio e em Paris: eu sempre precisava voltar para Brasília para conseguir descansar.

Por aqui, a minha vida acontece em uma ligação íntima com as estações do ano, com os contratos que variam a cada três, quatro meses e as com as transformações que derivam destas múltiplas interações.

Em Montréal, aprendi a me conectar de fato comigo mesma e com o espaço ao meu redor

Porque em janeiro não tem mais churrasco no parque, em abril não tem mais boneco de neve e em julho não tem ainda ruas maravilhosas cobertas de folhas avermelhadas. É preciso esperar, e é só se integrando ao ritmo das coisas que a gente consegue colher os frutos do nosso esforço árduo por aqui.

Que seja, então, desafio suave e intenso enquanto tiver de ser. Aqui eu entendi, de uma vez por todas, que não existe futuro; apenas um eterno transformar-se.

 

 

Renata Reps, 32, é jornalista, mestre em Indústrias Criativas e doutoranda em Comunicação e Arte. Pesquisa as interseções entre as obras de arte contemporânea e seus textos e legendas informativas. Prepara um livro e uma exposição em Montréal para julho de 2018.  

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