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“Não sabemos como alocar dinheiro de forma eficiente em programas e pessoas que fazem a diferença”

- 12 de outubro de 2017
Andrew Means, diretor da Beyond.uptake, virá ao Brasil para defender o uso de Big Data em organizações sociais, durante o Festival Social Good Brasil.
Andrew Means, diretor da Beyond.uptake, virá ao Brasil para defender o uso de Big Data em organizações sociais, durante o Festival Social Good Brasil.

O norte-americano Andrew Means, 32, está engajado em causas sociais há bastante tempo. Desde quando cursava o Ensino Médio, ele era voluntário em ONGs. Com elas viajou, durante muitas férias de verão, para locais tão díspares quanto Zimbabwe, Rússia, China e Guatemala. Viu de perto as mazelas do mundo e decidiu dedicar sua carreira para impulsionar o setor social, tornando-o mais efetivo e eficiente por meio de análise de dados –  mesma tecnologia utilizada por Google, Netflix e Amazon para prever comportamentos.

Atualmente, Andrew continua em peregrinação pelo mundo para debater com empreendedores como a análise de dados pode beneficiar e otimizar esforços e políticas sociais de Governos, ONGs e negócios sociais. Ele é fundador da Data Analysts for Social Good, organização para analistas e cientistas de dados interessados em Data Science focada no setor social. Por meio dessa iniciativa, Andrew dá aulas, realiza webinars e até uma conferência anual que atrai centenas de pessoas.

Por ter passado a maior parte de sua vida em Connecticut, nos EUA, Andrew foi para Harvard e lá se formou. Há 10 anos, ele está em Chicago, onde fez mestrado em Políticas Públicas, e mergulhou no estudo de Data Science para desenvolver um olhar crítico e conseguir avaliar melhor o impacto do que ele e outros visionários do setor social faziam.

Foi na própria Universidade de Chicago que, após dois anos do término do mestrado, Andrew assumiu a direção do Centro de Ciência de Dados e Políticas Públicas e de lá alçou voos mais altos. Em 2014, cofundou uma consultoria de inovação cidadã chamada The Impact Lab, que trabalha com abordagem científica e combina gerenciamento de inovação social, desenvolvimento de aplicações, aferição de impacto, estratégias de comunicação e assessoria política.

O resultado chamou a atenção de muita gente e ele ganhou renome internacional. Então, Andrew foi convidado a se unir a Uptake – desenvolvedora de aplicações de análise preditiva de dados – para montar o braço filantrópico da empresa, a Beyond.uptake.

Aqui, criamos aplicativos que múltiplas organizações, como ONGs, negócios sociais, agências governamentais e fundações, podem usar para aumentar sua eficiência e melhorar o impacto

A Beyond.uptake concentra-se na construção de tecnologia compartilhada com o objetivo de aumentar a colaboração entre as organizações e criar uma rede forte e unida de parceiros que possam trabalhar em conjunto para resolver questões importantes.

Antes de embarcar para o Brasil pela primeira vez, Andrew conversou com o Draft e contou que está animado para participar do Festival Social Good Brasil, que acontece em Florianópolis dias 27 e 28 de outubro, do qual o Draft é media partner. Estão programados dois encontros com ele: a palestra “Big Data do Bem – os dados podem ser nossos aliados”; e um workshop sobre como usar os dados disponíveis para o bem. A seguir, leia os principais trechos da entrevista.

 

Como e quando você descobriu seu propósito de vida?

Não sei se achei ou se criei meu propósito… tem sido uma jornada de vida.

Desde o começo do Ensino Médio eu era voluntário em diversas organizações e tive a sorte de viajar para o exterior durante minhas férias de verão e tomei contato com os desafios sociais do mundo. Viajei para Rússia, África do Sul, China, Zimbabue, Peru, Colombia, Guatemala e passei tempo com comunidades locais. Descobri que gastamos bilhões de dólares tentando resolver problemas como pobreza, injustiça, desigualdade, sistemas de saúde e, mesmo assim, há locais em que o progresso que se consegue acontece apesar dos nossos esforços e não devido a nossos esforços. Nós não sabemos o que funciona. Não sabemos como alocar dinheiro de forma eficiente para os programas e pessoas que realmente fazem a diferença. Foi isso que me levou a este caminho.

E qual é seu propósito de vida?

Meu propósito é fazer tudo que eu puder para encorajar o setor social a ser mais eficaz na resolução de problemas e também apoiar as organizações que se propõem a resolver problemas sociais. Não sei como será o resto de minha vida, mas sei que sou incrivelmente apaixonado pelo trabalho que faço. Tenho uma visão ambiciosa para as coisas que quero mudar no mundo e eu me vejo fazendo isso até o fim da minha vida.

Quando você percebeu que Data Science poderia fazer a diferença no setor social?

Eu comecei minha carreira no setor social, trabalhando com estudantes da periferia de Chicago. Foi somente quando precisei melhorar minhas habilidades de pesquisador que me embrenhei nesse mundo de Data Science. Eu estava trabalhando com organizações de impacto social e me frustrava com a inabilidade delas em averiguar o que funcionava e o que não funcionava.

Eu fui fazer mestrado na Universidade de Chicago porque o programa ali era bastante voltado para avaliar impacto. Na verdade, o programa era fundamentado em Ciências Sociais, aprofundava-se em estudar o comportamento humano por meio de um modelo matemático… um processo bastante respeitado, usado e aceito no setor social. Daí meu primeiro trabalho fora da universidade foi no YMCA of Metropolitan Chicago, onde me deparei com uma quantidade absurda de dados e percebi que eles poderiam ser usados de outras maneiras. Isso foi em 2012, quando começava a se falar de Business Intelligence e Data Science nos EUA. Quando aceitei dirigir o departamento de pesquisa na Universidade de Chicago foi que realmente me dediquei a estudar Ciência de Dados e ferramentas como Machine Learning.

Lucy Bernholz e Andrew Means abrem a conferencia Data on Purpose / Do Good Data World Tour, em Stanford.

Lucy Bernholz e Andrew Means abrem a conferência Data on Purpose (foto: divulgação. Good Data World Tour, em Stanford).

O que te motivou a fundar a consultoria The Impact Lab em 2014?        

Eu e os dois outros fundadores trabalhávamos na Universidade de Chicago e, em especial, tínhamos interesse no programa Data Science for Social Good. Com ele, a cada verão, trazíamos cerca de 40 estudantes brilhantes de todo o mundo para trabalhar em projetos filantrópicos.

Construíamos coisas interessantes, mas que não iam para linha de frente do mercado e nem eram escaladas como esperávamos, porque não havia nenhuma organização comercial patrocinando o programa

Percebemos que havia necessidade de ter uma empresa que usasse essas soluções focadas no setor social. Começamos, inicialmente, como uma consultoria que revisava projetos em várias organizações e assim foram os dois primeiros anos. Trabalhávamos para que nossos clientes tomassem decisões melhores com base em análise de dados.

Tínhamos bons relacionamentos com pessoas da área, boa reputação, então, posso dizer que conseguimos seguir com facilidade. Daí pegamos o dinheiro ganho e investimos em companhias de produtos: uma focada em DataClock chen para CEOs e a outra em Modelagem para Eficiência Energética. Essas duas companhias conseguiram captar investimento.

Como foi a aproximação com a UpTake?

Fui procurado pelo fundador, Brad Keywell, há 14 meses, porque ele queria criar uma fundação dentro da empresa. Era algo importante para ele ter uma empresa for-profit que fizesse diferença no setor social. Ele tinha ouvido falar no trabalho que eu e meus sócios estávamos fazendo e nos sondou sobre a possibilidade de entrarmos para a empresa. Eu vi que seria algo muito bom para mim e, realmente, tem sido ótimo.

Na Beyond.UpTake, nós fazemos algo bem diferente… não distribuímos cheques nem doações.

Não somos exatamente uma fundação, somos mais uma vertical da companhia, que tem objetivos sociais. É uma oportunidade única para desenvolver ferramentas tecnológicas para o setor social

Foi isso que me trouxe para cá. Outro diferencial  é que não desenvolvemos nada para indivíduos e sim algo que seja bom para um setor todo, para que várias organizações usem a ferramenta. Não entramos em uma ONG para desenvolver algo específico para ela, gratuitamente. Desenvolvemos uma ferramenta para a levarmos para o mercado social, sem cobrar dos usuários.

Você vê diferença entre os benefícios da aplicação de Data Science para organizações nonprofi e for-profit?

A meu ver, basicamente Data Science serve para responder perguntas com modelos de previsão e reconhecimento de padrões de comportamento humano. Ela pode ser usada de inúmeras formas. É com Data Science por exemplo, que a UPS (maior empresa do mundo em transporte expresso) consegue evitar desperdício em trajetos. Data Science também nos possibilitou trabalhar com o departamento público de saúde para identificar e prever onde havia possibilidade de ocorrer envenenamento por chumbo para que campanhas de prevenção e intervenção pudessem ser planejadas. É o que nos permite encontrar crianças que estão com risco de abandonar a escola.

Data Science é uma ferramenta como o marketing, que pode ser usada por companhias for-profit bem como por ONGs e negócios sociais para responder perguntas, que mudam de companhia para companhia. Mas a finalidade é extrair insights de dados

Pode dar um exemplo?

O problema do abandono escolar no Ensino Médio nos EUA…

Temos intervenções e programas para ajudar estudantes a se formarem, mas é difícil identificar quem é o estudante que realmente precisa de ajuda. Há um limite de vagas, então é preciso ter certeza de que essas vagas serão ocupadas por quem tirará o maior proveito possível. Essa era a pergunta inicial e desafiadora.

Muitas escolas já tentavam modelos matemáticos que identificassem esses estudantes e os encaminhasse para os programas. Uma das empresas que começou com esse tipo de estudo foi a Microsoft, que descobriu que apenas ao informar os distritos quais eram os alunos que estavam em risco já aumentava o índice de alunos que terminavam o Ensino Médio!

Qual é o futuro da inovação social?

Hoje, grandes organizações sociais são remuneradas para se manterem ativas, porque não se sabe se elas estão fazendo o trabalho direito ou não. Não há dados para averiguar isso. Uma das tendências que vejo é que a estrutura financeira das organizações sociais vai mudar nos próximos 15 a 20 anos.

Não será mais suficiente que essas organizações contem histórias emocionantes. Elas terão de apresentar as mudanças que confirmam que elas estão resolvendo os problemas que se propuseram a solucionar

Também acredito que veremos uma combinação das estruturas legais de organizações non-profit e for-profit. Acredito que o foco será no valor que uma organização cria e não no status legal dela.

Que conselhos você daria para futuros empreendedores sociais?

O maior conselho é: ganhe experiência in loco, às vezes vejo empreendedores sociais tentando construir soluções para algo que eles nunca vivenciaram e isso não dá muito certo.

É preciso ter contato com a realidade, relacionar-se com o cliente, parceiro ou com a pessoa que se quer beneficiar. É preciso desenvolver empatia para entender o que funciona

Também diria que, ao contrário do que se fala por aí, eu acho que empreender é minimizar riscos. Se você vai começar algo, pode começar pequeno. Não são todos os casos que exigem um mergulho profundo do tipo: largar emprego e dedicar-se em tempo integral. Aconselho as pessoas a darem pequenos passos, criarem pilotos, estudarem o terreno…

Já vi muitos empreendedores começarem e tropeçarem. Com isso não quero dizer que não se deve começar com tudo. Há casos em que isso faz todo o sentido, mas se você pode ir com calma, melhor.

O terceiro conselho é… sempre nos dedicamos mais a algo pelo que temos paixão. Então, siga sua paixão, não importa onde ela te leve. Dinheiro não é tudo, nem retórica e nem ser influente.

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