“Não se resolve um quebra-cabeças com mais horas de trabalho, é preciso ter horas com mais qualidade”

- 12 de maio de 2017
Julio Vasconcellos, fundador do Peixe Urbano, voltou a São Francisco e lançou um novo negócio. Ele fala sobre empreender no Brasil, formar equipes, testar produtos e a necessidade de dar tempo ao tempo.
Julio Vasconcellos, fundador do Peixe Urbano, voltou a São Francisco e lançou um novo negócio. Ele fala sobre empreender no Brasil, formar equipes, testar produtos e a necessidade de dar tempo ao tempo.

Erin Donahue é uma passeadora de cachorros que tem 50 clientes no Brooklyn, em Nova York. Além do trabalho em si, ela faz malabarismo para administrar telefones, emails, endereços, horários e forma de pagamento de cada contratante. Para autônomos como ela — e para quem usa estes serviços —, acaba de chegar ao mercado nova-iorquino o Prefer, um app onde é possível marcar hora (o sistema indica horários disponíveis), saber o preço cobrado e, inclusive, fazer o pagamento. Além disso, a plataforma integra recomendações de amigos, no melhor estilo “boca a boca eletrônico”.

O lançamento oficial do Prefer, há poucos dias, ganhou destaque em veículos que cobrem inovação nos EUA. E por trás da novidade está um nome conhecido dos brasileiros: Julio Vasconcellos, 36, fundador do Peixe Urbano (site de compras coletivas, fundado em 2010, que foi um sucesso e chegou a ter mais de 20 milhões de usuários), empresa que ele só deixou de liderar em 2015 — essa história será contada em um livro a ser lançado pela Editora Intrínseca em breve.

Filho de pai diplomata, Julio é carioca e já passou muitos anos fora do país. É formado em Finanças e Marketing pela Universidade da Pensilvânia e tem um MBA em Stanford. Em 2010, veio ao Rio de Janeiro para ser o primeiro country-manager do Facebook no país e, em seguida, empreender, ao lado de Alex Tabor e Emerson Andrade, no Peixe. Em 2011, seria eleito o  “Empreendedor do Ano na Tecnologia” pela IstoÉ Dinheiro. Eram os anos de loucura, de pressão para escalar e de não muito tempo para refletir. O turbilhão baixaria alguns anos depois, com o desaquecimento do modelo de negócios. Em 2014, a empresa foi vendida para a chinesa Baidu, sem lucros para investidores (hoje o site é uma plataforma de ofertas locais, não atuando mais em compras coletivas). Em 2015, Julio passou ao conselho do Peixe e, no início de 2016, abandonou de vez o posto para voltar à California.

Lá, de São Francisco, ele trabalha no novo negócio há cerca um ano. A nova startup tem 13 funcionários, seis na sede local e sete no escritório de Nova York. Crescer? Ainda não. Eles estão buscando, no momento, apenas um novo funcionário. E Julio conta que não trabalha mais as “horas insanas” exigidas pelo Peixe.

Sua vida está mais equilibrada, até porque hoje ele é pai de Gabriel, de quase dois anos. O exercício de dar tempo ao tempo, ver a criança crescer, também é notório na sua relação com o atual empreendimento: “No Prefer temos de resolver um quebra-cabeça. É preciso ter perspectiva, deixá-lo de lado um pouco, voltar a ele. Não é algo que se consiga resolver com mais horas de trabalho – é preciso ter horas com maior qualidade”, diz, e compara: “No Peixe era preciso focar em expansão e crescimento, o que demandava mais tempo”.

Ao deixar o Brasil, sua ideia inicial era testar a volta a São Francisco — ele e a esposa, Irit, que também tem mestrado em Stanford e ambos já trabalharam na cidade — durante seis meses. Neste período, Julio teve uma posição no Benchmark Capital, um dos fundos que investiu no Peixe, graças ao programa “Entrepeneurs in Residence” (ou Empreendedores Residentes), que é dedicado a empreendedores nos quais eles já investiram. A ideia é que eles pensem em novos negócios – e o fundo investe para alavancar a nova idéia.

Se em seis meses não acontecesse nada, a família voltaria para o Rio. Mas aconteceu o Prefer. E ele espera que aconteça muito mais, como conta na entrevista a seguir:

Como você avalia a sua experiência no Peixe Urbano?
Eu destacaria duas coisas. A primeira foi a questão da jornada empreendedora, que tem altos e baixos. Manter o foco na visão de longo prazo, sabendo que no curto prazo você vai acertar muito e errar muito. O importante é continuar crescendo e melhorando, embora você saiba que terá alguns soluços no caminho. A outra pode soar clichê, mas ao empreender, reconhecemos a importância de ter os melhores trabalhando com você; de não se satisfazer com pessoas medianas, de sempre contratar as melhores pessoas do mercado, porque uma pessoa muito boa faz uma diferença gigantesca. Na Prefer, escolhemos os profissionais a dedo, sabendo do impacto que isto terá mais para frente.

Como foi a decisão de deixar o Rio, o controle do Peixe Urbano, e recomeçar em São Francisco?
Depois de deixar o Peixe, passei seis ou oito meses pensando no que iria fazer da vida. Avaliei alguns projetos, pois minha intenção inicial não era sair do Brasil. Mas estes projetos estavam demorando muito para sair do papel – já havia muita incerteza por causa da crise econômica e política, então muita gente queria esperar para deixar a crise passar.

Embora eu ache que o Brasil tem imensas oportunidades para empreendedores, as coisas estavam andando em câmera lenta demais

Eu queria montar algum negócio no curto prazo e vi que no Brasil isso levaria mais tempo do que desejado. Então conversei com a minha esposa, Irit, e decidimos passar uma temporada em São Francisco, uma cidade onde já moramos antes e conhecemos bastante gente. Seria fácil voltar.

Como surgiu a ideia do app?
No Peixe trazíamos um volume enorme de novos clientes para o pequeno negócio. Mas não focamos em ajudar estas pequenas empresas a trabalhar com esta base de clientes. A pegada do Prefer é muito mais este segundo lado. Damos boas ferramentas para que estes profissionais autônomos consigam trabalhar bem com sua base de clientes e alcançar novos clientes. Só que não é mais aquela promessa de “vou te entregar mil clientes novos” – agora é “vou te entregar alguns clientes novos”, mais natural e ao longo do tempo.

Seu investidor foi o mesmo do Peixe.  O que faz estes investidores apostarem em você?
No Peixe eles não obtiveram o retorno de investimento esperado, mas viram que a nossa equipe trabalhou na resolução de problemas da melhor maneira possível e teve um final feliz, dadas as circunstâncias. Como investidores de tecnologia, eles sabem que as pessoas, as oportunidades e o mercado mudam muito, e o importante é ter empreendedores que se adaptam a estas mudanças, tentando encontrar o melhor caminho. Comparando o Peixe com 99% das empresas daquele mercado, aterrissamos o avião da melhor forma possível, em vez de deixar o negócio implodir.

Qual é a principal virtude que você procura em qualquer profissional, para trabalhar na sua equipe?
Iniciativa. Pessoas que vêm um problema e saem atrás para resolver.

Em uma empresa pequena como a nossa, é importante que todos tratem a empresa como se fossem os donos

Assim que surgem áreas que merecem melhorias, a equipe já monta um plano para resolver, em vez de apenas apontá-las. A empatia com os dois tipos de clientes do app também é super importante. Sem esta empatia, é muito difícil construir um produto que funcione. Todos na nossa equipe já trabalharam em empresas bem sucedidas, então não precisamos ficar ao lado de cada um ensinando como fazer.

O poder tende a ser solitário. O que você faz para evitar o isolamento? Existe isso em startups?
Temos uma equipe pequena e todos pensam o negócio como se fosse deles, então não é algo tão solitário onde você tem um “dono” e vários funcionários. É como se fossemos vários sócios trabalhando juntos. Neste aspecto, não há solidão, tudo é feito de forma colaborativa.

O que você aprendeu no Peixe e está replicando no Prefer? E o que você não repetiria?
O que estou replicando: a parte de contratação e montagem. No Peixe, tínhamos uma das melhor equipes de tecnologia. E o que não estou repetindo? Bom, são casos diferentes. No Peixe, o modelo já estava pronto no primeiro dia. Assim que lançamos a oferta, ela já vendeu logo. No Prefer, estamos desenvolvendo um modelo de marketplace nunca feito em lugar nenhum do mundo. O modelo ainda não funciona.

Os fundadores do Peixe Urbano Alex Tabor, Julio vasconcellos e Emerson Andrade, em 2012 (imagem: reprodução internet).

Os fundadores do Peixe Urbano Alex Tabor, Julio vasconcellos e Emerson Andrade, em 2012 (imagem: reprodução internet).

Temos uma tese, uma ideia, mas ela ainda não está rodando 100% como a gente gostaria. Estamos um passo atrás do que estávamos no Peixe, tentando desenhar o modelo, que corresponde a uma série de testes. Temos que resolver um quebra-cabeça e isso não se faz à força. É preciso ter perspectiva, deixá-lo de lado um pouco, voltar a ele. Não é algo que se faça com mais horas de trabalho, é preciso ter horas com maior qualidade. Criamos uma versão, recebemos feedback dos clientes, melhoramos uma nova versão, e ficamos repetindo este ciclo, até termos algo que fique cada vez melhor. Só queremos crescer e expandir quando tivermos um app que funcione super bem. O modelo inicial do Peixe funcionava muito bem, só que não estava 100% claro se poderia funcionar em qualquer cidade do Brasil.

Hoje, antes de escalar, temos que ter certeza que o modelo pode funcionar em outros lugares

No Peixe tínhamos concorrentes, e por isso precisávamos escalar com pressa. No Prefer não temos isso. Não sei se um dia teremos e precisaremos mudar a estratégia. Por enquanto, estamos focados em melhorar o produto.

No Prefer, você tem focado bastante no público “mãe”. Por quê?
O grupo demográfico que mais utiliza os serviços da nossa plataforma são mulheres – elas buscam profissionais de beleza e saúde e, quando mães, profissionais como babysitter e professor particular. Mães, entre 35 e 45 anos, têm mais poder aquisitivo para contratar – e se elas forem e dona proprietárias de casa, ainda precisam de serviços de arquitetos, marceneiros e eletricistas. Uma mulher dentro destes critérios e nesta faixa etária, em Nova York, usa cerca de 15 profissionais de forma recorrente. Já um menino de 20 anos em Manhattan deve usar dois profissionais. Então, quanto mais profissionais um cliente busca, mais utilidade tem o nosso serviço.

Quais as próximas cidades que você pretende entrar? Qual objetivo de longo prazo do Prefer?
Ainda não temos cidades específicas, mas imagino as grande cidades americanas. No entanto, podemos mudar essa estratégia. Hoje, por exemplo, estamos fazendo bastante divulgação no Brooklyn, no bairro Park Slope, onde há uma grande concentração de famílias com filhos pequenos e um aspecto de comunidade, onde as pessoas se falam um pouco mais e estão mais interessadas em compartilhar serviços com os vizinhos. Se notarmos que este comportamento tem continuidade, talvez faça mais sentido lançarmos o Prefer em uma cidade mediana, com este espírito de comunidade, em vez de ir para uma Los Angeles.

Qual o maior desafio do site?
Ainda não ter chegado em um produtos que as pessoas usem com freqüência. As pessoas gostam, acham interessante, mas ainda não usam com a freqüência que a gente quer.

Nosso desafio não é apenas desenvolver o produto certo, mas atrair as pessoas certas para usá-lo

É importante crescer o número de usuários para que seja interessante para todo mundo. Sempre tive interesse em juntar bons profissionais com clientes, era um problema que a gente tentava resolver no Peixe, e que agora estamos fazendo em outro caminho. A idéia não é juntar “qualquer” eletricista com “qualquer” cliente. Queremos trazer o melhor eletricista para um cliente, e acreditamos que a melhor forma de juntar as pontas é por meio da indicação de sua rede social, com pessoas que você confia.

Uma vez que as pessoas se conheçam pelo app e estabeleçam relações profissionais, não há o risco de elas pagarem os serviços fora do Prefer?
Existe. Mas vemos que ambos os lados preferem usar os meios eletrônicos. Normalmente, para se marcar uma babysitter uma mãe manda uma mensagem de texto para diversas delas, que demoram para responder. No app você consegue ver os horários disponíveis, já reserva e já paga. É como fazer uma reserva no Open Table. Já o pagamento funciona como no Uber. Para o prestador do serviço, quanto trabalhos ele fizer via Prefer, mais visibilidade terá no network daquele cliente. As taxas que o Prefer cobra são as mesmas que os profissionais teriam de pagar a um cartão de crédito ou PayPal.

Qual é a sua relação pessoal com a tecnologia? Cite seus três gadgets ou apps prediletos.
Engraçado, não sou um cara muito de tecnologia, vidrado nas últimas novidades. Recentemente, comprei aqueles AirPods da Apple, que são headphones sem fio – inclusive estou usando neste minuto, falando com você. Uso o app do Starbucks todos os dias, que permite que você corte a fila e pague de forma rápida. Em casa, usamos o Sonos, um sistema de som que é todo wi-fi, monitorado por aplicativo – cada quarto da casa pode tocar uma musica diferente.

Como e onde você consome informação no dia a dia?
Recebo notícias de formatos e fontes variadas. Leio o New York Times, escuto bastante podcasts, pelo menos uma meia dúzia. Meu favorito é feito pela rádio NPR, sobre empreendedorismo. Chama-se How I’ve built this e traz histórias muito boas. Também recebo notícias diárias do mundo de tecnologias, como newsletters, incluindo manchetes do dia pela Business Insider e também da Techcrunch. E recebo a newsletter do jornal O Globo, para saber o que está acontecendo no Brasil.

Um livro, um filme e uma música que tenham feito a sua cabeça recentemente.
Durante as eleições do ano passado, li Game Change, sobre as eleições presidenciais americanas de 2008, a de Obama. Foi interessante ver como funciona uma campanha por dentro, até pela perspectiva de se montar uma equipe, observar a estratégia. Muitas aparecem no meu Spotify, mas nenhuma que tenha me impactado. Ontem assisti ao filme Lion. O impacto deste filme foi nos lembrar de como vive o resto do mundo. Aqui, acabamos vivendo em uma bolha.

Qual é a sua principal virtude como profissional?
Acho que sou ponderado. Gosto de escutar as opiniões de todos e levá-las em consideração. Nunca tomo uma decisão baseado no consenso, mas tento incorporar o feedback, ou pelo menos a visão de todo mundo – mesmo se eu discordar daquilo. Este canal de comunicação aberto ajuda bastante a decidir.

Que vício você conseguiu superar? E que vício ainda falta superar?
Um vício tangível: eu tomava cerca de quatro litros de Coca Zero por dia. Há dois anos, parei. Não tomo mais refrigerante. Tem sido algo bem positivo. Hoje, não vejo nenhum outro vício a me desfazer.

O que você mudaria em sua própria rotina, se pudesse?
Queria ter mais tempo para ler sobre temas não relacionados a trabalho.

Como imagina que as pessoas vão lembrar de você? Qual é o legado que você está construindo?
Sempre tentei montar um negócio, tanto no Peixe quanto no Prefer, que melhorasse a vida das pessoas e que tivesse impacto num grande número de usuários. No Prefer almejamos ser uma plataforma para melhorar a rotina de qualquer profissional independente, para que eles tenham melhores clientes, mais tempo livre. Eu gostaria de entregar esta visão.

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