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“Não tenha medo. Falhar com 25 anos faz parte. Ou você se sacrifica com 25 ou vai se ferrar com 50”

- 27 de julho de 2017
Sidney Rabinovitch, sócio fundador da FOM, conta como é empreender aos 50 anos, perder amigos, ressignificar seu casamento e fala da obsessão que o fez prosperar.
Sidney Rabinovitch, sócio fundador da FOM, conta como é empreender aos 50 anos, perder amigos, ressignificar seu casamento e fala da obsessão que o fez prosperar.

Sidney Rabinovitch tem 60 anos. Há 14, idealizou e fundou a FOM, empresa brasileira de itens “de conforto e bem-estar” que fabrica almofadas, pufes, acessórios de viagem, brinquedos (com a marca Floc), travesseiros e produtos médicos e fisioterapêuticos (na FOM Meds). A estrutura é robusta: são 13 franquias, 27 pontos próprios e uma fábrica de 3.200 metros quadrados com capacidade de produzir 4 mil itens por dia. O que é mais fácil de ver, porém, são os quiosques, geralmente em shopping centers, abarrotados com dezenas de itens coloridos, bem pop.

Mas o papo com Sidney não é para fazer crer que tenha sido tranquilo alcançar tudo isso. Nossa ideia é convidá-lo a revisitar sua jornada para contar o que ele aprendeu, por exemplo, ao decidir criar uma empresa do zero já mais maduro, em vez de tentar alguma colocação mais convencional no mercado em que atuava (turismo, nada a ver com fofuras de apertar). “Para você ter ideia, minha família quis me interditar”, conta Sidney.

A FOM é essa marca de coisas irresistivelmente fofas e apertáveis. Sydney começou o business costurando almofadas na mesa de jantar.

A FOM é a marca dessas coisas mega fofas e apertáveis. Sidney começou o business costurando almofadas na mesa de jantar.

Ele começou a trabalhar aos 21 anos, antes mesmo de se formar em Administração pela Faap. Iniciou no banco Safra, depois passou pelo banco de investimentos Iochpe. Em seguida, tocou uma empresa grande de mão de obra que prestava serviço para a construtora do pai, a Fishberg-Rabinovitch. “Detestei”, diz. Então, em 1983, decidiu empreender pela primeira vez com uma loja de motos. Mas, depois de sofrer um acidente num enduro, avaliou que só comprar e vender motos ficaria aquém do que ele queria.

Um headhunter sugeriu, então, que ele fosse trabalhar com turismo porque falava várias línguas e tinha experiência internacional (ele tinha “mochilado” por um ano na Europa). Sidney o ouvir e voltou ao mercado formal, na área de hospitality e Marketing, onde atuou por 15 anos. Passou pela Fenix Operadora, Maringá Turismo até que a vontade de empreender voltou: “Montei a minha agência de turismo, fiquei com ela até a época em que as companhias de aviação diminuíram muito as comissões dos agentes de viagem, depois vendi”. Em seguida, ele foi contratado para dirigir a Companhia Transamérica de Hotéis e a Transamérica Flats, ambas do Banco Real. Sairia do alto cargo em 2001 quando, devido a uma crise financeira no grupo, foi demitido.

Fase difícil. À época, seus filhos tinham 6 e 8 anos, é bom lembrar. Cansado do ir e vir corporativo, rendeu-se à vontade de empreender apostando em uma nova ideia. Junto da esposa, Betina Lafer (da família da fábrica de móveis) Sidney descobriu-se um empreendedor com capacidade criativa para criar usos para uma matéria-prima nova, as micropérolas de EPS (poliestireno expandido), trazidas por Betina da Maison&Objet de Paris. São elas que dão a fofura característica aos produtos da FOM.

Leia os principais trechos da conversa em que ele conta os altos e baixos que viveu até a consolidação de seu negócio. “Foi a entrevista mais terapêutica que eu dei. Relembrei fatos de uma fase complicada da minha vida”, ele disse. A seguir, o divã.

O que foi mais difícil quando você decidiu não mais voltar ao mercado corporativo e começar a FOM?
Foi um baque porque eu vinha de um status de diretor, tinha carro, viajava em jatinhos… Meus filhos cresceram vendo o pai numa posição bacana. Quando percebi que nada disso me servia mais e eu precisava me reinventar eu tinha 42 anos.

Uma coisa é ser jovem, subir, descer, empreender, voltar para o mercado corporativo. Mas eu não era mais moleque

Quando você tem família formada, nível de vida e despesas muito altas é muito doloroso. Eu saí do terno e gravata, carro bacana e secretária para trabalhar numa mesinha, no terceiro andar da minha casa, tentando montar um outro negócio. Foi um turmoil porque eu decidi que queria fabricar. Não queria mais serviço, queria produto. Algo que não fosse fashion, não fosse descartável e tivesse função, que não fosse superluxo, que tivesse design e fosse acessível.

No começo dos anos 2000, ir para a área de serviço era tendência. Você quis sair da área que todo mundo queria entrar. Por quê?
Para você ter ideia, minha família quis me interditar quando falei que sairia de serviços para fazer produtos, indo totalmente na contramão. Todo mundo tenta terceirizar e se livrar das indústrias, fábricas e mão de obra, mas para mim era claro que eu queria o oposto. O problema era que não tenho formação em produção, sou de marketing. Quando montei a FOM, não sabia nada de EPS, de engenharia química, varejo, produção, máquina de costura, de corte, logística! Essa era uma grande dificuldade, mas o insight era tão grande…

Meus ex-colegas, com quem eu costumava tomar o famoso uisquezinho da sexta-feira, me questionaram. Contei que tinha descoberto uma matéria-prima nova, as micropérolas de EPS, e que estava montando um negócio para fabricar almofadas com elas. Eles acharam que eu ia pedir 1 milhão de dólares ao BNDS e construir uma fábrica, mas eu disse que estava trabalhando em casa, cortando tecido na mesa de jantar. Eu tinha dinheiro para sustentar a família, não para investir.

Lembro perfeitamente de me perguntarem se eu estava brincando de fazer almofadinha no fundo do quintal. Nunca mais me chamaram para o happy hour. Vivi um período muito solitário

Ser empreendedor é muito solitário. Para mim foi mais porque ninguém, nem minha família, acreditava. Eles achavam que eu deveria procurar emprego na minha área, enquanto eu queria fazer almofadas em escala industrial, com design e preço acessível.

Foi difícil também para os meus filhos. Fiquei quatro anos imerso no negócio, sem viajar com a família. A certa altura, quando eles perceberam que a casa-fábrica não era brincadeira, meu filho perguntou: “Pai a gente vai ter dinheiro para continuar indo à escola?”. Foi uma época de muita insegurança para eles porque eu falava a verdade. A minha mulher brigava comigo porque achava que eles não precisavam saber de tudo, mas eu não gostava de mentir. Quando comecei a empresa, eles tinham 8 e 6 anos.

O que você fez com o ego nessa época?
Embuti e tranquei meu ego. Uma das coisas que me ajudou nessa fase foi meditar. Era muita pressão. Acabei desenvolvendo um negócio que foi muito bom para sobrevivência e muito ruim, por outro lado: um firewall emocional. Se alguém me falasse que eu era louco e que não ia dar certo, eu não conseguia escutar. Eu acreditava que aquele era o caminho. Eu enxergava os produtos e, mesmo antes de ter os pontos de venda, já sabia que também teria varejo.

E o fato de ser tudo adaptado gera uma tensão… A gente não tinha de quem copiar um business. Criamos uma forma de operar, de expandir o EPS, e hoje somos referência mundial nisso. Foi uma época em que eu não relaxava, era tudo tão tenso: a demanda familiar, comercial, fabril, da indústria plástica. Não sei como tive saúde para tocar tudo isso e ficar pendurado em banco de seis a oito meses por ano.

Você punha a mão na massa?
Sim! No começo eu dirigia a Kombi, fazia entrega, pegava a duplicata e ia descontar porque precisava de dinheiro. Eu e Betina enchíamos os pufes na mão, num galpão alugado, com compressor emprestado e com ajuda do segurança da rua, que depois se tornou motorista da FOM, e da empregada doméstica. Existem duas matérias-primas, as pérolas e as micropérolas de EPS. A grande dificuldade era achar fornecedor das micropérolas. As pérolas, com que fazemos os pufes eram uma commodity, muita gente já tinha. Então, decidi começar fazendo pufes e, para isso, precisava de um cliente. O primeiro foi a Tok&Stock, que representava 70% do faturamento.

Betina e Sydney, sociedade dentro de um casamento de 27 anos.

Betina e Sidney, sociedade dentro de um casamento de 27 anos.

Daí, em 2004, tomei coragem e decidi formalizar. Aluguei um galpão e na mesma época consegui achar quem fizesse as micropérolas de EPS e um outro fornecedor que as expandia. Então, comecei a fazer as almofadas, que ninguém mais fazia, e vender para a Etna. Esse foi o grande pulo do gato. Mas, numa disputa pessoal entre esses compradores, perdi os clientes. Só não quebrei porque eu era muito pequeno.

Em novembro de 2006, tomei a decisão estratégica de ir direto ao consumidor final. Eu acreditava que tinha produto para isso. Como não tinha dinheiro para abrir loja, abri meu primeiro quiosque no Shopping Market Place. Em 2008, decidi abrir franquias porque entendia que precisava ocupar espaço rapidamente.

Que conselhos gostaria de ter recebido no começo do seu empreendimento?
Se eu tivesse tido um sócio ou alguém com uma visão um pouco mais de fora teria sido muito bom porque eu tinha a ideia de que precisava abrir pontos em Rondonópolis, Boa Vista, Manaus, Belém. Me meti a abrir isso tudo e foi um raciocínio errado. Se alguém tivesse me brecado eu teria perdido muito menos dinheiro e passado anos mais tranquilos. Teria impedido a minha volúpia de ocupar lugares que não tinham a ver com o nosso conceito: eu vendo conforto e bem-estar. Não vendo almofadinha, eu vendo FOM.

Demorei para aprender a não carregar posições deficitárias. É melhor ser menor, mais eficiente e rentável do que ser maior e jogar nas costas da fábrica o prejuízo

Eu, erroneamente, persisti nisso por três anos. Deveria ter fechado posições antes e talvez por ego, tenha preferido acreditar que era um problema da área comercial ou de gestão. Tudo que eu demoro para aprender é custoso. O meu business não é o mundo do mercado financeiro, em que se dá altas tacadas e ganha-se muita grana. Aqui é orgânico, pouco alavancado.

Outra coisa que gostaria de ter sido avisado é que quando você entra no mundo de franquias com a tua marca, com o teu negócio, você sai de um esquema profissional e entra num esquema altamente passional. Como a empresa era pequena, eu vendia a franquia e depois ia resolver problema de franqueados que se separavam, de assédio, racismo, brigas etc. Entrava numa ciranda psicológica com pessoas.

Depois, virei empresa Endeavor, vieram os mentores, as consultorias. Como não tenho sócios na empresa-mãe (Betina é diretora criativa e dona de empresas de varejo), a Endeavor foi muito importante na minha vida. Um dos meus mentores foi o Artur Grynbaum, do Boticário. Na minha vida tudo foi por desabamento, nunca por planejamento. Eu sou péssimo em planejar, não tenho disciplina. Eu trabalho muito bem em crise. Por isso, agora trago gente boa em planejamento para trabalhar comigo.

Até quantos anos você se imagina trabalhando?
Não quero estar sentado aqui aos 80 anos. Quero que meu filho esteja aqui, ou teremos de profissionalizar a administração. Já houve fundos de investimento nos procurando, empresas de fusões e aquisições, Family Offices e private equity querendo entrar. Foi legal escutar essas pessoas e aprender que não somos tão grandes assim e que eu não tenho índole para ter algum fundo que venha, invista e daqui cinco anos queira me vender. Acho que tenho razão de crescimento ainda para deixar essa empresa uma joia mais lapidada, antes da entrada de sócios.

E tem também a história de meus dois filhos que cresceram. O mais velho, Gabriel, formou-se na FGV, foi para o mercado trabalhar. Um ano e meio atrás, cogitou vir para cá. Me vi diante de uma decisão difícil: dizer não a um filho. Ele era muito novo, tinha pouca experiência e fiquei com medo de colocá-lo aqui como “o filho do dono”. Eu sabia que ninguém iria questioná-lo aqui dentro e que ele só seria demitido por mim e essa é uma situação que não quero viver! O Gabriel voltou ao mercado corporativo e, daqui duas semanas, vai se mudar para os Estados Unidos, onde viverá experiências bárbaras numa multinacional. Combinamos que ele virá para FOM daqui cinco anos, mas corro um risco enorme de ele querer ficar por lá!

Quando eu tiver que passar a bola, vou chamar o Gabriel e faremos um planejamento para entregar a autonomia. Por outro lado, tenho outro desafio, o que vou fazer depois? Quero continuar trabalhando, mas quero ser feliz no que eu estiver fazendo.

Já tem alguma ideia?
Dar aula, ser coach. Adoro passar minha experiência para outras pessoas, tenho orgulho de poder ajudar. Muitos filhos de amigos se sentam à minha frente e perguntam minha opinião sobre empreender, deixar o emprego e viabilizar uma ideia. Digo que eles precisarão de pelo menos cinco ideias para que uma dê certo. Isso é estatística. Mas afirmo que não se pode deixar de fazer a primeira porque todas que virão depois dependem dela. O mais importante é não ter medo de falhar. Falhar com 25 anos faz parte. Ou você se sacrifica com 25 ou vai se ferrar com 50. 

Qual o segredo para equilibrar a administração de uma empresa e um casamento de 27 anos?
Costumava dizer que nunca trabalharia com produção e nunca trabalharia com a minha mulher. O raio caiu duas vezes na minha cabeça (risos)! A Betina é muito inteligente, detalhista, altamente competente e talentosa, mas foi assustador descobrir que eu teria de fazer a FOM com ela. Tivemos uma situação de quase rompimento, quando meu pai estava deprimido, minha mãe estava morrendo na UTI e eu no terceiro ano da empresa, montando o varejo. Tive um breakdown. Chegou uma hora em que não consegui mais. Cheguei no meu limite e caí no fundo do poço (pausa emocionada). Eu tinha acabado de fazer 50 anos.

E como foi a volta por cima?
A recuperação foi de ordem espiritual. Tenho formação em astrologia e isso sempre me ajudou. Sou peixes com ascendente em capricórnio. Então, para tocar o meu dia a dia chamo o capricórnio. E, durante a noite, tenho de mudar de canal, voar e ter a abertura espiritual de um cara de peixes.

Hoje em dia, não posso mais falar de trabalho nos fins de semana. Para conseguir tocar a FOM, preciso ter um lado preservado

Preciso ter um pensamento para o Terceiro Setor, que não apenas sustentar esta empresa o tempo todo. Yoga e meditação voltaram a ser muito importantes na minha vida. Me resguardo e me recarrego com isso. Preciso de uma válvula de escape, então, ando de moto até hoje, mesmo depois dos acidentes que tive. Preciso ter o meu tempo sozinho. Na moto é bom porque quando saio faço 300 a 400 quilômetros… Ao pilotar, só foco na estrada e esvazio a cabeça.

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