“Nem tudo acaba em samba. Reinamos no Carnaval mas percebemos que nossa paz estava fora dele”

- 24 de fevereiro de 2017
Priscila Rosa, que hoje é jornalista, e Priscila Hirle, médica.
A jornalista e ex-porta-bandeira do Salgueiro, Priscila Rosa, ao lado da médica e a ex-Rainha do Carnaval, Priscila Hirle.

 

por Priscila Rosa e Priscila Hirle

Somos duas Priscilas. Priscila Rosa é jornalista. Priscila Hirle é médica. Além do nome, temos muitas outras coisas em comum. Nascemos em família humilde carioca, nos conhecemos há mais de 10 anos e somos grandes amigas. Nos identificamos pela forma de encarar a vida e pela alegria constante em nossos corações e no dia a dia. E isso só é possível, hoje, porque decidimos agradar à nós mesmas e jamais aos outros. Há 12 anos, ambas nos formamos na faculdade e, hoje, estamos no auge de nossa realização. Família, trabalho, tudo em paz. Mas nem sempre foi assim.

Antes disso, nós fomos do mundo do samba — uma foi Rainha do Carnaval 2004 do Rio de Janeiro, outra, porta-bandeira por 10 anos de diversas escolas. Passamos muitas dificuldades, sofremos assédios e racismo. Nunca nos vitimizamos. Em vez disso, seguimos em frente e fomos além. Por opção, deixamos o mundo de samba de lado e nos agarramos à escolha de viver a plenitude ao lado de nossos filhos e família. Longe dos holofotes, perto da felicidade.

Não somos heroínas. Não somos seres superiores. Qualquer um pode alcançar êxito e triunfar. Desde que entenda que triunfar não é ficar rico

Ou simplesmente casar. Ou viver os padrões impostos pela sociedade. Triunfar é ser feliz. Acima de tudo, é almejar o bem do próximo e sempre enriquecer o seu “eu” fazendo aquilo que gosta. Se você tem aptidão para o canto, ou pintura ou literatura, poderá se beneficiar de seu talento, além de beneficiar e ajudar outras pessoas.

Nós, Priscilas, somos comunicativas e portanto exploramos essa vocação para escrever um livro sobre nossas jornadas. Do carnaval à transcendência. Da ilusão à realização. O Segredo É Você é, ele próprio, mais uma faceta da nossa força de vontade pois, sem nunca termos escrito sequer um artigo, resolvemos que tínhamos que fazer esse livro. Levou quase dois anos de dedicação e trabalho. E eis que, em janeiro deste ano, finalmente ele foi publicado. Nosso livro traz histórias reais das nossas vidas, acompanhadas de dicas para superação de problemas que envolvem o contexto da vida de qualquer pessoa.

Não precisa ter sido Rainha do Carnaval para ter dúvidas sobre o que você está fazendo no mundo

No livro, relatamos momentos marcantes maravilhosos de nossas vidas. Falamos da maternidade, de autoestima, de beleza e de conquistas profissionais. Mas também relatamos momentos tristes que atravessamos, como depressão, síndrome do pânico, racismo, machismo, inveja e assédio.

No livro, as ex-rainhas do carnaval falam de suas trajetórias e também da vida além da festa.

No livro, as ex-rainhas do Carnaval falam de suas trajetórias para inspirar as pessoas a mudaram suas vidas.

Somos convictas de que as experiências negativas vividas nos serviram de aprendizado. Não tivemos vergonha nem medo de expor nessa obra literária cada passagem de nossas vidas, mesmo as mais desagradáveis. O resultado é um livro feito com emoção e sinceridade, que pretende levar quem lê a se questionar e refletir sobre o que pode ser feito para tornar sua vida mais prazerosa. Para encontrar dentro de si mesmo o caminho para a plenitude.

Nossa história no Carnaval pode ser resumida assim. A Priscila Hirle passou, aos 19 anos, para a tão sonhada faculdade de Medicina. Em 2004, no penúltimo ano na faculdade, sem nunca ter entrado numa escola de samba, resolveu se inscrever no concurso de Rainha do Carnaval do Rio de Janeiro, de olho no prêmio de 9.000 reais, que ajudaria a pagar a formatura. Ganhou o concurso. Atuou com glamour no seu reinado no Carnaval.

A Priscila Rosa é filha única e sempre foi mimada, guerreira e ativa. Fez ballet, sapateado, jazz, nado sincronizado e até curso de areomoça. No ballet, aperfeiçoou a cadência como porta-bandeira. Começou no Salgueiro, seu berço fascinante de sambista e escola do coração, como porta-bandeira mirim em 1993 e lá ficou como segunda porta-bandeira principal, até 2002. Também foi porta-bandeira da Rocinha, Portela, Rocinha, Mocidade e União da Ilha, até encerrar o ciclo em 2008.

Nós duas brilhamos e fomos reconhecidas por isso. Vivemos com verdade e intensidade cada segundo de nossos reinados. No Carnaval, vivemos um mundo de fantasia e sonho, é verdade. Mas também sofremos ao nos depararmos com falsas amizades e falsos admiradores, que só queriam se mostrar para os outros ao nosso lado. Ao mesmo tempo em que o Carnaval é um momento mágico, é duro estar rodeada por tantos interesses e tanta ilusão. E, mesmo fora do Carnaval, sofremos problemas de assédio e de racismo. Isso é todo dia.

O racismo nos rodeia e é um fator quase que impeditivo para muitas pessoas alcançarem êxito na vida pessoal e profissional

Mas, como dissemos, apesar de todas essas barreiras, não desistimos e fomos em frente, em direção aos nossos sonhos. Nossas histórias no Carnaval foram interrompidas por nós mesmas há alguns anos. Resolvemos sair, pois tudo na vida tem o seu tempo e notamos que não seria possível manter de uma maneira satisfatória uma vida no samba em paralelo a outras tarefas — como ser médica e ser mãe, por exemplo. A decisão foi importante e mandatória. Não nos arrependemos de nossas escolhas. Hoje nossos filhos tem mães com dedicação intensa (Priscila Hirle tem um filho de 10 anos, Igor, e Priscila Rosa tem um filho de 1 ano, Yan) e nossos maridos têm esposas com tempo para dedicação.

Inspirar outras pessoas, principalmente mulheres a não desistirem dos seus sonhos através de nossas trajetórias é uma satisfação pessoal. Temos certeza que qualquer um pode alcançar um grau inimaginável de realização pessoal. Lembre-se que o primeiro passo é ser você mesmo e não se deixar escravizar com os preceitos que a sociedade tenta impor como corretos ou aceitáveis. Seja você mesmo, encare os desafios, não fuja de sua própria felicidade. O segredo é você.

 

 

Priscila Rosa, 34, é jornalista. Foi porta-bandeira por 10 anos do Salgueiro, Portela, Mocidade, União da Ilha e Rocinha e atuou em musicais. Também é cake designer e escolheu estar longe do samba para se dedicar à família e principalmente ao Yan, de 1 ano. É autora de O Segredo É Você.

Priscila Hirle, 38, é médica. Foi Rainha do Carnaval do Rio de Janeiro em 2004. Após de formar em Medicina, passou a se dedicar à profissão e à família. Fez quatro pós-graduações. Não tem pressa, mas vai fazer um mestrado logo. É autora de O Segredo É Você.

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